Palavrões

Quando Felícia gritou “p%##@!” depois de gritar que eu estava errado – ela já de saco cheio de ser contrariada e eu, ainda sereno, explicando para ela que era hora de almoçar, não de ver televisão -, eu não consegui conter a risada.

Ri porque o palavrão foi muito bem empregado.  Ri porque a cara dela de brava – escrevendo isso, eu lembro e começo a rir a tal ponto que vão pedir para que eu conte do que estou rindo – era algo impagável.  Ri porque eu não esperava isso dela.  Ri porque eu sempre pensei que estaria preparado para quando esse momento chegasse, mas não estava.  Ri porque ouvi a Fiona rindo também na cozinha.

Mordi a língua porque eu tinha que manter a compostura.  Mordi a língua porque eu tinha que parecer sério e indignado com aquela afronta.  Mordi a língua porque eu precisava ter moral para corrigir aquele comportamento inadmissível.  Mordi a língua porque eu não sabia o que fazer, não sabia o que responder, não sabia que bronca dar, não sabia como reagir e morder a língua foi a única coisa que me ocorreu naquele momento.

Pior é que ela percebeu.  E repetiu indefinidamente o palavrão, diante do sucesso do seu emprego.

– Filha, vem aqui que eu quero falar com você!, chamou a Fiona, já aparentemente recomposta na cozinha.  Eu tenho que agradecê-la por me salvar daquela situação.  Ela tem melhor tino para o improviso.  Eu sou mais cintura dura.

Bronca dada, a cena não mais se repetiu, até que, alguns dias depois…

– Irmão, vem aqui!  Galoto!  Eu tô chamando, vem aqui!  Fergus, você não tá me ouvindo, eu já falei para você vir aqui!  Vem aqui, c@##@§$*!”

Olhei para a Fiona, ela olhou para mim, e rimos um para o outro, sem conseguir disfarçar.

– Ô c@##@§$*, vem aqui, eu tô chamando!

Ela usava o palavrão como vocativo, não como, sei lá, adjunto adverbial de intensidade de fúria.  Aquilo me fez rir um pouco mais – e eu aproveitei para me retirar da sala, enquanto Fiona repetia a eficiente bronca dada alguns dias antes.  Que funcionou também!

O que mais virá por aí?…

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2 Comments

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  1. Impressionante a relação das crianças com o palavrão. Elas sabem exatamente para que eles servem e quando usá-los, parece que é inato! E quando sai o primeiro a porteira está aberta, ninguém segura mais. Outro dia o bonitão de cá soltou uma que está virando um post. Se você tivesse visto, ficaria orgulhoso!

    Orgulhoso eu ainda não sei. Ansioso eu fiquei.

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