O Caso Campana – parte 2

No domingo seguinte à publicação da carta, o padre não via a hora de começar o sermão da missa de domingo de manhã, socialmente aceita como a mais importante do calendário litúrgico paroquial, por ser frequentada pelos idosos e mais antigos paroquianos.  Correu o que pôde com as orações preliminares.  Depois de fazer uma breve e superficial explicação dos textos sagrados lidos durante a missa, enveredou no assunto.

Mas hoje eu também queria falar de outro assunto.

Foi com muita tristeza que eu li, no jornal do bairro, a reclamação de uma senhora acerca do nosso sino.  Eu nunca podia imaginar que o sino…  vejam só, um pobre sino, inofensivo, pudesse incomodar alguém.  Há tanta coisa ruim nesse mundo, tanta maldade…  Vocês não viram, outro dia, a morte de uma menina por causa de briga com o namorado?  E quantas pessoas não morrem e passam fome por causa de guerras?  Sem falar na mendicância que a gente vê crescendo na nossa cidade e no nosso país cada dia mais, nas pessoas que sofrem com doenças sérias, sentem dor, ficam desamparadas, jogadas nos corredores de hospitais…  Como é que um mero sino vai incomodar?  Isso não é coisa de gente que tem Deus no coração.  Não é.

O sino só toca de sete horas da manhã até dez horas da noite.  Eu acho razoável o horário.  Eu vejo que às sete horas da manhã a maioria das pessoas, aqui e em tantos outros lugares, já está no trabalho, na escola, ou na rua a caminho da escola, da faculdade, do trabalho.  A lanchonete ali da esquina abre às sete horas.  O mercado ali embaixo abre às sete horas da manhã, mas antes disso já tem caminhão na porta entregando mercadoria, fazendo também um barulho.

Essa senhora, me parece, não vai ficar satisfeita se o sino for desligado.  Para quem ainda não sabe, o sino é eletrônico.  Há alguns anos, nós trocamos, para a tristeza do nosso coroinha, que adorava subir aquelas escadas para puxar a corda do carrilhão antes de todas as missas, por um mecanismo eletrônico, mais atualizado.  E aproveitamos para fazer com que o sino pudesse levar a todos uma mensagem de paz, lembrando da presença de Deus em suas vidas, e também fazer um serviço público à comunidade, informando o passar das horas.  Hoje o sino, além das badaladas, de hora em hora, toca música às 8h, às 12h, às 18h e às 20h.  É uma programação que eu considero suficiente.

Voltando ao assunto, essa senhora não vai se satisfazer se o sino for desligado, no meu ponto de vista.  Amanhã, ela vai reclamar do caminhão do lixo, dos aviões, dos passarinhos…  Eu tenho dúvidas se silenciar o sino irá resolver o seu problema.

Mas eu não quero ser o dono da verdade.  Esse mundo já está cheio de novos tempos, tudo muda, nada mais é como antigamente.  No meu tempo, seria inimaginável que se fizesse calar o sino de uma igreja.  Hoje em dia, não vou me surpreender se a igreja for acusada de ser má vizinha por tocar um sino.  Por isso, pergunto a vocês, fiéis paroquianos, o que vocês acham.  Digam, sintam-se à vontade.  Não se sintam intimidados.  Quem aqui acha que o sino incomoda?

Ninguém se manifestou.

E quem aqui acha que o sino deve continuar tocando, como faz habitualmente?

Todos se manifestaram.

E a missa continuou.

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One Comment

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  1. Eu tô ficando irritado com essa chatonilda.

    Fica assim não… De noite ela é legal. Ela só é chata assim de manhã cedo.

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