O Caso Campana – parte 15

Era um dia de sol atípico naquele verão.  Céu azul, sem nuvens, sol, mas sem muito calor.  O vento fresco ajudava a amenizar a sensação térmica e tornava o fim de tarde convidativo para todas as famílias virem à praça do bairro.  Crianças brincavam no parquinho, o pipoqueiro satisfazia-se com uma boa féria, alguns casais namoravam e os velhos aproveitavam as mesas da praça para jogar cartas.

Numa das mesas, caprichosamente forrada por um feutro verde, preso à mesa com elásticos, quatro antigos frequentadores da praça esforçavam-se numa emocionante partida de escopa.  O assunto, o sino da igreja.

– Corta!
– Eu não corto, eu parto o baralho, já te falei isso.
– Deixa de frescura.
– Distribui.
– Deixa comigo.
– Afinal de contas, o sino vai ou não vai continuar tocando?
– Sei lá. Sei que ele ainda toca. Que horas são?
– Devem ser quase cinco horas. Ele tocou quatro já tem um tempo.
– Porque eu já ouvi tanta coisa sobre o sino que nem sei mais o que é verdade e o que não é.
– Parece que vão convocar uma audiência pública para discutir esse negócio. Mas não sei quando, não sei onde, nem sei quem é que vai promover isso.
– Deve ser aquele político que veio aqui outro dia pedir voto. Sabe se ele foi eleito?
– Não faço a menor ideia. Mas mesmo que não tenha sido, ele não vai perder uma oportunidade como essa de aparecer. Sabe como é. Daqui a quatro anos tem outra eleição e ele precisa manter a semente regada.
– Lógico!
– Quem começa dessa vez.
– Geralmente é quem pergunta, ainda não aprendeu?
– Então deixa comigo.
– Eu não tenho nada contra o sino. Até gosto. Se fosse um negócio que tocasse música o tempo todo, acho que incomodaria, mas do jeito que está não faz mal.
– Eu acho que podia não tocar música nenhuma. Só as badaladas das horas, das oito da manhã às oito da noite. Melhor, podia ir até dez da noite. Quem é que dorme antes da novela? Ninguém. Dez da noite estaria de bom tamanho.
– Escopa!
– Pode ser. Mas esse negócio de fazer barulho me incomoda um pouco. Qualquer coisa que invade a minha privacidade me incomoda. Eu queria ter o direito de manter a minha casa em silêncio a qualquer hora do dia. Eu não deixo ninguém entrar lá. Por que é que o barulho que as pessoas fazem entra? Eu não tenho como controlar isso, deveria ter algum mecanismo de proibir que as pessoas pudessem fazer barulhos que entrassem na casa dos outros. O sino inclusive.
– Bonito! Olha quem fala? Se isso vale para barulho deveria valer também para cheiros.
– E o que é que tem meu cheiro? Tá dizendo que eu não tomo banho? Que eu sou fedorento?
– Escopa!
– Não. Mas lá de casa eu sinto o cheiro da fumaça do cigarro que você fuma na varanda do seu apartamento. Ou você esqueceu que eu sou seu vizinho? Aliás, não é só o cheiro do seu cigarro. O cheiro da maconha do filho do síndico também. Não posso ler meu jornal de manhã que já vem esses fedores invadirem meu apartamento, todos os dias.
– Você tá reclamando do meu cigarro?
– Ainda não. Estou apenas comentando que, se formos levar ao pé da letra essa sua ideia da invasão de privacidade, ela vai ter que valer para sons e cheiros com o mesmo peso. E, nesse caso, você não é um exemplo de moralidade.
– Escopa!
– Você quer me proibir de fumar na minha própria casa? Você está de sacanagem.
– De jeito nenhum. Você pode fumar. Eu posso ouvir som alto, dar festa até de madrugada. Aliás, acho que hoje vou ouvir pagode paulista até tarde.
– Pode ouvir o que você quiser, mas bota um headphone no ouvido.
– Então você também pode fumar o que quiser, mas bota um… Como é que é o nome mesmo, daquele negócio que os mergulhadores botavam na cabeça antigamente, de vidro, que parecia um aquário invertido?
– Escopa!
– Escafandro.
– Isso! Bota um na cabeça que a fumaça vai ser toda sua. Depois quer falar do sino… Vai dizer que a fumaça da maconha do filho do síndico também não te incomoda?
– A diferença é muito grande de um para outro.
– Realmente, um é de ouvir e o outro é de cheirar.
– Você está me provocando?
– De jeito nenhum. Só estou mostrando para você a incoerência dos seus argumentos. Não se pode querer que um barulho não entre na sua casa quando o seu cheiro entra na casa dos outros. Se você é contra a invasão da sua privacidade pelo barulho do sino da igreja e de qualquer outro som, seja de festa, de carro, de caminhão, de baderna, seja lá o que for, você também não pode ser a favor de que o cheiro faça o mesmo estrago. Só isso.
– Aê, nisso ele tem razão, cara. Eu não sou obrigado a fumar passivamente o seu cigarro. Sorte sua que o vento está na outra direção, senão eu iria pedir para você apagar a fumaça.
– Escopa!
– Sério. O argumento dele é bom. E não é nada legal chegar em casa com o cabelo e a roupa fedendo a cigarro se eu não fumo. Eu até aceito chegar em casa fedendo a mijo, porque eu bebo. Mas cigarro é demais para mim. O que é que a minha mulher não deve pensar.
– Vocês só podem estar gozando com a minha cara. Mas tudo bem. Vou apagar o cigarro. E vou embora daqui.
– Não precisa tanto. Pode só apagar o cigarro. Aliás, podia mesmo parar de fumar. Isso iria fazer bem a você. E largar o jogo antes dele acabar é sacanagem!
– Não encham meu saco. Prefiro parar de jogar com vocês. Ninguém tem nada a ver com a minha vida.
– Se é assim que você quer, tudo bem. A gente arruma outro parceiro.
– Mas ó, ei, presta atenção, só mais uma coisa: quando for fumar em casa, fecha a janela, por favor. Para não incomodar o vizinho de cima. Tá bom?
– E agora?
– Agora vamos jogar só nós três até alguém aparecer para completar.
– Beleza. Deixa que eu embaralho.
– Mas embaralha direito dessa vez, porque a outra mão tava muito ruim.
– Não enche o saco.
– Ih… Você também?

Anúncios

Você quer comentar? Clique aqui!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: