Amor à primeira vista

Minha irmã se rendeu aos encantos de andar de ônibus.  Não foi proposital.  Foi obra do acaso mesmo.  Ela precisou ficar sem carro alguns dias.  Descobriu que uma linha de ônibus atende a todas as suas necessidades de deslocamento casa-trabalho-casa.  E melhor: gastando apenas cinco minutos a mais (por trecho) do que a alternativa de uso do carro dela.  Fez as contas e não teve dúvidas.  Agora o carro dela só sai da garagem nos fins de semana.

O melhor disso foi, depois de umas semanas de implementação da nova rotina, o papo que tivemos.

O ônibus dela passa uma vez a cada hora.  Próximo à casa dela, a caminho do trabalho, o ônibus passa sempre no minuto 35; no trabalho, no caminho de volta, no minuto 40.  Ela se organizou para chegar uns cinco minutos antes no ponto, para não ter risco de perder o ônibus.  Como ambos os pontos são muito próximos do ponto inicial de cada rota, o risco de variação do horário é bastante baixo.

Dizia ela que já estava perfeitamente ajustada.  Já sabia onde cada passageiro se sentava.  E que já conhecia todos, ao menos de vista.  Com frequência tão baixa, é natural que todos os dias os passageiros sejam sempre os mesmos.  É o princípio da familiariedade, expliquei.  Eu também a alertei do risco que ela estava correndo em sentar em um lugar que ela não sabia de quem era antes de ela adentrar naquela rotina.  Se eu fosse ela, teria feito a viagem a pé umas duas semanas, até descobrir de quem eu iria “roubar” o lugar.

Outra coisa interessante, que ela confidenciou, foi que o piloto rotineiramente ignora parte do trajeto do ônibus, com fim de acelerar a viagem.  Palavras dela: “o motorista todo dia pergunta se alguém vai saltar ali e todo mundo grita lá de trás dizendo que ‘nããããão!’, e aí ele passa direto, dane-se se tem alguém lá esperando por ele”.  É o princípio da relatividade, expliquei.

Ela também falou que, certo dia, o ônibus atrasou cinco minutos.  Todo mundo entrou reclamando com um motorista que, coitado, não era o habitué da linha, estava ali aprendendo ainda – porque para ser piloto basta saber pilotar, não precisa saber o trajeto.  É o princípio da liberdade de expressão, expliquei.  Ela também deveria ter entrado no ônibus dando um sermão no motorista.  Quantos problemas cardíacos ele não teria causado com o atraso?

A última coisa digna de nota que ela narrou, na sua até então incipiente experiência onibusina, foi o dia em que o piloto resolveu quebrar todos os recordes estabelecidos, entorpecido em retroalimentar seu próprio poder.  Fez curvas em que ela não sabe, até hoje, como o ônibus não tombou.  Pelo visto, ele não quis quebrar somente os recordes de velocidade, mas também de proximidade das janelas do solo em curvas.  É o princípio da liquidificadoriedade, expliquei.

Acho que, com essas aulas práticas, ela vai acabar entendendo.

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One Comment

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  1. A física intraonibusina é mesmo uma ciência empírica, porque se ficarmos só na teoria muita gente não vai acreditar.

    Não é só empirismo não. É um campo no qual teoria e prática andam juntas!

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