O Caso Campana – parte 5

– O Senhor esteja no teu coração, para confessares os teus pecados com espírito arrependido.
– Amém.
– Bom dia! Seja bem vinda, filha de Deus, à casa do nosso Pai.
– Bom dia, padre. Obrigada.
– Podemos começar?
– Sim, podemos.
– Digamos juntos: em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.
– Amém.
– Há quanto tempo você não se confessa?
– Desde a última quaresma, padre.
– Isso não faz muito tempo.
– Não, padre. Três meses.
– Ótimo. A confissão frequente é um exercício que ajuda na superação das nossas misérias. Assim como nós, quando exercitamos o corpo, nos tornamos mais atléticos, mais fortes, mais vigorosos, a confissão ajuda a alma a se tornar mais próxima do caminho que conduz a Deus. Fico muito feliz de ver que você tem praticado esse exercício.
– Não tanto quanto gostaria, padre. Às vezes eu acho que preciso me exercitar mais.
– Bom sinal! Você sabe que é muito difícil alcançar a perfeição do Espírito Santo. Todos nós temos as nossas falhas, nossos defeitos. Só os Santos conseguiram atingir a perfeição. E olha que não foram todos. Muitos só o conseguiram depois de errar bastante. Veja os exemplos de São Paulo e Santo Agostinho, que levaram vidas nefastas até finalmente encontrarem o Senhor e O colocarem em suas vidas. Nunca perca a esperança de que isso um dia irá acontecer na sua vida.
– Obrigada pelas palavras, padre.
– Tome essa Bíblia. Segure-a. Esse é o Livro dos Provérbios. Foi escrito por Salomão, que foi um rei muito sábio do povo de Deus. Leia os primeiros versículos do livro.
– “PROVÉRBIOS de Salomão, filho de Davi, rei de Israel; para se conhecer a sabedoria e a instrução; para se entenderem, as palavras da prudência. Para se receber a instrução do entendimento, a justiça, o juízo e a eqüidade; para dar aos simples, prudência, e aos moços, conhecimento e bom siso; o sábio ouvirá e crescerá em conhecimento, e o entendido adquirirá sábios conselhos; para entender os provérbios e sua interpretação; as palavras dos sábios e as suas proposições. O temor do SENHOR é o princípio do conhecimento; os loucos desprezam a sabedoria e a instrução.”
– Está bem. É suficiente. Agora escolha três versículos seguidos aleatórios e leia o que Deus tem a dizer hoje para você.
– Capítulo 12, versículo 26: “O justo guia seu companheiro, mas o caminho dos ímpios os perde. O indolente não assa o que caçou; um homem diligente, porém, é um tesouro valioso. A vida está na vereda da justiça; o caminho do ódio, porém, conduz à morte.”
– Ótimo. Agora me diga: o que Deus lhe disse? O que aflige o seu coração? Conte os seus pecados.
– Padre, eu tenho o ódio no coração.
– Mas, minha filha, o coração foi feito por Deus para amar, não para sentir ódio. Você não acabou de ler que o caminho do ódio conduz à morte, ao contrário do caminho da justiça que conduz a Deus?
– Eu sei, padre. Eu sei. É por isso que eu estou aqui. Porque eu não consigo sentir amor por uma coisa que me incomoda tanto, que me aborrece, que me traz problemas toda hora, todo dia, o dia inteiro.
– E o que é isso, minha filha?
– É esse maldito sino da igreja, padre. Eu moro no prédio aqui do lado da igreja, no sexto andar, exatamente na altura do campanário. Esse sino toca praticamente dentro da minha casa, todos os dias, de hora em hora.
– Mas por que tanto ódio, assim, de repente? É por causa dessa discussão que temos visto nesses últimos dias?
– Não, padre. Deixe-me começar do início. Quando meu pai comprou o apartamento eu era pequena. O sino só tocava para chamar o povo para as missas. Durante a semana, tocava uma vez por dia. Nos finais de semana, tocava mais vezes. No início eu não gostava, mas depois acabei me acostumando a acordar domingo cedo. Nos outros dias eu nem ligava porque, na maioria das vezes, não estava em casa quando o sino tocava. Ou estava na escola, depois na faculdade, depois no trabalho, ou tinha saído para brincar, ou qualquer outro motivo. Depois eu casei, me mudei e já nem lembrava mais do sino. Até que minha mãe teve um derrame, ficou de homecare e esse sino, todos os dias, causa um estrago. Quando o sino toca, a pressão dela sobe, o coração acelera, aquilo a incomoda. Não sei se ela se assusta, não sei exatamente o que é, porque ela perdeu a capacidade de se comunicar. Mas vejo nos monitores e nos olhos dela que incomoda. Fizemos isolamento acústico do quarto, trocamos a janela, mas isso só reduziu o ruído. Reduziu bastante, mas ainda dá para ouvir bem alto. E toda vez que eu vejo os monitores pulando e tenho que correr para socorrê-la, às vezes até dar remédio para ela se acalmar, eu sinto ódio desse sino. Do sino e do padre que inventou esse sino que toca de hora em hora. Mas, como ele saiu de férias, e agora está todo mundo falando do sino, resolvi que era hora de vir aqui colocar isso para fora. Eu não quero me sentir assim, não mesmo. Mas eu não posso mais guardar esse ódio dentro de mim. Me ajude, padre!
