O Caso Campana – parte 12

Naquela semana, na escola do bairro, também localizada na praça, uma turma estava no maior alvoroço dentro da sala, enquanto a professora não chegava.  Nada fora do normal.  Mas a professora, enfim, chegou.  Salto alto, marcando os passos, entrou na sala com seu ar de autoridade, pastas repletas de papéis nas mãos, meneando a cabeça com os óculos retangulares ligeiramente caídos para a ponta do nariz, como quem quisesse observar algo ao longe por cima das lentes, cabelo preso à exceção de uma mecha que teimava em cair sobre a face.  Apoiou os papéis sobre sua mesa quase sem ser notada pelos alunos.  Franziu a testa, respirou fundo e ajeitou a blusa.

– Silêncio!  Silêncio!  Eu disse SILÊNCIO!

Todos, então, fizeram silêncio.  E rapidamente voltaram aos seus lugares.  Na verdade, o silêncio só foi estabelecido mesmo quando o último aluno chegou ao seu lugar.  Antes disso, apesar de calados, ainda houve um zum-zum-zum de cadeiras arrastando, pedidos de licença sussurrados e uns poucos risinhos.

– Assim está bem melhor.

Ajeitou os óculos, abaixou-se para pegar uma das pastas que apoiara em cima da mesa e continuou.

– Bom, pessoal, eu recebi na última aula os trabalhos da pesquisa de vocês sobre instrumentos musicais.  Alguns ficaram muito bons, outros muito ruins.  Vários foram copiados da internet e levarão nota zero, para aprenderem que pesquisar não é copiar e colar.  Eu avisei: o mínimo que eu espero de vocês é alguma dedicação.  Reescrevam tudo o que leram com as suas palavras, mas não copiem e colem, porque eu vou descobrir.  E, se eu descobrir?

A turma, em coro, respondeu:

– É zero!
– De novo. Se eu descobrir?
– É zero!
– Mais uma vez, porque eu acho que tem gente que ainda não ouviu ou, se ouviu, não entendeu. Se eu descobrir?
– É zero!
– Muito bem. Com quem foi desonesto eu converso depois. A questão agora é outra. Houve um trabalho, em especial, que eu gostei muito. Não por causa da pesquisa, que também está ótima, mas por causa do instrumento escolhido. A Janaína Almeida escolheu um instrumento musical que está na moda aqui no nosso bairro: o sino. Temos tido uma discussão muito grande sobre o sino da igreja aqui da praça e é importante que nós conheçamos do assunto antes de emitir uma opinião. Por isso, para que vocês todos sejam capazes de formar suas próprias opiniões, eu gostaria de chamar a Janaína aqui na frente para ler o seu trabalho. Prestem atenção. Não é muito longo. E reparem como é simples. Vem, Janaína.

Da primeira fileira se levantou uma menina de pele cabocla, óculos no rosto, cabelo crespo preso, olhos negros e corpo farto. Ajeitou a saia e a blusa. Tentava esconder a vergonha e o embaraço, mas um sorriso tímido os denunciava. Enquanto ela percorria os poucos passos que a separavam da professora, pôde ouvir alguns cochichos ditos propositalmente em voz mais alta que a de um mero sussurro.

– Vai lá, CDF!
– Puxassaco!
– Sempre estragando a nossa vida…

Como era intelectual a glória que lhe interessava, e por já estar habituada a todos aqueles comentários, ignorou-os todos. Pegou o papel manuscrito da mão da professora, esperou que a turma fizesse silêncio, e começou a ler.

– Os sinos são instrumentos musicais de percussão, que produzem sons a partir da vibração de seu corpo provocada por outro objeto, que normalmente é um badalo, um martelo ou um aríete. Possuem a forma de um copo invertido, com vários diferentes formatos. Na maioria das vezes, são feitos de bronze, embora também haja sinos de cobre, prata, cerâmica e até mesmo vidro. Pode ter diversos tamanhos, desde pequeninos sinos até sinos enormes, que pesam algumas toneladas. Um conjunto de sinos de diferentes afinações é chamado de carrilhão. Também se chama carrilhão o sistema de agitação de um sino para que seu corpo entre em contato com o badalo. Os sinos são instrumentos muito antigos. Seu uso, porém, não está normalmente associado à música, mas a chamar a atenção das pessoas: na estação do trem, o sino avisa que o trem vai partir; na torre da igreja, avisa que a missa já vai começar; em outras épocas, quando não havia meios de comunicação eficientes, servia para avisar de um perigo iminente, como a tentativa de invasão do castelo; nos relógios, serve para avisar a hora; no pescoço de animais, como vacas ou ovelhas, serve para avisar do perigo de predadores. Os sinos são confeccionados artesanalmente, em fundições especializadas. Consta que, no Brasil, existem apenas duas “fábricas de sinos”. A fábrica mais famosa do mundo fica em Londres. É a Whitechapel Bell Foundry. O som produzido pelo sino está matematicamente relacionado às suas medidas, principalmente a espessura de seu corpo e o diâmetro de sua boca. Aliás, “boca” é uma palavra que não existe na campanologia. O que chamamos boca, a abertura inferior do sino, na verdade se chama borda, sendo que a extremidade externa da borda se chama “lábio”. Acima do lábio fica o “pé” do sino, cuja espessura é normalmente 1/13 do seu diâmetro. A argola que o envolve, situada acima do pé, se chama “antepé”. O corpo do sino se chama “meio”, acima do meio fica o “terço”. A parte do sino que parece uma tampa se chama “ombro” e seus adornos de fixação, situados sobre os ombros, se chamam “asas”. Na cultura ocidental, os sinos têm data de nascimento, que é a data da sua fundição, nome e padrinho, aquele que é convidado para dar a primeira badalada no dia do batismo do sino. Nas cidades históricas de Minas Gerais, a forma de tocar (dobrar) os sinos é tão peculiar que é considerada patrimônio cultural brasileiro. Sinos não podem ser consertados. Caso quebrem ou rachem, eles morrem, restando-lhes apenas ser refundidos ou virarem história. É o que aconteceu, nos Estados Unidos, com o Liberty Bell, hoje em exposição na Filadélfia.

A menina parou de falar. A sala, em silêncio, olhava, metade com cara de sono, a outra metade de saco cheio. Diante daquele pequeno impasse, a professora se adiantou.

– Muito bem, Janaína. Parabéns! Turma, uma salva de palmas para a Janaína.

E uma preguiçosa e fatigada salva de palmas se seguiu, acompanhada de algumas felicitações artificiais. Janaína enrubeceu e, novamente, um sorriso envergonhado escapou. A professora se ergueu, mandou-a sentar-se e começou a distribuir os demais trabalhos aos alunos.

– Alan Coelho, tema piano, zero. Copiou da Wikipedia.
– Bernardo Santos, tema violão, quatro. Metade do trabalho foi copiado, a outra metade tem muitos erros de português.
– Bianca Soares, tema flauta, zero. Também copiou da Wikipedia. Vocês podiam ao menos ser menos triviais na hora de escolher um original para copiar…
– Carla Assunção, tema violino, oito. Parabéns!

E assim foi.

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