Um dia na Quinta da Boa Vista

Sábado das mães.  O que fazer?  Mamãe decide, lógico.  E mamãe resolveu levar os filhotes ao Zoológico.  Mais que isso: como estava tudo dando certo, resolvemos almoçar na Quinta da Boa Vista mesmo e estender a visita ao Museu Nacional.  E do saldo disso virou post.

A Quinta da Boa Vista tinha tudo para ser o lugar mais bonito e agradável do Rio de Janeiro.  O problema é o planejamento urbano que fez dela refém de seus incômodos vizinhos, que vão desde favelas até estandes de tiro (felizmente já desativado).  Prostitutas do pior quilate se oferecem ao longo dos muros, nas ruas do entorno.  E nem a proximidade de uma Delegacia de Polícia, um quartel do Corpo de Bombeiros e outro do Exército Brasileiro são suficientes para garantir a segurança de quem circula pelas redondezas.  Ainda assim, ultrapassado o perímetro e as grades que a cercam, a coisa não muda muito de figura.

Para começar, o estacionamento é caro – ainda mais caro em sábados, domingos e feriados, quando o preço dobra.  No entanto, é o preço do conforto de estacionar dentro da Quinta, e não nos seus fétidos e perigosos arredores.  Não é à toa que ele está usualmente cheio.  Além disso, quem chega de carro é recebido por palhaços mal encarados que se jogam em cima do carro para vender sei lá o que, numa técnica de abordagem que mais se aproxima das emboscadas do que das melhores práticas comerciais.

Barricadas superadas, carro parado, vamos ao que interessa: o Zoológico.

O Zoológico do Rio de Janeiro ficou fechado por algum tempo, fruto de um embargo que era motivado pelas péssimas condições a que moradores (os animais mantidos em cativeiro) e visitantes estavam sujeitos.  Reabriu.  Era de se supor que as coisas tivessem melhorado, os problemas estivessem corrigidos, e que a visita tivesse voltado a se tornar algo construtivo, saudável e edificante para quem visita e para quem é visitado.

ZooOs ambientes humanos estão limpos.  A água do tanque do hipopótamo está transparente, não é mais aquele lodaçal nojento.  Algumas obras civis foram feitas no Viveiro e as espécies estão sendo paulatinamente reintroduzidas naquele ambiente.  Ainda há interdições.  Alguns animais foram mudados de jaulas.  Alguns acochambramentos (leia-se, improvisos, mas com tom pejorativo) podem ser facilmente notados.  A Câmara Escura (o ambiente onde eram exibidos os morcegos e outros animais de hábitos noturnos) está mais para uma ruína do que para uma peça do acervo do Zoológico – tanto que está fechado.  Os espaços educativos também estavam fechados (justo num sábado ensolarado!).  E o mirante da fazendinha servia como abrigo para o sono dos empregados, equiparando-se a uma marquise ocupada por mendigos.

ZooO grande problema é que as reformas estruturais, aquelas que vão tirar o Zoo da era do Barão de Drummond e colocá-lo no século XXI, essas ainda vão ter que esperar muito.  Não temos um Parque Zoológico, mas um Complexo Prisional Animal; aquelas jaulas mais se prestam a aprisionar animais exóticos do que a criá-los à vista dos visitantes.  A coisa tinha que ser mudada no conceito.  Usar todo o espaço da Quinta da Boa Vista, ou levar o acervo para outro lugar mais calmo e com espaço suficiente para abrigar os animais em ambientes amplos e confortáveis.  Sem falar em iniciativas de ordem empresarial, como permitir que os visitantes possam adquirir entradas diferenciadas para acesso monitorado ao interior de alguns ambientes e tenham contato com alguns animais; permitir que os visitantes possam comprar comida para alimentar os animais; dar palestras informativas; organizar espetáculos com a participação de alguns animais; integrar-se com o Aquário que está sendo construído na Zona Portuária (que eu espero que dê certo…); apropriar-se do estacionamento para financiar as atividades do Zoológico…  Acho, porém, que nada vai mudar nos próximos cinquenta anos, pelo menos.

