São as águas de março

Das grandes vantagens de se morar em edifício, logo percebi, é ter água fria no chuveiro mesmo nos dias mais tórridos do verão carioca. A caixa d’água comunitária força a renovação constante do reservatório, impedindo que a água adquira o calor ambiente. Chegar em casa, no fim de um dia em que a sensação térmica superou os 45ºC e poder tomar banho com água a menos de 30ºC é uma bênção que eu nunca havia tido na vida.

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Nem tudo são flores. O que a vida te dá com uma mão, tira com a outra. Coletivamente, as chances de controle das despesas com água são, numa perspectiva otimista, mínimos. Algumas vezes tive que comunicar o síndico que havia vazamento na válvula de descarga do apartamento de cima (como a mulher não percebia isso???). Não fosse meu aviso, a surpresa geral no fim do mês seria grande.

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O problema é que, às vezes, a vida tira mais do que dá. Sábado choveu o mundo no Rio de Janeiro. A prefeitura acionou, pela primeira vez, o protocolo de crise. Carros boiaram, como de costume nessa época do ano. Lá em casa, de acordo com os registros oficiais (o medidor da prefeitura fica bastante próximo da minha casa, a ponto de eu conseguir ter contato visual com ele), choveu aproximadamente 90mm em 1h. Para quem não tem ideia do que seja isso, um chuveiro elétrico daqueles baratinhos não alcança tal vazão. Agora imagine essa quantidade de água caindo ao mesmo tempo sobre uma superfície de alguns quilômetros quadrados na qual há várias nascentes de rios. Foi o que ocorreu no Rio de Janeiro, no sábado à noite. O Cantareira teria transbordado. Havia um buraco na telha do prédio, provavelmente provocado por um projétil disparado aleatoriamente. É possível também que a calha de drenagem não tenha sido suficiente para dar vazão a essa cachoeira celeste. O resultado foi que a laje do prédio encheu de água, que começou a infiltrar pelos buracos por onde descem os canos do prédio. Andar por andar, os apartamentos viraram piscinões.   Tetos pingaram, paredes umedeceram, baldes se encheram, pinturas se danificaram. Só na quarta-feira foi possível retirar, com baldes de mais baldes, o que ainda restava de água na laje. As goteiras cessaram, os baldes foram guardados, mas ainda há muita umidade e o cheiro está insuportável.

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No auge da confusão, a vizinha de cima, bem mais afetada pela água que caiu do céu do que eu, após relatar seus problemas, pediu licença para tomar um banho antes de ir trabalhar. Respondi que água não iria faltar. Eu perco o amigo mas não perco a piada.

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2 Comments

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  1. Bem Leandro!

    Tenho a quem puxar.

  2. Realmente, essa piadinha do final foi uó.

    Tô aprendendo com você, mestre.

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