Fale ao motorista somente o indispensável 

– Aê, Piloto, rapidinho, deixa eu te dar uma ideia.

Ele olhou para trás com o rabo do olho e voltou a olhar para a frente, agora esticando o ouvido na minha direção.

– Seguinte: tem necessidade de dirigir mal assim? Fala sério!
– Como é que é?
– É isso mermo, mermão. Tá achando que a gente aqui é fruta e que o ônibus é liquidificador? Tem necessidade de jogar o ônibus em cima dos outros carros, frear desse jeito, avançar sinal?
– Tu tá falando de mim? Vai te catar! Eu dirijo do jeito que eu quiser?
– Como é que é? Mermão, presta atenção: tem um monte de regra de trânsito pra seguir. Não pode avançar sinal, tem que parar no ponto… Onde é que já se viu?! Olha aquela merda que tu fez ali atrás, fechou a porta lá de trás em cima do velhinho que ainda tava descendo. Não fosse todo mundo gritar tu ia arrancar com o ônibus e arrastar o cara até Deus sabe onde…
– Moleque, presta atenção: a culpa é minha se a porta é lá atrás e eu tô aqui na frente? Reclama com o patrão, com o prefeito, comigo não!
– É responsabilidade sua olhar no retrovisor. Se não dá pra ver, não sai do ponto final.
– Fala sério!…
– Tô falando sério sim. E a bandalha que tu fez ali atrás, que não seguiu o itinerário?…
– Que itinerário?
– O itinerário da linha.
– O itinerário da linha quem faz sou eu!
– Tu tá de sacanagem, né? Quer que eu abra a internet aqui para te mostrar o itinerário?
– Ô abusado, presta atenção: o itinerário do meu ônibus quem faz sou eu, entendeu bem? O itinerário certo é o que eu disser que é o certo. Pode pegar esse celular, abrir a internet que você quiser, e enfiar naquele lugar. Isso aí não vale de nada para mim.
– E a contramão que tu fez ali atrás? E os três sinais que você avançou? Também só para no sinal se você quiser…
– Agora a dondoca vai querer que eu siga todas as regras de trânsito? Quer que eu ande só na direita, que eu dê seta a cada esquina, que eu use cinto de segurança, que eu pare em sinal de pedestre… A viagem não vai terminar nunca!
– Claro que eu quero! É o mínimo que eu espero de você.
– Mermão, esquece. Não vou mais discutir com você. Tu tá maluco! Parece que nunca andou de ônibus! Parece que não mora aqui no Rio de Janeiro. Essas tuas frescuras podem dar certo lá no teu mundo, mas aqui é Brasil, mermão, e eu faço o que eu quero. Quer chegar logo? Quer chegar rápido? Então tem que ser do meu jeito! Vai encher o saco de outro!

E foi assim que eu deixei mesmo a discussão para lá e resolvi descer do ônibus. Óbvio que ele não parou para eu descer, apesar da cigarra acionada. Me largou só no ponto seguinte.

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3 Comments

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  1. E você denunciou no 1746 não e?

    Não é uma história verídica. Quero dizer, o diálogo não aconteceu, mas os fatos sim.

    • Você devia denunciar no 1746 do mesmo jeito. A propósito, a resposta ao comentário da Irmã frustrou o comentário que eu faria inicialmente, então vou ter de ficar com esse mesmo.

      Denunciar para que? Se não adiantar nada, perdi meu tempo. Se resolverem o problema, eu perco as minhas histórias. Perco nos dois casos.

  2. Apesar de achar que todo relato não passa apenas de um conto, o apllicativo “no ponto certo” é uma alternativa.

    Não serve para nada…

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