O Caso Campana – parte 4

No domingo seguinte, um dia frio de inverno, chovia bastante do lado de fora da igreja durante a missa matinal, iniciada às 7h.  O pároco estava de férias e a missa era celebrada por um monsenhor de outra paróquia, longe dali, que quebrava o galho do amigo em retribuição a favor semelhante.  Ao final da missa, durante o tempo reservado aos avisos comunitários e paroquiais, ele tomou a palavra.

Amigos paroquianos,

Estou familiarizado com as discussões envolvendo o sino da paróquia.  O seu pároco já me colocou a par do assunto.  Tenho uma opinião muito particular sobre tudo isso, mas ela não vem ao caso.  No entanto, eu me sinto na obrigação de ler para vocês uma carta recebida aqui na secretaria paroquial esta semana.  Ela é importante porque é natural que, em discussões acaloradas como esta, nós temos a tendência de discutir o assunto de maneira imprópria.  Quando eu digo nós, quero dizer os paroquianos praticantes, católicos acostumados às tradições e alheios às mudanças da sociedade.  A carta é dirigida ao pároco, mas acho que pode também ser dirigida a cada um de vocês.  Ela diz o seguinte:

Caro Padre,

Fui batizado quando ainda não podia decidir se queria ou não sê-lo, como é costume na nossa sociedade.  Desde então, já podendo decidir, optei por não mais retornar à igreja.  Não fiz primeira comunhão, crisma, nem casei na igreja.  Nem por isso me sinto mais pecador que aqueles que a frequentam.  É quase certo que o senhor não me conheça.  Tenho uma família, mulher e três filhos, todos bem encaminhados.  Respeito a religião alheia, qualquer que seja, da mesma forma que gostaria de ser respeitado.  Moro razoavelmente próximo à igreja, perto o bastante para ouvir o sino, longe o bastante para não me sentir incomodado.

Tenho acompanhado, com isenção e curiosidade, o que passei a chamar de “Caso Campana” – a controvérsia acerca do sino do campanário da igreja e seus sons.  Ouvi falar do assunto pela primeira vez na fila do mercado, há umas duas semanas, quando duas senhoras o mencionaram em alto som, tal como o sino.  Procurei saber mais do assunto, ouvi algumas opiniões, e tenho cá as minhas particulares, que resolvi compartilhar com o senhor.  Acredito que uma opinião isenta de queixumes religiosos possa ajudar na solução do assunto.

O sino para mim não tem nenhum significado religioso.  Ele é, para mim, e para muita gente, não mais que um relógio, como são os grandes relógios públicos de estações de trem, ou como o Big Ben, em Londres.  Ele serve para avisar o horário, com suas badaladas e suas melodias.  E, nesse sentido, ele presta um louvável serviço público.

Lembro até hoje da minha confusão mental quando, no domingo seguinte ao início do horário de verão do ano passado, uma possível falha no ajuste do relógio fez com que o sino badalasse uma hora atrasada ao longo de todo o dia.  Perdi o horário de alguns programas de televisão, e me atrasei para um encontro familiar – nada tão grave assim, portanto, não entenda essas palavras como uma reclamação -, tão acostumado que estou a pautar meus horários pelo toque das horas.

Sou a favor da manutenção do sino, menos pela tradição, menos pelo sentido religioso, mais pela utilidade que seu badalar tem na vida das pessoas, inclusive a minha.  Se eu puder dar uma dica ao senhor, ela é a seguinte: não se enverede pelo caminho da discussão religiosa.  Ela é áspera e de fim incerto, especialmente nos dias de hoje, em que o fundamentalismo pode empurrar a discussão para a esfera do racismo, da intolerância, dos recalques e das vicissitudes.  Ouça, dialogue, defenda seu ponto de vista, mas sempre no campo temporal, laico.  E tente, na medida do possível, manter o sino ativo tal como está ou, se possível, reduzindo-o apenas ao badalar das horas cheias durante o dia.  Já será suficiente.

Boa sorte na contenda.

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