O Caso Campana – parte 10

Do outro lado da praça, ele estacionou o carro com duas rodas sobre a calçada, para não atrapalhar o trânsito.  Desceu, passou pela frente do carro e entrou no bar.

– Dá mais um aí, Manel!

O Sr. Manoel nem levantou os olhos, atendendo ao pedido do freguês com a habitual eficiência, típica de quem já faz tudo automaticamente.  Tirou o chope segundo os melhores padrões internacionais de espessura de colarinho e colocou o copo sobre o balcão, em frente ao cliente.

– Agora vê se pode!  Só falta essa merda sobrar para mim!

Olhou em volta para ver se alguém ali no boteco prestava atenção nele.  Do jeito que ele falara, era impossível não ter ouvido.  Mas ninguém demonstrou lhe dar a atenção que ele queria receber.  Voltando-se, então, para o balcão, sorveu um belo gole da bebida e, meio falando com o copo de chope, meio falando com o Sr. Manoel, mas em tom alto o suficiente para o bar inteiro ouvir, continuou o discurso.

– Eu não tenho nada a ver com essa porra, não vou à missa, não seguro no badalo do padre, e neguinho vem me dar lição de moral?…  Assim não dá!

Deu uma pausa no discurso, sorveu mais um gole e olhou em volta discretamente para checar se, enfim, obtivera a atenção da audiência presente.  Como o cenário não se alterasse, manteve a toada.

– Tô eu trabalhando honestamente e o guardinha ali veio me parar pedindo para abaixar o volume porque eu tô incomodando a vizinhança.  Agora vê se pode?  Nove horas da manhã.  Atrapalhando quem?  Só se for a missa do padre, o pão do padeiro…  Vontade de mandar para aquele lugar, mas não posso, porque ele é “otoridade”.  Se eu falo o que eu penso, o cara me prende por desacato.  Agora como é que eu vou trabalhar com o meu carro de som se o volume tem que ficar baixo?  Quem vai ouvir?  Ninguém.  Quem vai querer o serviço de um carro de som com volume baixo?  Ninguém!

No auge da sua revolta, entrou no bar outro companheiro de copo, este num ar bem mais relaxado, típico de quem esperou ansiosamente a chegada do sábado por cinco dias de trabalho árduo mas que, agora, quer aproveitar cada minuto do fim de semana.  Bermuda, chinelo, ergueu os óculos escuros e cumprimentou os presentes como se a todos encontrasse ali habitualmente, olhando nos olhos e apertando a mão de cada um.

– Bom dia, gente!  Fala aê, rapazeada.  Bom dia, mestre!  Bom dia, gente fina!  E aí, como é que você vai, tudo bem?  Tudo certinho?  E você, tranquilidade?  Grande Juca, como é que está, meu irmãozinho, na paz?  E a meninada, tudo certo?  Que beleza!  Saúde é o que importa.  Marcelinho, meu camarada, quanto tempo!  Você tava sumido cara, o que houve?  Viajando?  Opa, então foi por um motivo nobre.  Descansou?  Que nada, a gente viaja é para se cansar mesmo.  Então descansa aí, mermão, aproveita.  E você, vascaíno, que cara é essa?  Não vai me dizer que é por causa da lanterna que tu tá segurando?…
– Nem fala!  Vontade de matar o Eurico.  Ele, o Dinamite e toda a corja que votou nesses caras.  Não é possível.

Enquanto ouvia a resposta, pediu o seu chope fazendo o gesto de quem leva um copo à boca, enquanto piscava um dos olhos para o Sr. Manoel, seguido de um sinal de positivo com a mão, dedo mínimo sempre em riste, exibindo um grande anel dourado com uma pedra vermelha no centro.

– Relaxa que isso passa.  Um dia a maré tá baixa, no outro a maré tá alta.  A vida é assim.  Lembra do Fluminense, que encaixou aquela sequência uns anos atrás e fugiu do rebaixamento?  Quem garante que o Vascão não pode dar uma dessas também?
– Com aquele time?  Impossível.

O Sr. Manoel serviu o chope.  Ele pegou o copo com reverência, ergueu e esperou que o seu companheiro de balcão fizesse o mesmo, para brindarem.

– À nossa!
– Isso aí, à nossa!

Sorveram um gole.  Apoiaram o copo sobre o balcão e voltaram a se dedicar um ao outro.

– Mas conta aí, como é que vai a vida?  Se não é o Vascão, o que é que te aflige então?
– Essa merda desse sino tá me fodendo.
– Como assim?  Explica isso aí!
– Tá sabendo da parada do sino?  Tem neguinho aí reclamando que o sino faz barulho, que é muito alto, que atrapalha, que incomoda, aí resolveram reclamar de tudo quanto é barulho e eu agora tô na berlinda.  Nego quer tirar meu trabalho.  Vê se pode?
– Ih, rapá, tô sabendo dessa parada aí, mó merda.  Quem tá enchendo o teu saco?

– Dessa vez foi o guardinha ali da praça.  Mandou eu parar o carro, pediu para abaixar o som…  Expliquei para ele que não dava, que o negócio era o som ficar alto para fazer a divulgação, mas ele não quis nem saber, disse que tinha recebido ordens de cima e que o bicho ia pegar para o meu lado se eu não abaixasse o som, que ele ia pedir para ver documento, apreender o carro…
– E aí?  O que é que tu fez?  Baixou?
– Baixei na hora.  Se o cara pede o documento eu tô fodido.  Não faço vistoria nesse carro há uns dez anos…  Não, mais.  Eu lembro que a última vistoria que eu fiz foi na segunda-feira, no dia seguinte depois do Brasil ser penta.  Quando é que foi isso?  2002?  Então, 13 anos.  Vistoria para que?  Só ando aqui no bairro, para lá e para cá, devagarzinho.  Não atrapalho ninguém, o carro nunca enguiçou, nunca deu defeito, tá lá bonzinho, tudo funcionando.  Nunca levei multa, nunca bati.  Mas o cara ia me encher o saco, aí eu baixei.  Depois aumentei de novo.  Mas agora ele vai ficar na minha cola até nego resolver essa parada do sino.  É o assunto da moda.  Por que nego não vai encher o saco de outro?  Outro dia passaram dois pivetes aí, maior pinta de marginal, ninguém fez nada.
– Vai passar, calma!  Relaxa que tá tudo certo.  Toma mais uma aí e volta para o teu trabalho que vai dar tudo certo.  Manel, mais uma aqui para o nosso amigo se acalmar e esquecer essa aporrinhação.  Mas só essa, porque a aporrinhação do Vasco ainda vai demorar a passar…
– Eu mereço…

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One Comment

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  1. Tem uma frase no post que me é bem familiar. Mas voltando ao assunto, não estaria na hora de construirmos um cinema na cidade? Ou um shopping? Ou uma arena multiuso, sei lá!

    A cidade não é tão grande… Mas isso depende de política. Nunca se sabe…

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