O “Sítio do Picapau Amarelo”

A viagem até São Paulo foi dividida em três partes, para ficar menos monótona e mais suportável para as crianças.  A primeira quebra foi em Penedo, para visitar parentes.  A segunda, em Caçapava.  Aliás, em Caçapava nós saímos da Rodovia Presidente Dutra.  A parada, mesmo, era no município vizinho, chamado – não por acaso – Monteiro Lobato.

Sítio do Picapau Amarelo
O “Verdadeiro Sítio do Picapau Amarelo”

A ideia era visitar o autoproclamado “Verdadeiro Sítio do Picapau Amarelo“.  Referir-me a ele dessa maneira não é um demérito.  A questão toda é: o sítio é o local onde Monteiro Lobato nasceu e viveu seus primeiros sete anos de vida (na época, tudo ali era Taubaté, depois os municípios foram se subdividindo).  Até onde lembro, porém, do pouco que li sobre a sua biografia – preciso reavivar essas memórias -, as histórias do Sítio foram escritas e inspiradas em Bananal, onde ele viveu por algum tempo, não no Sítio Buquira (também o nome do rio que corta o sítio) – nome original do “Verdadeiro Sítio do Picapau Amarelo”.

Desconfianças à parte, eu fiquei particularmente satisfeito de ter estado em um local de razoável interesse histórico e constatar o excepcional estado de preservação do local.  Felícia, que tem curtido bastante as histórias do Sítio, também gostou bastante.  Isso, porém, era para ser o final da história.  Vamos começar do início.  Como chegar no Sítio.

Saindo da Dutra, é preciso andar um bom estirão até o Sítio.  Mineiros diriam que é logali, eu não.  São pouco mais de 20km desde a saída da Dutra (sentido Rio-São Paulo), que são percorridos em pouco mais de meia hora (veja o mapa abaixo).  Digitando no Waze o endereço “oficial” do Sítio (Estrada Municipal Monteiro Lobato 8000 – Caçapava), o Waze leva você até o início da Estrada que vai dar no Sítio; depois que o Waze disser que você chegou ao seu destino, basta seguir aquela estrada por mais uns 15 ou 20 minutos até lá.  A estrada vai começar a subir uma serra, vai ficar estreita a ponto de só passar um carro (reze para não encontrar alguém vindo na direção oposta), vai acabar a pavimentação (não vá em dias chuvosos!), vai começar a descer a serra, vai voltar a ser pavimentada, vai voltar a ter duas pistas de rolamento (mão e contramão) e o Sítio estará à sua direita.

É menos perrengue do que parece na explicação acima, mas não é tão fácil quanto um mero pit-stop num Graal.  E não se prepare para gastar lá mais do que meia hora para conhecer e o tempo que você julgar necessário para almoçar.

Sítio do Picapau Amarelo
A fachada e a entrada principal da Casa Grande

Isso porque há apenas duas coisas para se fazer ali: conhecer a Casa Grande e almoçar.  A visita à Casa Grande é guiada.  Começa pela entrada principal (foto ao lado), vai à sala de estar, à “biblioteca” – mais parece uma estante de livros do que uma biblioteca onde um sabugo de milho pudesse adquirir vasto conhecimento – passa pelos aposentos da família, pela gigantesca sala de jantar e termina na cozinha e nos aposentos privados da atual proprietária.

O mobiliário não parece ser todo da época em que Monteiro Lobato habitou a casa, mas é bonito e harmônico.  O estado de conservação da Casa Grande é, conforme eu disse antes, excepcional.  O problema da visita é o excessivo caráter ideológico do discurso do guia.  Ele realmente crê que ali está preservada uma parte fundamental da história do Brasil e que Monteiro Lobato era um guardião do grande futuro do país (quase um injustiçado).  Menos: Monteiro Lobato foi um notável escritor, grande crítico social e político, nacionalista sim, mas também falou suas besteiras.  O saldo de sua obra é positivo, mas daí a alçá-lo ao patamar de herói nacional vai uma diferença.  Mais: daí a alçar aquele lugar ao patamar de local sagrado da história nacional (o guia deu isso a entender) ou de patrimônio histórico também vai uma diferença.  E mesmo as referências que o guia faz às descrições do Sítio do Picapau Amarelo existentes nos livros de Monteiro Lobato são tão genéricas que se aplicariam a qualquer sítio – não dá para ter certeza de que foi mesmo aquele sítio que serviu de inspiração para suas histórias.

O Sítio é um imóvel privado, vendido à família da atual proprietária pela pessoa que comprou o Sítio de Monteiro Lobato – segundo explicou o guia.  A atual proprietária mora no Sítio.  É normal que nenhum centavo do poder público seja investido ali, assim como é normal que ela explore a memória do antigo proprietário com vistas a custear a manutenção do Sítio (e, eventualmente, amealhar algum lucro).

Sítio do Picapau Amarelo
A majestosa sala de jantar

O destaque da visita fica mesmo por conta do almoço que, infelizmente, não é servido naquela gigantesca e convidativa sala de jantar, mas na varanda dos fundos da Casa Grande.

A comida é preparada pela proprietária – uma senhora de baixa estatura, cabelos brancos, bem parecida com a descrição física da Dona Benta à qual todos nós nos acostumamos a idealizar, personificada pela Zilka Salaberry, que ela atendia, com a maior naturalidade, quando as crianças, inclusiva a Felícia, a chamavam de Vovó Benta.  A comida é muito farta e, principalmente, muito gostosa.  Comida de avó que mora na fazenda mesmo.  Comi de tudo e gostei de tudo – exceto do limão adicionado ao suco de acerola e ao suco de caju.  “É para cortar o gosto da fruta“, ela me disse depois, sem que eu pudesse compreender a razão pela qual alguém se interessaria em atenuar o gosto da acerola no suco de acerola ou do caju no suco de caju.  Para mim, ficou a sensação de que era uma limonada com acerola e uma limonada com caju.

E é bem aquela coisa de fazenda mesmo: você almoça com a galinha passando debaixo da mesa, o marreco gritando ali do lado, os cachorros dormindo no canto e o gato espreitando as sobras na janela da cozinha.  As crianças adoram; as madames mais afetadas se incomodam; quem está com fome não está nem aí para isso.  Aliás, as crianças também adoram conhecer o galinheiro, ver o cavalo no estábulo, os gansos e até cair numa piscina que fica ao lado do local onde é servido o almoço.

O pagamento – R$40 por adulto o almoço – é feito com a filha da proprietária, em dinheiro.  Um preço honestíssimo, diga-se de passagem.  O problema é dirigir depois de tanta fartura (acho que é por isso que há umas redes no pomar).

Anúncios

2 Comments

Add yours →

  1. Aqui em Portugal a série foi um êxito! 🙂 Eu adorei, e já era crescidinha quando passou na televisão!!! 🙂 boa semana!

    Aqui também. Tanto na primeira edição (mais célebre) quanto na segunda (mais recente e menos fiel ao original).

  2. Fiquei com vontade de conhecer por causa do almoço, porque eu nunca fui muito fã do Monteiro Lobato.

    O almoço vale a pena.

Você quer comentar? Clique aqui!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: