De volta ao Detran

Todo ano nós, habitantes do Rio de Janeiro, temos que submeter nossos automóveis à vistoria da autoridade local de trânsito para renovar o licenciamento do veículo. Cumprindo meu dever, enquanto proprietário de um automóvel, dirigi-me ao posto do Detran mais perto da minha casa.

Na primeira tentativa, fui reprovado, porque o para-choque do meu carro estava avariado, vítima de uma barbeiragem praticada a menos de 2km/h (isso mesmo, menos que dois quilômetros por hora). Caí em exigência, corri para reparar o para-choque e voltei alguns dias depois para concluir o processo. Sem grandes problemas, a exigência foi dada como cumprida e eu fui encaminhado ao contêiner onde seria laureado com a licença veicular de 2016.

Cheguei no tal contêiner e lá havia três pessoas. Elas foram atendidas, chegaram mais cinco, que também foram atendidas, e nada de eu ser atendido. O meu papel, vi através do vidro do balcão, estava sob o teclado do atendente. Em determinado momento, ninguém mais restava no contêiner, além de mim, do atendente e do sujeito que vistoriou o carro. E eu já estava há 45 minutos ali esperando. A paciência foi para o saco.

– Gente fina, você me botou de castigo porque eu fiquei em exigência?
– O que?
– Já entrou gente, saiu gente, todo mundo foi atendido e eu tô aqui de castigo. Só pode ser porque você ficou chateado de eu ter dado trabalho para você voltando aqui para cumprir exigência. Você deve estar fazendo isso para eu aprender a acertar de primeira.
– Não, não é isso. É que você tem uma multa no sistema e aí para liberar a licença sem a multa tem que ter uma senha. Só que eu não tenho a senha. Só quem tem a senha é outra funcionária.

Realmente, meu carro tem uma multa desde 2012, multa essa que nunca chegou na minha casa, embora eu já tenha tentado ir ao seu encontro algumas vezes, sem sucesso. Mas isso nunca havia sido impeditivo para o licenciamento.

– E quem é essa funcionária?
– É uma funcionária.
– Isso eu já entendi, amigão. Eu quero saber o nome dela.
– Ela já vem aí.
– Mas eu quero saber quem ela é, para procurá-la e ver se ela vem logo me liberar.
– É que ela não está aqui.
– Peraí. Eu tô aqui há 45 minutos esperando e só agora você me diz que o meu caso depende de uma pessoa que não está aqui? E agora? Eu tenho que esperar ela vir de casa até aqui para ser liberado?
– Não, senhor. Ela está aqui, mas ela não está aqui.
– Como é que é?
– Ela veio trabalhar, mas ela deu uma saidinha.
– Como assim, saidinha? São 9h da manhã, não é horário de almoço.
– É o horário de lanche dela. Aí ela deu uma saidinha para fazer o lanche. O senhor espera que ela vai voltar.
– Quanto tempo é o horário de lanche?
– Quinze minutos.
– Então tem alguma coisa errada. Porque se eu tô aqui há 45 minutos esperando a moça voltar de um lanche que demora 15 minutos, e só agora você me avisa isso…
– O senhor tem razão.

Ele se levantou, saiu, voltou em um minuto e tentou me acalmar.

– Já ligaram para ela, ela já está voltando.
– Onde é que ela está?
– Ela já está voltando, senhor. Espere que ela vai chegar.

Saí do contêiner e fui esperar na porta do local. Uns cinco minutos depois, vem a madame, passeando com a pressa de quem não tem nada o que fazer (realmente não tinha, porque só havia o meu carro no local), com uma sacolinha plástica na mão (com um lanche dentro).

– Oi! É você que vai me liberar?
– Ahn?
– Desculpe. Eu estou esperando uma pessoa que tem uma senha toda-poderosa que pode liberar o meu licenciamento.
– Ah, acho que sou eu sim. Vamos lá que eu vou ver.

Simpática a moça, nem um pouco constrangida. Tudo absolutamente normal. Sanduíche numa mão, lata de coca-cola na outra, ela entrou no contêiner e eu também. Ela digitou uns seis caracteres e voilà! A impressora começou a cuspir o documento. Ela sorriu, deu tchau, e saiu do contêiner sem que eu pudesse agradecê-la.

Com o documento na mão, fui procurá-la. O pretexto era agradecer – cinismo em modo ultra-super-máximo. Eu queria mesmo saber o nome da desgraçada. Tudo bem que ela está – assim como todas as pessoas que trabalham em postos do Detran do Rio de Janeiro – com salários atrasados há vinte dias, mas daí a dar um perdido e deixar alguém na mão vai uma grande diferença. Procura aqui, procura ali, achei-a dentro de outro contêiner, comendo ainda o seu sanduba e sorvendo a coca-cola, em meio a um papo para lá de animado com outros colegas de trabalho.

– Desculpe a falta de educação, seu nome é…
– Lorraine.
– Lorraine… Bem, eu só vim agradecer. Muito obrigado.
– Ah, de nada.

Maldita!

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3 Comments

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  1. É igual em todo o lado. .-(

    Não sei aí, mas aqui é um negócio profissionalmente esculhambado.

  2. É o que eu sempre digo, a única finalidade do Detran é atrapalhar a vida das pessoas e nós não podemos não fazer nada. Somos reféns.

    E o Detran é bom nisso.

  3. Mais uma finalidade … “engordar os cofres público”.
    Eu tive sorte! Entre a vistoria e o documento não demorou 30′. Difícil foi a fila pra entrar no DETRAN, 1 e 1/2 hora . Os motoqueiros furam a fila na maior cara de pau e ninguém faz nada. Tinha 1 na minha frente que se transformou em 7. Acho que deveria ter um ponto específico para eles, uma vez que educação é zero.

    Eu falo que o Detran é bom no que faz…

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