O Caso Campana – parte 13

Naquela paróquia morava também uma funcionária do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.  Historiadora, mestre e doutora, conhecimento não lhe faltava.  Pelo contrário, ela transbordava cultura e erudição.  E simpatia também.  O padre, sabendo disso, foi visitá-la.  Sabia, de ver em matérias de jornal, que em algumas cidades e Minas Gerais, o sino havia sido declarado patrimônio, mas não sabia exatamente do que se tratava, como era o processo.  E, principalmente, se ele poderia se valer de algo parecido na sua luta pela sobrevivência do sino.

Dona Maria Lúcia, esse era o seu nome, o recebeu com sorrisos, café e biscoitos.  Conversaram algumas amenidades antes de entrar no assunto.

– Padre, sobre o caso do sino, eu participei de algumas etapas do processo de tombamento do toque do sino em Minas Gerais.  Deixe eu lhe explicar: o que foi inscrito no livro foi o patrimônio imaterial, o conhecimento adquirido a respeito do toque do sino nas cidades mineiras, tendo como referência principal São João del-Rei, Ouro Preto, Mariana, Catas Altas, Congonhas do Campo, Diamantina, Sabará, Serro e Tiradentes.  Essa aqui é uma cópia do Dossiê Descritivo.  Pode ficar para o senhor.  É um documento público, está no site do Iphan.
– Então não foi o sino, a peça de bronze, que foi tombada.
– Não.  Embora o sino seja a peça principal, sem a qual de nada vale o toque, não foi o sino que foi tombado.  O que nós pesquisamos ali foi o conhecimento acerca do toque do sino.  As formas de tocar, o modo de se comunicar, o que cada toque quer dizer, a forma como as pessoas dessas comunidades se relacionam com o toque do sino, foi isso.  Aliás, está registrado aí no Dossiê, que esse é um conhecimento muito antigo que está seriamente ameaçado devido a diversos fatores.  Deixe eu lhe mostrar, para o senhor ver.  Está aqui.  Leia o senhor mesmo.
– Observamos hoje que, paulatinamente, os sinos vêm sendo substituídos por instrumentos eletrônicos, com o aval e aquiescência da própria Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Essa opção se sustenta nas dificuldades para a manutenção de uma estrutura que viabilize o toque dos sinos em diferentes momentos da liturgia católica. Segundo a CNBB, a manutenção dos sinos e de seus toques não são mais condizentes com os tempos atuais; o custo de sua manutenção é elevado pois demanda a disponibilidade de uma ou mais pessoas para tocá-los, sempre que necessário. Além disso, há os casos (e são numericamente significativos) de sinos rachados, sem badalo ou, ainda, sem local apropriado para serem instalados. Os novos equipamentos eletrônicos possuem uma praticidade mais adequada aos dias atuais, justificam aqueles que optam por sua substituição: podem ser instalados em qualquer lugar, acionados por qualquer um, programados para tocar em qualquer intervalo de tempo, e com uma diversidade de repertório que pode chegar a 300 músicas diferentes.
– Viu?
– Mas não é disso que nós estamos falando, a senhora me desculpe.  Nosso sino já é eletrônico.  O sino de bronze está em perfeito estado lá no campanário, só não é mais tocado, a não ser na Vigília do Sábado de Aleluia e no Natal.
– Mas continue, padre.  Continue.
-Em Fortaleza, por exemplo, na paróquia de Nossa Senhora de Nazaré, há sinos de bronze em suas torres, mas o que toca mesmo é o som eletrônico. O pároco responsável apresenta como outra vantagem do novo equipamento, além dos aspectos já apontados, a possibilidade de reproduzir os sinos do Vaticano, ou os do Mosteiro de São Bento de São Paulo.  Eletrônicos ou não, ainda há toque de sinos e a comunidade os acolhe, reconhecendo sua importância. Entretanto, há aqueles casos em que a comunidade não vê mais sentido nos toques e não se identifica com esta expressão.  É exatamente assim aqui na nossa paróquia.  Acho que é disso que eu preciso.
– Sim, padre, mas se o senhor continuar a leitura, verá que o nosso caso é bem mais comum que o senhor imagina – para o bem e para o mal.
