O aniversário do trocador

Vivendo numa cidade edificada e amuralhada (e também gradeada, aramefarpada, eletrificada, segurançada) como o Rio de Janeiro, é cada vez menos comum conhecermos terceiros que não sejam do nosso convívio habitual, como parentes, colegas de escola e trabalho.  Vizinhos?  Com as portas fechadas dos nossos apartamentos, só os vemos nos elevadores e nas fatigantes reuniões de condomínio.  Serviços?  Cada vez menos temos referências pessoais aos prestadores de serviços.  Preferimos errar na impessoalidade de atendimentos errantes a se habituar à freguesia tradicional.

Por isso tudo é raro que se tenha rotina e se conheça ou reconheça pessoas no círculo do hábito mais arraigado do seu cotidiano.  Some-se a isso o caos imprevisível da cidade, cujo grau pode variar aleatoriamente de acordo com o humor da própria cidade, da natureza, de um ser superior que a todos controla ou até mesmo de um único idiota que pode resolver, voluntária ou involuntariamente pôr tudo a perder.  Aquela previsibilidade desejável à vida cotidiana não existe.

Apesar de tudo isso, toda terça-feira de manhã eu pegava o mesmo ônibus, no mesmo horário, no mesmo ponto, para ir ao mesmo destino.  E, fazendo isso ao longo de dois anos, acabei conhecendo e reconhecendo as pessoas que o frequentavam, incluindo o motorista, o trocador e toda trupe do banco traseiro, que se esbaldava em festas animadíssimas lá atrás, sendo o trocador (naquela época sentado de frente para o ônibus, próximo à porta traseira) o regente da orquestra.

A farra era grande!  Risadas altas e intermináveis, música, histórias incríveis e divertidíssimas sobre eles próprios e sobre terceiros que eu jamais conheceria, rolava de tudo.  Numa época em que telefones celulares eram raros, só tinham sete dígitos e memória restrita a dez números, e internet era coisa restrita às grandes empresas (para passar um e-mail eu tinha que ir ao trabalho do meu pai ou escrever a mão para ele digitar), o jeito era conversar no ônibus ou ler um livro.  Naquele ônibus, em especial, ler era tarefa praticamente impossível.

Numa terça-feira, como outra qualquer, sem que eu soubesse de nada, a festa estava especialmente regada.  Não havia só o bolo de aipim ocasional e restrito à galera do banco de trás.  Havia um isopor cheio de cerveja e refrigerante, uma caixa de salgadinhos e um bolo confeitado.  Era o dia do aniversário do trocador.  E todos estavam ali comemorando, com razão.  A todos os passageiros, frequentes ou não, era oferecido o banquete, antes mesmo de passarem na roleta.  A cada um que entrava, um grito de comemoração – era mais um para agitar a festa.

Nesse dia a música estava especialmente alta, as pessoas estavam especialmente felizes, e o ônibus especialmente animado.  Teve “parabéns”, velinhas foram sopradas e fatias do bolo foram servidas a todos, inclusive ao motorista, pobre coitado, que, sozinho lá na frente, participava da festa somente pelo retrovisor.

Quando eu desembarquei, a festa ainda não havia terminado.  Talvez não terminasse nunca, como não terminou, para mim, até hoje.  Fiquei na calçada olhando o ônibus partir rumo ao ponto final, enquanto lá dentro todos acenavam se despedindo de mim.  Não porque eu fosse especialmente querido; eu era apenas mais um naquela festa.  Eles faziam isso para todos.  Fazia parte da festa.

Anos depois, o Youtube me trouxe este filme que, embora bonitinho, não chega nem perto do que foi aquele dia.

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One Comment

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  1. Sacanagem, nos ônibus pra Ilha, no meu tempo, isso não acontecia.

    Você que pegava o ônibus errado.

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