O passo seguinte da visita é almoçar.

São Cristóvão e Benfica, bairros vizinhos da Quinta da Boa Vista, são bairros que dispõem de uma gama bastante rica de bons restaurantes.  Mas almoçar na própria Quinta é um conforto que deveria valer a pena.

Bem que ele tenta, mas o Restaurante da Quinta da Boa Vista (ao que pude constatar, esse é o seu nome mesmo) deixa a desejar.  A comida é boa.  Existe atenção no atendimento.  A proposta de o staff utilizar roupas de época é bastante interessante.  Mas falta o diferencial que torna aquele lugar único um lugar realmente único.  O restaurante é monopolista na Quinta.  Deveria oferecer algo além de um vestuário roto e pratos em nada diferentes daquilo que já se encontra em qualquer restaurante da Cinelândia, por exemplo – principalmente cobrando o preço que cobra, significativamente superior aos dos restaurantes da Cinelândia.

Era o tipo do restaurante que deveria ser conduzido por um cheff famosinho, que se não fosse um protagonista turístico local (como outros restaurantes de São Cristóvão o são), ao menos se prestasse ao papel de um bom coadjuvante; não que fosse mera conveniência, como hoje o é.  Ninguém vai até a Quinta da Boa Vista só para almoçar, mas deveria.

O tempo estava bom.  Estava dando tudo certo.  O passeio era agradável.  Por que não esticar e continuar passeando ali mesmo na Quinta?  Novo destino: Museu Nacional.

Museu NacionalO nome suporia algo nacionalista, relacionado à história do país… Nada disso! Esse papel cabe ao Museu Histórico Nacional, seu primo rico.  O “Nacional” do seu nome se restringe ao fato de ele ser administrado pelo governo federal, através da Universidade Federal do Rio de Janeiro e de ele estar hospedado na antiga residência oficial da Família Imperial brasileira.  De resto…

O prédio até está mais bonito do que em outras visitas que já fiz.  Mas ainda dá para ver que conservação, manutenção, capricho, bom aproveitamento, nada disso é o forte de espaços públicos no Brasil.  Tem goteira, tem obra em andamento, tem espaço interditado, tem acochambramento…

E olha que eu até fiquei bastante surpreso, positivamente, com algumas coisas que vi.  Partes do acervo – apesar de expostas à moda antiga, como um repositório de exemplares a serem vistos, jamais tocados – estão excelentemente bem dispostas, iluminadas e organizadas.  A área das borboletas e insetos é uma delas.  Alguns dinossauros também.

Museu NacionalPelo menos metade do que está exposto no museu, porém, está meio amontoado, entulhado.  A parte de geologia é de chorar na rampa.  Não desperta interesse, está suja, escura, largada…  O tema pode ser árido, mas o material é farto; não deveria ser muito difícil, nem muito caro, estruturar uma baita coleção.  A exposição sensorial está acanhadamente encostada (quase que um improviso) sob uma escadaria – foi a parte que despertou mais interesse na Felícia e no Fergus, por um simples motivo: era para tocar, sentir, mexer, não apenas para ver.

E, em todos esses espaços, o que eu mais senti falta, foi de uma cafeteria, com alguns quitutes, sanduíches, pães de queijo, sucos, refrigerantes e um café expresso.  Um lugar para descansar e comer algo conveniente, apreciar a vista, conversar, ver o movimento e curtir estar ali.  Uma pena não existir.  Faria muito bem à visita.

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One Comment

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  1. Eu tenho para mim que as reformas estruturais do zoológico não vão acontecer enquanto ele não for entregue à iniciativa privada. O problema é que quando isso acontecer o preço do ingresso vai pular para cem reais, e aí ele vai se tornar mais uma atração do Rio inacessível para o carioca.

    Concordo. Já ouvi inclusive relatos de funcionários que furtavam a comida dos animais para levar para casa. Nas mãos da iniciativa privada, isso tende a melhorar.

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