– É importante ressaltar que, desde há muito, os toques dos sinos não são uma unanimidade nas vilas e cidades. O silenciar dos sinos ou, pelos menos, a necessidade de moderação de seus toques, não é uma demanda recente, como poderia parecer a uma análise mais apressada como um resultado automático do processo de secularização do mundo ocidental e de homogeneização cultural característico da pós-modernidade. O cronista Luiz Edmundo comparava o incômodo causado pelas modernidades que chegavam ao Rio de Janeiro no início do século XX (buzinas de automóvel, apitos de locomotivas ou de fábricas, rádios, vitrolas, dentre outros) ao produzido pelos sinos que, segundo ele “(…) durante três longos e impassíveis séculos sobre os […] ouvidos, como sobre os […] nervos, malharam incansavelmente, desapiedadamente, falando-lhes num verdadeiro delírio de impertinência e constância, ora de Deus, ora dos próprios homens. O Rio era uma feira barulhenta de badalos. E que badalos! Nem sequer em Lisboa, onde eles à solta, viviam pelas sineiras quais cabras a dançar, tiveram, como aqui, maior função, maior violência e maior prestígio.”  Isso é um absurdo, Dona Maria Lúcia!
– Padre, perdoe-me.  Assim o senhor me ofende, enquanto profissional do estudo da história.
– Desculpe, não foi a minha intenção.  Foi apenas um desabafo.
– Sim, entendo.  Saiba apenas que esse documento é o registro do resultado de um extenso trabalho de pesquisa, que durou muitos anos, envolveu muitos profissionais, muitas fontes de informação, primárias ou não.  Concorde o senhor ou não, tais opiniões existe, tais fatos foram constatados.  E todo esse conjunto de informações levou a uma conclusão: recomendar a inscrição daquele conhecimento no Livro de Registro de Formas de Expressão.  Por ora, porém, continue a leitura.
– Recuando quase um século dessa notícia de Luiz Edmundo, há relatório da Comissão de Salubridade da Sociedade de Medicina sobre os toques de sinos e os malefícios à saúde deles decorrentes. Tal relatório, datado de 1833, informava: “No dia de finados, é melhor deixar-se a cidade aos defuntos que sofrer a tormenta dos sinos desde o meio dia da véspera até o tardanho momento dos últimos ofícios”. De tal abuso decorriam doenças nervosas e auditivas, uma vez que a população era submetida a mais de cinco minutos ininterruptos de toques. Naquela ocasião, entretanto, o relatório e parecer da Comissão sugeriam a regulamentação dos toques e não a sua supressão.
– Viu?  Era isso, afinal que eu queria mostrar ao senhor.  Os sinos nunca foram uma unanimidade, mesmo em tempos ou locais nos quais a igreja era ou é a instituição mais forte da sociedade.  Acho que o senhor terá mais êxito se a sua abordagem sobre o tema se relacionar à regulação do toque do sino, e não à sua completa proibição ou total liberação.
– Entendo.  Mas o sino já toca tão pouco…  De hora em hora, durante o dia e, em alguns momentos, uma melodia que não ultrapassa três minutos.

Ela deu de ombros sem pronunciar uma palavra sequer.

– Já entendi.  Que bom que a senhora está aqui tão perto.  Vou tentar mostrar às pessoas que o toque do sino deve ser preservado, como foi em Minas Gerais.  Vou ler tudo isso aqui com calma essa semana.  E vamos promover o debate sobre a regulamentação do toque do sino.
– Padre, me perdoe novamente, há um detalhe importante nessa história, que acho que o senhor não captou ainda.  A inscrição do toque do sino de Minas Gerais no Livro do Patrimônio se deveu porque a contemplação do toque, que nós chamamos aí no dossiê de “paisagem sonora”, foi entendida como um direito universal, não restrito a poucos que o conhecem e podem ouvir.  O Iphan entendeu que existe na cultura sineira uma função comunicativa única e eficiente, que está ameaçada de desaparecimento, e que deve ser preservada para pessoas que não são da região e para as gerações futuras.  Acho que não é esse o nosso caso.
– Realmente não é.  Infelizmente.  Mas, como eu disse, vou ler isso tudo com calma e qualquer coisa eu ligo.
– Sim, padre, estarei à disposição.  Espero ter ajudado.
– Ajudou sim.  Fique com Deus.
– Obrigada, padre.  Até domingo.

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