Devaneios sobre o sono – ou sobre a falta dele

Quando eu fui dormir no domingo, eu estava bem, mas sentia o muco descendo pela garganta como uma cachoeira.  Não incomodava muito, eu me sentia fisicamente bem disposto, mas sabia que era o prenúncio de algo ruim.  Ontem amanheci meio entupido e hoje estou cambaleantemente mal, a ponto de  ter considerado seriamente a possibilidade de adiar todos os compromissos profissionais.

Tudo isso resultado dessas últimas quatro noites, as menores e piores em muito tempo.  Menores por causa de uma série de fatores, o principal deles o fato de que a Felícia agora se recusa a usar fralda à noite.  “Eu cresci, papai, já tenho quatro anos e não uso mais fralda.”  Ok, filha, você ainda tem três anos, fará quatro só no fim do ano, mas se quase todos os seus amigos da escola já fizeram quatro anos e você se sente assim, ótimo.  Vou te dar o voto de confiança e…  Bem, dessas quatro últimas noites, em três o xixi vazou, apesar de eu acordar de hora em hora para levá-la ao banheiro, na esperança de me antecipar ao problema.  Não funcionou.  E quando isso (o xixi vazar) acontece…  Acende a luz, tira a roupa de cama, banho nela, choro e ranger de dentes, e até dormir de novo…  Não é simples.  E, na noite em que o xixi não vazou, foi por mérito da Fiona, que atingiu a meta de se antecipar ao xixi levando-a ao banheiro de madrugada.

E aí, hoje de manhã, eu me deparo com uma notícia no jornal pendurado na banca, que me chamou muito mais a atenção do que os rombos orçamentários federais ou as últimas contratações dos times de futebol mundo afora: “Pessoas que dormem mais têm menos risco de pegar resfriado, diz pesquisa“.  Como dizem os geeks, #supermeidentifiquei.

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Dormir é o meu esporte predileto.

Eu durmo em qualquer ocasião.  Durmo quando não tenho nada para fazer, durmo quando estou diante de uma situação muito tensa, durmo na hora certa e durmo na hora errada.  Durmo em festas, durmo no transporte público (nisso eu sou craque, durmo até em pé, a ponto de cair no chão), durmo em aviões antes mesmo de eles decolarem (aquele balanço do taxiamento é sonífero).  Durmo no volante quando o sinal fecha (perdi as contas de quantas vezes acordei com o pessoal buzinando atrás de mim porque o sinal já estava aberto há não sei quanto tempo e eu ainda estava ali, parado, dormindo).  Durmo na missa durante o sermão, durmo no cinema, durmo no teatro.  Durmo em pé, durmo sentado, durmo deitado.  Quando vou colocar as crianças para dormir, eu ensino pelo exemplo: durmo antes delas.  Há relatos, não confirmados (para mim são meros boatos destinados a denegrir minha reputação), de a Felícia ir até a Fiona reclamar: “mamãe, o papai já dormiu!“.

Para mim, quem tem sono, dorme.  E, para dormir, eu só exijo um único requisito: tempo.

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O Tio Wilson dizia que, depois do nascimento da Manuela, sua filha, ele jamais voltara a dormir uma noite inteira.  E olha que, quando ele disse isso, a Manuela já tinha mais de trinta anos na cara, estava formada, trabalhava e era dona do próprio nariz.  Eu, moleque, ouvi aquilo com desdém.  Tolo.  Tio Wilson era a voz da experiência e, hoje, não há uma noite sequer que eu não lembre e endosse suas sábias palavras.

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