Cultivando relações

Hoje um colega de trabalho me confessou:

– Eu nunca recebi tantos pedidos de amizade no meu LinkedIn quanto tenho recebido ultimamente.

Sinal dos tempos de crise que vivemos no país atualmente.  Quando o bicho pega, as pessoas correm para tentar estabelecer contatos e, com isso, minimizar os riscos de ficar na pior.  Quanto mais amigos, quanto mais contatos, maiores as chances de ser lembrado.  Os norteamericanos fazem isso com maestria a vida toda.  Nós, brasileiros, só fazemos nos momentos de crise – e na morte.  Não custa celebrar daquela célebre frase: “todo brasileiro é solidário na morte“.  Verdade antropológica maior provavelmente não há.

*****

Há algum tempo, outro colega de trabalho – um verdadeiro filósofo da vida cotidiana – sentenciou.

– A relação mais efetiva, aquela que deve ser cuidada com maior zelo durante a vida, é com os irmãos.  Os pais passam, os amigos também.  O irmão é a pessoa mais próxima com quem você mal ou bem vai ter que conviver a vida toda, desde o nascimento até provavelmente a morte.  É nele que você vai se apoiar quando precisar.  E também é a pessoa a quem você não vai poder negar a mão quando precisar.

Se não foram essas as palavras exatas – provavelmente não foram – o significado era esse, e isso é o que, no fim das contas, importa nesse texto.

*****

Vem cá meu coelhinho querido que eu vou te apertar até....
Vem cá meu coelhinho querido que eu vou te apertar até…

Felícia se comporta como a Felícia com o Fergus.  Nenhum outro apelido faria jus tão perfeitamente a ela.  Carinho demais atrapalha, já falei, mas ela ainda não entende.  Pega, agarra, puxa, estica, aperta, dá beijo…  E não consegue entender porque ele sempre termina essa sessão de tortura carinho chorando.

Ele morre de curiosidade por ela.  Admira de verdade.  Fica olhando o que ela faz, presta atenção.  Por exemplo, no exato momento em que escrevo este post, ele está sentado no meu colo mas não está nem aí para o computador – geralmente objeto de fascínio para qualquer criança.  Ele está esticando o pescoço na direção dela, que brinca no canto da sala, narrando o que faz, cantando músicas inventadas na hora, dando ordens a todos ao redor, como sempre foi, sempre é e, para meu desespero sempre será.  Não pisca, não ri, não fala nada.  Olhos fixos nela.

Não tenta interagir, porém.  Gato escaldado tem medo de água fria.  Quando se empolga, tenta me abraçar.  Sabe que, se chamar a atenção dela, o bicho pode pegar para o lado dele.

Da minha parte, eu juro que tento evitar, mas é impossível não relacionar algumas crises agudas de choro dele com o excesso de amor dela.  É difícil também não perder a paciência quando esse amor quebra o tênue equilíbrio existente entre os raros períodos de paz e bom humor do Fergus, especialmente esses dias em que um resfriado o tem aporrinhado bastante.

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E vez por outra eu lembro das minhas relações com a minha irmã.  Pelo menos das que ficaram na minha memória.

Minha irmã também chorava muito.  E, quando eu digo muito, eu quero dizer que é muito mais do que você, leitor – minha irmã inclusive – pode considerar como apenas “muito”.  Bastava eu dizer a ela, sem qualquer contexto: “pode chorar à vontade“, para ela desandar a chorar copiosa e interminavelmente.  Eu, obviamente, não ficava por perto para ver no que aquilo dava nem quando aquilo parava.  Saía rindo daquele drama patético.

*****

Enquanto eu escrevia as linhas aí de cima, Fergus começou a reclamar, no meu colo.  Felícia fez uma palhaçada à distância para ele, e ele riu.  Coloquei-o sentado próximo dela, e os dois começaram a se divertir sozinhos.  Ela fazendo palhaçadas e ele rindo.  Ela oferecendo brinquedos e ele se divertindo.  Menos de um minuto depois, ela pegou o braço dele para ensiná-lo a brincar com um brinquedo.  Sacudiu, puxou, doeu.  E ele começou a chorar.  E, por um bom tempo, foi difícil fazê-lo parar.

Eu assisto tudo isso pensando: no que isso vai dar no futuro?  Muito preocupado, mais com a minha responsabilidade nisso tudo, menos com medo de algo dar errado por causa desse início desajustado.

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2 Comments

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  1. Você fixou bem o que seu amigo, poeta da vida cotidiana, filosofou né?!

    Ele não é um poeta, é um filósofo. São coisas bem diferentes.
    E, respondendo a sua pergunta, fixei sim. Agora vai preparando um cafofo aí que, se eu ficar velho gagá e sozinho, você vai cuidar de mim.

  2. Com relação à primeira parte do post, eu lembrei de Otto Lara Rezende, que dizia que “o mineiro só é solidário no câncer”.

    É a mesma coisa. Acho que a frase que eu citei é Rodriguiana.

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