Previdência social

Era inadiável.  Hoje tive que me dirigir a uma agência da Previdência Social.  Cheguei bem cedo, 7h15.  Ela já estava aberta.  Do lado de fora, uma mulher fumava e conversava amistosamente com o segurança.  Entrei, após um único e protocolar “bom dia” dirigido a ambos.  Dentro, um detector de metal fazia um papel tão protocolar quanto simbólico fora o meu “bom dia”.  Não apitaria nem que a vaca tussisse.  Uma fila, nela entrei.

Era uma fila para entrar na fila de atendimento.  Os mais afetos à burocracia estatal diriam que se tratava de uma triagem.  Na prática, era uma fila para formar a fila de atendimento.  Uma fila onde não existiam prioridades, urgências, concessões nem assentos para espera.  Do idoso à criança de colo, da gestante à cadeirante, todos estavam ali de pé, em pé de absoluta igualdade.  A velha atrás de mim estava inconformada, não parava de reclamar.  E parecia não notar a minha indiferença – ou não fazia nenhuma questão de ter a minha atenção, pois falaria do mesmo jeito ainda que às pedras.

Chegou a minha vez.  Ganhei a estranha senha de atendimento X00010.  Olhei o painel.  A última senha chamada era a D00004.  “A letra talvez não faça diferença senão na necessidade do atendimento“, pensei tolamente.  Sentei, agora sim, para esperar a minha vez.

Uma única pessoa fazia um atendimento.  Outra funcionária – aquela que estava fumando do lado de fora minutos antes – olhava atentamente o computador, como quem tenta decifrar um enigma dificílimo, sem atender ninguém.

“Eu vim só tirar o meu CNIS”, disse eu a ela, quebrando sua concentração.  “Já pegou a senha?“, respondeu ela, tão protocolar quanto o meu “bom dia” de minutos antes, sem sequer tirar os olhos da tela do computador.  Mais ela não precisava dizer, mesmo assim insisti.  “É que é uma coisa tão rápida que eu imaginei que a senhora pudesse me adiantar“.  Desconfio que ela quis rir de mim, mas se conteve.  “Você será chamado.”  Tornei a me sentar.

Chamaram o M00014.  Dois outros funcionários apareceram para trabalhar e ligaram seus computadores.  Um deles, percebi pelo reflexo do vidro, ligou o jogo de paciência (ou Freecell, ou algo parecido).  O outro, puxou o celular e começou a ler as mensagens do Facebook.  Chamaram a senha W00002, a senha P00013, e eu simplesmente desisti de encontrar qualquer lógica na fila de atendimento.  Puxei o telefone e escrevi ao chefe dizendo que ia chegar atrasado no trabalho.

Aguardei por mais uns dez minutos até que – nem acreditei quando vi! – chamaram a bendita senha X00010.  Meu atendimento não demorou mais que cinco minutos, e feito pela fumante burocrata.  Muito simpática, por sinal.

Tudo para descobrir que quase um ano do meu tempo de contribuição não está registrado.

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One Comment

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  1. O INSS está tirando onda com o Detran.

    Tá pau a pau.

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