Dentro ou fora

Da minha casa eu consigo ver um campo de futebol, desses de grama sintética que faz a alegria de tantos peladeiros de classe média nas grandes cidades do Brasil.  Neste momento ele está todo apagado mas, neste mesmo horário, durante todos os dias de semana, ele reluz iluminado.

Além de ver o campo, eu consigo ouvir, com nitidez, os gritos dos peladeiros.  Comemorações de gols, broncas, provocações…  Ouço tão bem que bate uma pontinha de inveja.  Por mim eu estava lá todos os dias, jogando com quem quer que fosse, fominha de bola que sou.

Esta semana eu ouvi um clássico do cancioneiro peladeiro: “dentro ou fora!“, alguém gritou.  Os pouco ambientados aos ambientes peladeiros poderão não entender do que se trata.  Não é uma pergunta.  A pessoa que exclamou não estava na dúvida sobre a posição da bola.  Ela estava simplesmente avisando aos jogadores que o tempo do jogo havia encerrado.

Peladas não terminam com bola em jogo.  Não sei bem a razão dessa regra, mas é assim que funciona.  É assim, sempre foi assim e acredito que sempre será.  A pelada só acaba com a bola fora das quatro linhas.  Nem falta encerra pelada.  Cobra-se a falta, segue o jogo.  Principalmente se for pênalti – até porque, na regra do futebol, o pênalti é a única exceção que permite a extensão do tempo regulamentar.

Peladas só terminam com a bola dentro ou fora, quer dizer, dentro do gol ou fora das quatro linhas.  O que o tal grito quer dizer, resumidamente, é que o jogo prosseguirá até a bola sair de campo ou até sair um gol.  Ocorrendo um desses eventos, o jogo estará encerrado e o time perdedor deverá deixar o campo, cedendo lugar a um time que está do lado de fora esperando sua vez de jogar.

Ué!  Aí basta o time que estiver ganhando chutar propositalmente a bola para fora, pensarão os mais afoitos.  Negativo.  Há ética na pelada, há ética entre os peladeiros.  Só uma vez eu vi o goleiro do time favorecido agarrar uma bola e jogá-la deliberadamente para fora do campo, com o intuito exclusivo de encerrar o jogo e colocar o adversário para fora do campo.  E não deu muito certo.

Ao longo dos meus trinta e seis anos de pelada, posso afirmar que mesmo com esse trunfo na manga, um peladeiro que se preze não o coloca na mesa.  Sai a bola, toca, vai para cima, busca o jogo e oferece o jogo.  Custe o que custar – até mesmo uma reviravolta.  Pode até ser que não busque o jogo com tanto afã.  Tolera-se que um chute mais precipitado e não condizente com o padrão de jogo daquele time precipite uma bola fora.  Mas escrachar na expulsão da bola das quatro linhas, isso não.

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One Comment

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  1. Muito legal esse post, muito legal mesmo. Tem tanto tempo que eu não ouvia essa expressão que quando li o título do post nem fiz a associação.

    O que você achou que era, então?

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