Dicas para a próxima manifestação de taxistas

Entendo, mas não concordo, com o movimento dos taxistas hoje no Rio de Janeiro.  Entendo porque é uma classe trabalhadora, que tem família para sustentar, e que se vê ameaçada, de certa forma, por uma concorrência que eles entendem real, competitiva, desleal e predatória.  Não concordo porque acho que a evolução dos usos, costumes, da tecnologia, do modo de se relacionar, produzir, comercializar, de se locomover dentro de uma cidade grande como o Rio de Janeiro se modificaram muito desde a criação do primeiro serviço de transporte individual de passageiros (o táxi) e da sua regulamentação.

Não conheço a história em pormenores, mas acredito que muito antigamente alguém tenha vislumbrado que, possuindo um veículo, poderia utilizá-lo para ganhar dinheiro afretando-o para viagens e usando sua própria perícia para conduzi-lo.  Quem utilizava o serviço ganhava porque ter um carro naquela época era luxo, a velocidade do deslocamento era elevada.  Quem oferecia o serviço ganhava o suficiente para arcar com o investimento no carro, suas despesas de operacionais (combustível), de manutenção e ainda sobrava algum para o próprio sustento.  Expunha-se, porém, aos riscos do mercado: acidentes, ausência de passageiros, concorrência.

Só que o negócio deve ter dado muito certo e outras pessoas tomaram a mesma iniciativa.  Uma zona deve ter se instalado na cidade e o Poder Público deve ter sido chamado a colocar ordem no caos, criando padrões (cores, tarifação, fiscalização, etc.) e – aí talvez tenha sido o grande erro – impondo limites à admissão de novos entrantes no mercado (só podia ingressar quem obtivesse a permissão do Poder Público).  Melhor teria sido deixar o mercado se regular, saturando-se naturalmente.

Hoje em dia – não vou abordar a questão legal que provoca toda a discussão entre taxistas e uberistas – a concorrência se apresentou.  Estamos diante de um fenômeno parecido com o dos monges copistas, quando se inventou a imprensa; dos trocadores de ônibus, quando se inventou a bilhetagem eletrônica; dos remadores de galeras e dos velejadores, quando se inventou o motor a vapor.  Espero que o mesmo aconteça com parlamentares, quando evoluirmos a ponto de perceber que a internet permite que os cidadãos participem diretamente do processo legislativo, sem intermediários – mas isso é assunto para outro post.  A novidade chegou para balançar o mercado.  E essa é uma das variáveis de qualquer tipo de negócio.

Atingimos um padrão de consumo, de tecnologia e de comunicação que permite que aquele serviço que não era nada organizado, possa se organizar naturalmente.  Por isso, sou defensor da total desregulamentação do serviço individual de transporte de passageiros.  Ou, se isso não for viável, de se suprimir as permissões individuais e iniciar um período de concessões públicas, precedidas de licitações, a empresas que queiram explorar seus serviços com suas frotas e seus empregados – exatamente como acontece com o transporte coletivo.

Atirem pedras, essa é a minha opinião.

Só acho que fazer refém a cidade que lhe concede a permissão para trabalhar, exigindo algo em troca, é uma prática que muito se assemelha à extorsão mediante sequestro.  E não cria na população que elege os representantes com quem vocês têm que negociar simpatia para a sua causa.  Melhor seria ficar em casa sem trabalhar por um dia (melhorando o trânsito e mostrando que a concorrência é insuficiente).  Melhor seria reduzir a tarifa a ponto de somente cobrir custos de deslocamento por um dia (quebrando a concorrência).

Ficam as dicas.

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  1. Para os chatos de plantão não me crucificarem, entenda que as próximas frases estão precedidas da palavra “alguns”. Taxistas são muito parecidos com motoristas de ônibus, tanto que os princípios da física intraonibusina se aplicam perfeitamente aos táxis, naquilo que couberem. Em certos aspectos, eles são ainda piores. Por causa da infelicidade de lhes conceder uma permissão individual, os taxistas acham que são caroneiros remunerados, que podem tratar os passageiros como bagagem indesejada a ser descartada onde e como quiserem. Também por causa da permissão, uma corrida do aeroporto até a casa pode custas o preço da passagem de avião. E eles ainda gostam de esticar a validade daquela tabela de correção do preço meses depois da aferição do taxímetro, só pra tirar unzinho a mais.

    “Ah, que exagero!” Você acha? Pois saiba que a Fê e o João já foram “convidados” a desembarcar de um táxi porque ele estava chorando, e o pobre motorista, coitado, estava incomodado com o barulho. E o fenômeno do desaparecimento dos táxis na chuva? Sem falar dos taxistas que escolhem para onde querem ir. E dos mal educados.

    Por isso, viva o Uber (que eu uso bastante) e qualquer outra forma de competição que apresente uma alternativa mais confortável, confiável e atraente do que os táxis. Os taxistas que arranquem as cuecas pela orelha. Em vez de agirem como guerrilheiros, que se organizem para recuperar o mercado que merecidamente vêm perdendo.

    O problema é que é difícil convencer os caras dessa triste realidade que bate à porta…

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