Noções básicas de hierarquia familiar

Já tentou fazer isso?  Conseguiu?
Já tentou fazer isso? Conseguiu?

No sábado eu tive que ficar sozinho com Fergus e Felícia.  E manter as coisas em harmonia nessas condições é tão difícil quanto manter dois pratos girando sobre estacas ao mesmo tempo.  Acaba sendo inevitável que um prato caia e produza o maior estrago.  Nesse caso, sou eu que tenho que aprender como lidar com as situações, não eles.

O prato da Felícia já vinha balançando a algum tempo e, por mais que eu o impulsionasse, ele teimava (ou melhor, ela teimava) em desequilibrar.  Estávamos em rota de colisão e não adiantava mais conversar, contar até três nem cortar direitos.  Acabei descambando para a atitude mais drástica do ambiente familiar: o lixo.

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O lixo é um caminho sem volta.  É nojento, é infectante, é sujo, é irreversível.  Quando algo vai para o lixo, não volta nunca mais – ainda que ele não vá física e efetivamente para o lixo, mas seja cuidadosamente acondicionado, embalado e doado para alguém que precisa daquilo tanto quanto a criança malcriada precisa de um corretivo.

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Só depois que eu tirei o vestido sujo de seu corpo, sem muita delicadeza (parte por estar pau da vida com toda aquela desobediência desafiantemente deliberada e parte para dar mais dramaticidade e autoridade à cena – “eu estou tirando isso de você independentemente da sua vontade!”), percebi que o prato já havia caído.  E quebrado.  Nem o lixo seria capaz de colar os cacos.  Joguei o vestido no cesto de roupa suja mesmo.  Era para simbolizar um miniperdão e o início de uma reconciliação, mas ela não entendeu assim (ou estava com os olhos muito cheios de lágrimas que não conseguiu ver o que eu fizera).

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 Quem tem padrinho não morre pagão.  Foi nesse momento de caos que o telefone tocou.  Era a Fiona.  Mesmo longe ela poderia me ajudar.  Narrei a confusão sucinta e enigmaticamente para não piorar o caos.  Fiona pediu para passar o telefone para a Felícia, para elas conversarem.  Felícia pegou o telefone, se afastou para conversar com a mãe.  Ouvi a conversa de longe, enquanto dava almoço ao Fergus.  Quando terminaram, Felícia voltou, ainda chorosa, me entregou o telefone e se limitou a dizer:

– Mamãe vai resolver com você quando voltar.

Virou as costas e me deixou falando sozinho.

*****

Ontem Felícia teve algum entrevero de menor importância comigo.  Algo de tão baixa magnitude que eu nem consigo lembrar o que foi.  Lembro apenas que ela me chamou a atenção e eu corrigi prontamente.  A cena foi seguida pela intervenção da Fiona, dirigida à Felícia.

– Filha, deixa que a mamãe vai resolver isso com o papai.

– Não precisa não, mamãe.  Eu já resolvi.

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2 Comments

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  1. Tão pequenina e já se afasta com o telefone para ter privacidade na conversa. Adorei!

    Verdade.

  2. Manda quem pode, no fim das contas.

    Obedece quem tem juízo.

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