O Caso Campana – parte 6

Era uma tarde de sábado de sol sem calor. Crianças brincavam na praça em frente à igreja. Do caldeirão do pipoqueiro pulavam pipocas brancas e cheirosas. Dois policiais conversavam entre si, encostados na viatura estacionada irregularmente sobre a calçada da praça, para não atrapalhar o trânsito, enquanto apenas observavam o movimento pacífico do local. Uma pequena fila se formava na padaria à espera de mais uma fornada de pães quentinhos que sairiam dali a poucos minutos, segundo o padeiro. Na sorveteria, um casal se deliciava com o prazer infantil de lamber um enorme sorvete de casquinha antes que ele derretesse. Pessoas praticavam seus exercícios ao redor da praça, voltas e voltas a fio, ora correndo, ora caminhando. Os mais velhos praticavam sua ginástica habitual, alguns com o baralho na mão, outros usando chapinhas de refrigerante sobre tabuleiros quadriculados desenhados sobre as mesas da praça. Enquanto isso, dois deles, mais afetos ao ócio, conversavam no banco, protegidos do sol por um belo flamboyant, tendo uma garrafa de cerveja entre eles. Fizeram silêncio enquanto o sino soou quatro vezes, depois retomaram a conversa, em outro assunto.

– E esse bafafá aí do sino da igreja, hein? Só se fala nisso.
– Nem fala. A minha mulher, quando chega da missa no domingo de tarde, me conta todas as novas.
– Eu só fico sabendo pelo que ouço falar por aí. No mercado, na padaria, no jornaleiro…
– Esse povo não tem mais o que fazer não? Ficar discutindo sobre o sino da igreja?
– Discutir não é nada. Pior é quem reclama que o sino toca. Onde é que já se viu sino não tocar? Se não tocar, vai servir para que? Vão virar o sino ao contrário e usar como caldeirão?
– Que ideia doida, homem!
– Mas não é? Essa gente que fica aí reclamando de tudo… Reclama quando o motorista do ônibus é lerdo, reclama quando o motorista do ônibus vai rápido demais, reclama que a comida tá muito quente, reclama que a comida tá fria, reclama que tá calor, reclama que tá frio… Só reclama, reclama, reclama… Nunca está bom? Deve reclamar até de mulher bonita!
– Mas até onde eu sei quem começou com esse negócio do sino foi uma mulher mesmo, uma doida aí que gosta de dormir de dia e ficar acordada de noite fazendo sabe-se lá Deus o que. Mandou uma carta para o padre, desaforada, reclamando do barulho do sino.
– E sino faz barulho desde quando? Quem faz barulho é caminhão, é ambulância, é buzina, obra. Sino toca, soa.
– Isso é verdade. Mas essa dona deve mesmo ter algum problema. Não será falta de uma canseira não?
– Eu não sei de nada. O que eu sei é que lá na minha terra, de onde eu venho, era tão mato, mas tão mato, que não tinha nem igreja. Tanto que eu só fui ser batizado quando já tinha nove anos, que foi quando um padre passou perdido lá por aquelas bandas e batizou toda a criançada, deu primeira comunhão, confissão, unção para os velhos e até para quem não precisava… Foi tanta bênção que ele distribuiu que o pessoal ficou com crédito, porque não sabia quando ia ver um padre de novo.
– Mas é mesmo?
– É! Verdade. Depois meus pais me mandaram para cá para a cidade grande. Aí é que eu fui ver uma igreja pela primeira vez. Ver igreja e ouvir o sino. Olha que bênção um sinão desse tocando de hora em hora. Lá em casa, para saber as horas, só olhando no relógio de corda do vovô, que eu nem sabia se marcava a hora certa. Na roça, não tinha relógio. A gente olhava para o sol e já sabia que horas eram. Não tinha esse negócio de horário de verão… Aqui nem precisa. Só ouvir o sino tocar e todo mundo já sabe que horas são.  E tem gente que reclama…

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