Sobre o uso de tecnologia na arbitragem do futebol

Inúmeras vezes já manifestei, aqui e ao vivo, ser contra o uso de tecnologia para auxiliar a arbitragem no futebol. Sempre fui da opinião de que a eterna discussão de bar, que começa no minuto seguinte ao término do jogo e, algumas vezes, não termina jamais, era a verdadeira essência do futebol. Mas uma conversa – igualmente de botequim – que ouvi recentemente (e inadvertidamente, já que eu não era o interlocutor), me fez pensar novamente no assunto.

O argumento do mérito financeiro nunca me convenceu. No futebol, diferentemente dos outros esportes, não há, nem deve haver, mérito necessário entre o volume de investimentos e o resultado esportivo. É da natureza do futebol ver Davi desbancar Golias. Mas não deve ser da natureza do futebol ver o juiz declarar Davi vencedor da contenda quando a pedra nitidamente não atingiu nem passou perto da cabeça de Golias.

Penso, logo mudo de ideia – diria Platão nos dias de hoje.

O argumento que um dos bêbados utilizava era que o uso da tecnologia para auxiliar a arbitragem de outros esportes já era uma prática para lá de consagrada, bem recebida. Em alguns casos, chega a ser impensável conviver sem ela nos dias atuais.

Pensemos no atletismo (alguém consegue saber o resultado exato dos 8 competidores dos 100m rasos – sem a participação do Usain Bolt – a olho nu?). Pensemos na natação, pensemos nos esportes a motor… Se não fosse a tecnologia, com seus cronômetros, medidores, fotocharts, replays em câmera lenta e em vários ângulos enriquecidos com computação gráfica, quantas decisões equivocadas já não se teria visto?

Mas, diferentemente dos outros esportes citados – e de tantos outros que usam a tecnologia como forma de auxiliar a arbitragem –, o futebol é um esporte muito dinâmico, praticado com intensidade elevada e constante durante os 45 minutos de um de seus dois tempos. Parar para rever replay não é da sua natureza e pode tornar o jogo enfadonho para o público e interminável para quem transmite.

Concordando com a tese do tal bêbado e entendendo as limitações do esporte, eu proporia uma regra que permitisse ao árbitro rever um lance – e a sua decisão, por consequência – apenas em lances capitais e mediante provocação do time desfavorecido. Entenda-se por lances capitais a marcação de gols, pênaltis e a expulsão de jogadores. Os demais atos do árbitro continuariam soberanos como são até hoje.

Mas a provocação também não pode ser indefinida e eterna. Há que haver limites. Duas por jogo para cada time. E também há que se haver uma consequência para a provocação que não resultar em revisão da decisão do árbitro – algo como a diminuição do número de substituições possíveis ou a retirada de um jogador do campo de jogo por cinco ou dez minutos, ou a concessão de um tiro livre ao gol da linha da meia lua (vide Torneio Rio-SP de 1997).

São só ideias com as quais já sou simpático. E estou disponível para palpites.

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2 Comments

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  1. Acho que se o quarto árbitro tivesse autonomia para entender que determinado lance deve ser reanalisado (ele mesmo estando dotado de um monitor por meio do qual acompanharia o jogo, especialmente as jogadas dentro da área (sem prejuízo de outras feitas em outras partes do campo) não haveria necessidade de instituir um limite para provocações. Eu sei que isso traz dois inconvenientes: retira a iniciativa de provocação do time prejudicado e também reduz a autoridade do árbitro, cuja decisão pode ser questionada por outro integrante da equipe de arbitragem, mas é melhor do que o que temos hoje. É mais uma ideia para ser discutida.

    Mas aí ele teria que mandar parar o jogo para reanalisar o vídeo para ver se o lateral foi batido com os dois pés no chão ou só com um pé no chão. E no que ele basearia sua suspeita de que o lance era duvidoso? Acho que isso daria margens a mais dúvidas, já que o quarto árbitro está ali pressionado pelos técnicos.

  2. Conversemos sobre isso num bar. Aqui é muito limitado pra tudo que tenho a falar sobre o tema.

    Então aparece na sorveteria hoje.

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