– Calma, minha filha. Calma.
– Como é que eu posso ter calma se a minha mãe está lá em cima esperando para se assustar novamente quando a próxima hora redonda chegar? Um dia ela vai morrer por causa desse sino. E aí? Como vai ser? A Igreja vai ter algo a dizer?
– Minha filha, não sou eu quem vai dar essa resposta. Nem vai ser a igreja, com seu sino, que vai devolver ao Pai a vida da sua mãe. Só a Ele cabe a decisão dessa hora. E Deus se vale de muitos meios para nos conduzir à salvação. Deus pode até mesmo permitir o sofrimento santificador. Veja o exemplo dos mártires: foi graças aos seus sofrimentos que eles alcançaram diretamente o Reino dos Céus e se tornaram exemplos para nós. Santa Ágata, por exemplo: ela queria servir a Deus e por isso recusou-se a casar com um príncipe. Ele, com ódio, mandou torturá-la até a morte. Mesmo assim, ela morreu pedindo a Deus para que cessasse a erupção do Vulcão Etna, o que acabou acontecendo logo após a sua morte. Agora me diga, a quem o ódio beneficiou nessa história?
– Mas é tão difícil, padre.
– O caminho da Salvação não é fácil, minha filha. Veja o exemplo daquele jovem rico que teve dificuldade de se despedir dos bens materiais e seguir Jesus. Jesus não prometeu felicidade e vida mansa. Ele só prometeu uma cruz tão pesada quanto o peso dos nossos pecados. A felicidade? Só depois, junto d’Ele, lá no Céu. Vou lhe dar outro exemplo de que o ódio não santifica: Santa Regina. Sua mãe morreu no seu parto e ela foi criada por uma ama de leite cristã, que lhe iniciou na fé. Seu pai era soldado do Império Romano e acreditava nos deuses pagãos. Um dia ele recebeu uma denúncia e, quando foi ver, era de sua própria filha. Tentou demovê-la, mas não conseguiu. Ao final, cumprindo seu dever de soldado, ele encaminhou sua própria filha para o martírio. Nem por isso ela o odiou. Pelo contrário, a proximidade de Deus a fez feliz, mesmo na hora da morte.
– Mas eu não sou santa, padre.
– Mas deveria tentar ser. Eu acho que é para isso que você veio aqui. Do contrário, não posso lhe conceder a absolvição. Diga ao menos que vai tentar. A busca pela perfeição já é a perfeição. Já lhe disse isso? Mesmo os santos pecaram. No entanto, eles não desistiram de tentar imitar a perfeição divina. É aí que reside a santidade. Vamos tropeçar, vamos cair, vamos ofender, vamos sentir ódio, mas não podemos deixar de tentar seguir no caminho da Luz.
– Tudo bem, padre. Eu vou tentar.
– Está arrependida?
– Sim, estou.
– Ótimo. Então reze comigo um ato de contrição.
– Meu Deus, eu me arrependo de todo o coração de vos ter ofendido. Prometo, com o auxílio da Vossa Divina Graça nunca mais pecar. Meu Jesus, Misericórdia!
– Como penitência, você deverá fazer o sacrifício de orar um Pai Nosso e uma Ave Maria toda vez que o sino tocar ao longo desta semana. Durante a oração, tente visualizar a graça de Deus em sua vida, a bênção de morar tão próximo à sua morada na Terra, de poder cuidar da sua mãe, e lembre e agradeça as maravilhas que Deus já fez na sua vida. Pense em coisas boas. Elas afastam os pensamentos maus. É um exercício de espiritualidade que vai ajudá-la nessa caminhada de conversão.
– Sim, padre.
– Senhor, Deus e Pai, que enviaste vosso Filho amado para nos salvar, eu te peço pela alma dessa pessoa que se mostrou humilde diante deste teu servo. Deus, Pai de misericórdia, que, pela morte e ressurreição de seu Filho, reconciliou o mundo consigo e enviou o Espírito Santo para remissão dos pecados, te conceda, pelo ministério da Igreja, o perdão e a paz. Eu te absolvo dos teus pecados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
– Amém.
– Dai Graças ao Senhor, porque Ele é bom.
– Eterna é a sua Misericórdia.
– O Senhor perdoou os teus pecados. Vai em paz, e não peques mais.

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