O Caso Campana – parte 8

Dona Ana era uma senhora já de muita idade.  Os dois maridos já estavam mortos.  Os filhos, criados, já haviam lhe dados netos e bisnetos.  Ela preferia morar sozinha, tendo durante o dia a visita de uma empregada quarenta anos mais jovem, uma rotina que já se repetia há mais de dez anos.  Mais que empregada, as duas acabaram se tornando amigas e confidentes, tal a abnegação recíproca que desenvolveram, mais por afinidade, menos por qualquer outro interesse.

A vitalidade de Dona Ana já era claudicante.  Sua locomoção, limitada.  Dependia de auxílio para quase tudo.  Poucas coisas conseguia fazer sozinha.  Por isso, seus maiores prazeres eram dialogar do papagaio que ganhara de presente no seu aniversário de 90 anos e ler livros daquelas coleções com nome de mulher, que ela pedia para lhe trazerem da feira semanal do bairro, por diversão, não por saudosismo da mocidade.  Na verdade, recuperara esse prazer depois de uma cirurgia para retirada de um glaucoma que lhe devolvera a nitidez da visão.

Outra coisa que ela não abria mão era de sua devoção mariana.  Crescera apegada à santa e atribuía a ela todas as felicidades que tivera na vida.  Rezava o terço diariamente, obedecendo aos pedidos feitos em Fátima e ao toque do sino da igreja, pontualmente às 18h.  E sentia um bem estar enorme, enquanto entoava suas orações, ao ouvir a Ave Maria de Gounod executada pelo sino eletrônico.  Aquilo era, realmente, uma beleza.

Mais que uma beleza, era a única forma que lhe restara de praticar sua religião.  Ir à igreja era um sacrifício muito grande para ela.  Demandava um esforço enorme, cansava-lhe.  Já não conseguia mais se manter tanto tempo sentada na cadeira de rodas sem que os pés inchassem, a pressão caísse e o peito doesse.  As imagens, os objetos de devoção, a televisão, meio pelo qual conseguia assistir as missas, eram os seus elos com a fé que abraçara ainda menina, na escola dirigida por irmãs clarissas.  E o sino.

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