Tique nervoso

O cara estava visivelmente nervoso.  Como ele estava sentado do lado oposto do ônibus, também no corredor, um banco à frente, eu podia perceber isso sem nenhuma dificuldade.  Nervoso e agitado – a agitação, possivelmente, fruto do nervosismo.  Mexia na mochila, jogava-a no chão novamente, pegava um caderno, abria, não lia nada, fechava e punha na mochila, mexia no celular, desligava…  Uma rotina caótica.  E tanto mais nervoso ficava, eu comecei a notar que ele tinha um tique (ou seria tic? leitores psiquiatras, por favor, me ajudem) de virar o rosto para o lado, como se os olhos fossem magneticamente atraídos pela orelha direita.

Desliguei meu telefone para prestar atenção naquilo.  Com sorte, eu não faria o papel do ascensorista (a melhor parte da conversa sempre acontece depois que as pessoas saem do elevador, deixando o pobre do ascensorista curioso).

Lá pelas tantas, ele sacou o IPhone 5C branco da mochila pela enésima vez e abriu o bloco de notas.  Hesitou, foi atacado por novos tiques – a essa altura mais frequentes – pensou, e escreveu:

Alguém já te disse que você está linda hoje?

Por que raios não escrever aquilo no WhatsApp?  Quem iria ler uma mensagem daquelas no bloco de notas?  Seria um método de rascunho, para evitar que o dedo esbarrasse no botão de enviar acidentalmente antes que ele tivesse certeza da mensagem a enviar?  Não, peraí, se ele está escrevendo no bloco de notas e é sobre a aparência física da pessoa é porque…  Sim!  Só então notei que a moça sentada ao seu lado, na janela, parecia ser bonita.  Parecia porque eu não conseguia vê-la direito.

Ele digitava mais, apagava, redigitava, apagava novamente, ia e vinha sem se convencer do que fazer.  Vamos logo, meu amigo, eu vou saltar daqui a pouco, resolve isso aí!  Mas faltava-lhe a coragem e a audácia necessárias para o bote.  Não que eu as tenha, aliás…  Melhor deixar para lá.  Entendia a situação do rapaz.  Era imperioso, porém, que ele as tivesse – ao menos para mim, e para a minha curiosidade, era imperioso.

Após muitas idas e vindas, a mensagem ficou assim:

Alguém já te disse que você está linda hoje?  Bom dia! 🙂

Ele leu e releu aquilo umas quinhentas vezes.  Lia, escondia o celular sob o braço direito (a menina estava sentada na janela, do lado esquerdo dele), lia novamente, escondia o celular dentro da mochila…  Ação mesmo, que é bom, nada.  Meu ponto se aproximava.  Puxei a cordinha – eu odeio apertar aquele botão, a cordinha é bem mais roots e sempre funciona – e só não levantei porque o ônibus estava relativamente vazio (havia duas ou três pessoas em pé, somente) e não havia necessidade de me antecipar.  Quando ele parasse, eu poderia sair rapidamente sem sofrer os solavancos liquidificadoriais da freada.  Minha sorte!

Iniciada a freada derradeira da minha viagem, ele deu seu último tique, mais violento que todos os outros anteriores, controlou-se, cutucou a menina e mostrou-lhe o celular.  Ela demorou um instante para entender do que se tratava.  Leu a mensagem rapidamente e respondeu-lhe com um “já” tão desinteressado quanto áspero, rude.  Ele enfiou a viola, ou melhor, o telefone no saco, ou melhor, na mochila, levantou-se e foi caminhando em direção à porta de saída.

Eu fiquei ali, olhando para ela mais alguns instantes.  Queria saber se ela era realmente tão bonita que merecesse aquela investida fortuita às 8:15h da manhã.  Também estava desapontado pela falta de sucesso da investida; de certa forma, eu era testemunha do seu esforço e estava torcendo pelo cara.  Não que a menina tivesse a obrigação de lhe dar trela, número de telefone, tampouco beijá-lo.  Mas pelo menos um sorriso e um gentil agradecimento pelo elogio, por pior que fosse o humor dela àquela hora da manhã, era o mínimo que a civilidade que eu esperava.

O ônibus parou, não só o cara e eu nos levantamos para desembarcar, como quase metade do ônibus também o fez – a menina não, a viagem dela continuaria.  Enquanto as pessoas desembarcavam, eu continuei fitando-a.  E pude perceber que ela sorriu, talvez feliz, talvez envergonhada, talvez orgulhosa por ter quebrado mais um coração, depois de se certificar que já estava fora do alcance da visão do sujeito.  Abriu a bolsa, sacou um estojinho de maquiagem e se olhou no espelho, através de seus óculos escuros.

E enquanto o ônibus partia do ponto rumo ao ponto final, o sujeito caminhava desolado para o seu destino, sem sequer acompanhá-lo com os olhos rumo ao horizonte da esquina, onde ele desapareceria poucos segundos depois.

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2 Comments

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  1. Peraí, peraí: você estava sentado do outro lado do corredor, na frente do sujeito, e leu o que ele escrevia no celular? Você estava virado de costas?

    Quanto ao mérito, fico triste pelo rapaz, mas faz parte da vida. Uma hora ele chega lá.

    Você tem razão. Do jeito que estava escrito, a sua interpretação era possível (eu estava atrás dele, não ele atrás de mim). Não era isso. Reescrevi e agora está mais claro.

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