As varadas da vida

Antes de começar a história, tenho que informar a você, leitor, com o intuito de preveni-lo de reações inesperadas decorrentes do absurdo da situação, que o caso foi verídico.  Na narrativa deste conto (excetuando o nome da interlocutora), fugindo à regra vigente neste blog, eu abri mão da prerrogativa autoral de aumento de um ponto.

—– x —–

Era o segundo dia de aula de um módulo que eu costumo lecionar num MBA.  Em determinado momento, para descontrair e recuperar a atenção dos alunos, resolvi recorrer a uma brincadeira que ilustraria o ponto a ser lecionado naquele momento. Depois de fixar alguns conceitos básicos sobre o tema, fiz uma pergunta para explicar o uso e o funcionamento daquilo que estávamos debatendo.

– Quem aqui está casado ou namora ou está enrolado há muito tempo?

Uma meia dúzia de alunos ergueu timidamente a mão. Nessas horas, ninguém quer ser pego para exemplo, ainda mais envolvendo tal assunto. Sabe-se lá o que um professor como eu pode colocar em pauta no momento seguinte… Mas escolhi uma aluna, aleatoriamente, que estava sentada bem no meio da sala.

– Você. Como é o seu nome?
– Vanessa.
– Quanto tempo de casada?
– Uma semana hoje.
– E se somar com namoro?
– Quase oito anos.
– Muito bem.
– Uma semana, é? Por isso que eu não estou lembrando de você. Você veio semana passada?
– Não, eu faltei por causa do casamento.
– Motivo justificável. Eu faria o mesmo. Parabéns.
– Mas a gente já morava junto há mais de dois anos. Foi só a papelada.
– Mesmo assim, meus parabéns.
– Obrigada.
– Mas, voltando ao tema: você lembra a primeira varada que o seu namorado, agora marido, deu com você?

Ela não só não respondeu como ruborizou de uma maneira que eu não entendi. Como ela permanecesse em silêncio por mais tempo que eu esperava gastar com essa pergunta, resolvi insistir:

– Conta aí, qual foi a primeira furada que ele deu com você? Te deu um bolo, pediu para rachar a conta da pipoca no cinema, esqueceu do seu aniversário… Qualquer coisa.

Ela, enfim, respirou aliviada e respondeu:

– Ah, professor, é isso? Eu tava achando que o senhor tava falando de outra coisa…

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3 Comments

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  1. Cara, sorte ou azar seu que eu não participo da sua aula, porque eu não só entendi a mesma coisa ÓBVIA que ela, como ainda ia contar em detalhes sórdidos.

    Mas você não namora há tanto tempo quanto a pergunta requeria.

    • Sempre pode ser pior: se fosse a Fê, provavelmente ela acharia que a pergunta se referiria a um golpe violento e repentino com um pedaço flexível de madeira.

      Verdade. Mas a interpretação literal ainda seria muito melhor que aquela.

  2. MEU-DEUS-DO-CÉU! Noção foi embora e não deixou telefone, não mandou flores… ah, “cerumana”…

    Bizarro, né? E justo comigo, um sujeito de família, pacato, tímido.

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