Prioridades

– Neste momento são meio dia e vinte e dois e está na hora do nosso RuaPórter. Silvana Travessini, onde é que você está hoje?
[Delay]
– Bom dia, Ana, eu hoje estou aqui na comunidade de Rocha Pedra, no distrito da Salvaguarda, Nova Sirambu, na periferia mesmo. E hoje nós vamos mostrar uma situação muito incômoda para os moradores. Olha só isso: lixo acumulado, esgoto a céu aberto, rua esburacada e chão de terra batida. Não tem asfalto, não tem água, não tem saneamento, não tem coleta de lixo… Gente, isso é um absurdo. Não é mesmo comunidade?
– É!
– É isso aí!
– É um descaso!
– Eu vou entrevistar aqui a Dona Idelaci, que mora aqui há onze anos. Dona Idelaci, bom dia, conta para a gente, isso aqui foi sempre assim?
– Foi sim, ou assim ou pior. Esse valão jogando esgoto, as crianças brincando, a gente tem medo de doença, não tem jeito. Entra prefeito sai prefeito e fica tudo aí do mesmo jeito. A gente já fez abaixo assinado, já protestou ali na rua, mas ninguém ouve a gente.
– Muito bem. E eu trouxe aqui o Jorge Souto, que é subsecretário administrativo da região. Sr. Jorge, o senhor tem conhecimento desse estado de calamidade no qual essas pessoas vivem?
– Bom dia. A prefeitura tem conhecimento sim.
– E o que a prefeitura vai fazer para ajudar essas pessoas?
– Nada.
– Como assim? Nada?
– Nada. A prefeitura não tem projetos para a região. A prioridade da prefeitura está voltada para a revitalização de comunidades maiores, que precisam mais dos recursos públicos e de investimentos sociais. Essa comunidade é pequena e, por esse motivo, demandaria muito mais recursos por habitante para efetuar as reformas necessárias. Como não há disponibilidade de recursos para efetuar obras em todas as comunidades simultaneamente, a prefeitura teve que estabelecer prioridades e algumas comunidades foram beneficiadas em detrimento de outras.
– Mas isso é um absurdo! E essas pessoas vão continuar vivendo assim? Nesse estado calamitoso? O senhor conseguiria viver aqui?
– Silvana, é preciso entender que o prefeito foi a pessoa eleita para estabelecer as prioridades no município. Você não pode sair por aí com uma câmera na mão tentando inverter essas prioridades. Em nenhum momento de sua campanha ele prometeu realizar essa obra. E toda vez que a prefeitura se curva a uma demanda pontual feita por você dessa maneira vexatória, várias outras pessoas deixam de ser beneficiadas. Por exemplo, para fazer essa obra, eu teria que realocar recursos que irão para a reforma de uma escola situada a um quilômetro daqui. Você quer ser responsável por essa escolha? Vamos lá na escola dizer para as crianças e para os pais delas que elas vão continuar estudando em salas de aula sem quadro negro, com goteira e banheiros destruídos. Aceita o convite?
– Não, o que a gente quer é que a prefeitura honre seus compromissos e ainda faça as obras necessárias para que essas pessoas vivam com dignidade.
– Olha, Silvana, eu acho que você já é bem grande para entender. A gente não pode ter tudo. Ou a gente aumenta os impostos, ou faz escolhas com os recursos que tem disponíveis. Isso acontece com as nossas vidas, porque os nossos salários não nos permitem ter tudo que queremos e acontece também com as contas públicas da prefeitura.
– Claro que eu entendo. Mas não tem nenhum jeito de o senhor ajudar essa comunidade?
– Olha, Silvana, claro que é possível fazer uma gestão junto ao prefeito e ao secretário para tentar ajudar a comunidade, mas isso depende de uma fria análise orçamentária, de um planejamento, de um projeto, de um cronograma… Se eu disser para a comunidade que daqui a seis meses isso vai estar pronto, eu estarei mentindo. Não posso marcar nenhum dia aí no seu calendário, porque eu nem sei se isso vai ser feito.
– E essa comunidade vai ficar aqui assim, vivendo desse jeito?
– Por enquanto sim, mas eles têm a alternativa de cumprir a lei e abandonar essa ocupação irregular.
– Entendido. Vocês ouviram, a prefeitura não vai fazer nada por vocês agora. Nós vamos seguir cobrando. É com você, Ana!

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conto, política

One Comment

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  1. Sinceridade pouca é bobagem. Quase um sincericídio. O.o

    Gostei da definição. Perfeita!

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