Sobre trotes

Meu sarcasmo me coloca em posição suspeita para esta manifestação.  Ano após ano, no início do período letivo universitário, o debate volta à tona, sempre com a mesma temática: o trote universitário nas faculdades paulistas e suas consequências fatais.  Impressionante como o lazer é perigoso em São Paulo: de torcer para o seu time de futebol a fazer uma brincadeira com novatos na universidade – morre-se muito mais disso em São Paulo do que em qualquer outro lugar do país.  Por que?  Falta de praia?  Não acredito que seja só em decorrência da lei das probabilidades.  Enfim…

Voltemos ao tema: o trote.  Por que trotes tão violentos?  Ou antes, por que trotes?

Eu ainda aplico trotes.  Toda vez que alguém novato me é apresentado no trabalho, eu lhe aplico um trote.  Quanta infantilidade!… dirão uns.  Falta do que fazer, dirão outros.  Podem me acusar de imbecil, sem noção, até de pouco sério.  Mantenho minha posição.  Trotes são necessários ao bom funcionamento de grupos de trabalho – da igreja ao trabalho, da escola à roda do bar…  desde que sejam adequados.

E o que é um trote adequado?  O trote adequado deve ter, necessária e simultaneamente, duas características: ele deve ser inclusivo e instrutivo.  Adicional, mas não essencialmente, ele também pode ser engraçado.

A principal função do trote é fazer com que aquela pessoa completamente estranha a um grupo já existente se ambiente com os novos colegas, se insira naquele meio e encontre, o mais rapidamente possível, o seu lugar, a sua função.  Com isso, ele poderá rapidamente mostrar suas habilidades e contribuir para a melhoria da qualidade do grupo como um todo.  Ele precisa conhecer e ser conhecido.  Por isso o trote deve ser inclusivo.  A brincadeira deve ser interativa, deve permitir ao calouro conhecer os seus veteranos e deve permitir aos veteranos conhecer o calouro.

A segunda função do trote é ensinar àquela pessoa completamente estranha ao ambiente no qual ela está se inserindo (ou sendo inserida) os mecanismos de funcionamento já existentes naquele ambiente, para que ele possa se adaptar e pautar sua conduta segundo tais regras, sem causar constrangimentos aos demais nem dificultar sua aceitação no grupo.  Assim, ele pode rapidamente se sentir um membro do grupo e fortalecer a identidade do grupo – e, eventualmente, propor melhorias para o seu funcionamento.  Por isso, o trote deve ser instrutivo.

Por que não, então, pintar calouros de palhaço e conduzi-los ao banco de sangue sugerindo que eles doem sangue – os veteranos podem doar sangue também, para dar o exemplo – e, enquanto isso, batem o maior papo e se conhecem (obviamente, nem todos podem doar, mas esses também podem acompanhar a viagem e bater papo)?  Por que não, então, pintar calouros de palhaço e conduzi-los a um hospital infantil para fazer palhaçadas para crianças – os veteranos também podem fazer as suas palhaçadas?  Por que não, então, colocar os calouros para cozinhar uma sopa e depois distribuir para moradores de rua, pessoas carentes, etc – que tal usar uma instituição de caridade como parceira?  Por que não, então, colocar os calouros para virem para a faculdade vestindo todas as roupas velhas de seus guarda-roupas, uma por cima da outra, obrigando-os a ficar com apenas uma e distribuir o restante para pessoas que não as tem?

Não faltam ideias.  Faltam miolos para tê-las e colhões para pô-las em prática.

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One Comment

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  1. Eu acho que ser engraçado é essencial ao trote. Quanto ao resto, assino embaixo.

    A graça é consequência do estado de espírito de quem aplica e de quem leva o trote.

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