No ônibus

– Ô motorista! Abre aqui, motorista!

Um clássico do cotidiano carioca. Um passageiro querendo descer do ônibus, mas impedido pelo senhor-todo-poderoso motorista do ônibus, um déspota que controla seu feudo, a vida e o destino de todos os seus vassalos passageiros como bem entende.

Eu estava alheio ao mundo, com a cara enfurnada no celular assistindo uma série do Netflix quando isso aconteceu. Mas um barulho daquele não dá para perder. Pausa na série, vamos à vida real. O ônibus estava parado no sinal de um cruzamento bastante movimentado de uma grande avenida da cidade. Fazia um calor senegalês e, obviamente, o ônibus não estava equipado com ar condicionado.

A passageira-refém estava em pé em frente à porta traseira. Trajava uma bermuda jeans, sandália rasteira, blusa regata branca, algumas tatuagens à mostra e uma garrafa long-neck de cerveja aberta numa das mãos, enquanto a outra puxava a cordinha insistentemente.

– Abre aê, motorista! Eu quero descer!

Estranho que ninguém comprou o barulho dela, como normalmente acontece, por aplicação prática do princípio da familiariedade. Ao invés disso, fez-se um silêncio no interior do ônibus, como se a moça fosse persona non-grata ali. Foi um silêncio tão grande que foi possível ouvir o motorista responder lá da frente, indignado:

– Mas aqui não é ponto…
– Eu sei! E daí? Eu quero descer!, essa era ela se valendo, agora, do princípio da liberdade de expressão.

O motorista não estava lá com a moral muito alta para ser puritano naquele momento. O ônibus estava parado, na pista da direita e dois pontos antes ele deixara alguns passageiros desembarcarem com o ônibus parado na pista da esquerda para se esgueirarem entre outros dois ônibus até chegar à calçada. Nem precisava dizer, mas era a isso que ela se referia quando retorquiu o motorista.  Prevaleceu, no entanto, o princípio da relatividade.

– Tá tranquilo, abre lá!, disse o trocador ao motorista, furando ele também o silêncio e exercendo o encargo que lhe cabe em caráter de primazia, decorrente do princípio da auxiliariedade. Mas não teve jeito. O sinal abriu, o motorista seguiu e só a deixou saltar no ponto seguinte, distante dali uns 400m, enquanto ela o xingava todos os motoristas do mundo e suas respectivas mães em voz baixa.

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3 Comments

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  1. A vida real também é muito criativa.
    Boa semana, Leandro.

    Criativa e fascinante.

  2. Pô, ela xingou em voz baixa? O que houve, surto de civilidade?

    Ela meio que murmurou querendo ser ouvida apenas por quem estava ali ao redor.

  3. Adorei… risos

    Clicando nos links para entender as referências a leitura fica mais completa.

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