O encanto da missiva

Quando o meu amigo Márcio resolveu juntar seus trapinhos com a Nanda e se mudou para Niterói (pelo que lembro, ela já morava lá), a internet já existia mas não havia sequer a expectativa de telefones celulares se plugarem a ela.  Não tinham sofá nem mesa na sala, nós sentávamos no chão para conversar; mesmo assim, como bons amigos e anfitriões, comunicaram aos amigos a novidade e seu novo endereço, possivelmente na expectativa de receberem visitas e não se sentirem tão abandonados lá tão longe do lugar onde haviam vivido a vida toda.  Prontamente, escrevi uma carta agradecendo o convite e acusando a ciência do novo endereço.  Algum tempo depois, a Nanda me contou, com brilho nos olhos, a alegria de ter sido a primeira carta – possivelmente a última – que eles receberam que não era conta para pagar.

*****

Qual foi a última carta manuscrita que você enviou?  Qual foi a última vez que você se dirigiu a uma agência dos Correios?  Qual foi a última vez que você adquiriu um selo, passou cola no seu verso e o grudou num envelope?  Qual foi a última vez que você assinou o seu nome no fim de uma folha de papel que contava novidades da sua vida, boas ou ruins, direcionadas ao conhecimento de uma única pessoa?  Qual foi a última vez que um sujeito vestido de amarelo levou a alegria da sua presença a alguém que você quer bem?  Qual foi a última vez que você sentiu a expectativa da chegada desse sujeito de amarelo na sua casa com notícias de alguém, e não com uma encomenda que você comprou?

*****

Vocês não imaginam a expectativa que a Felícia tem, todos os dias, quando chega da escola, em conferir a caixa do correio.  Não a caixa de e-mails, mas a bela e palpável caixa branca situada em frente ao elevador.  Aquela que ela não vê porque a altura não permite; não aquela que ela não vê porque é virtual.  Aquela que ela alcança apenas com uma das mãos, esticando o braço e se elevando na ponta dos pés; não aquela que ela não alcança porque não tem a senha a ser digitada no teclado.

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Quando não tem carta, ela fica chateada, reclama; quando tem carta, Felícia vibra, vê quem é o destinatário e entrega com a alegria de quem presenteia uma criança com um doce.  É algo tão genuíno que eu evito ao máximo recolher as cartas sem ela.  Aquilo tem um encanto inexplicável, mas perfeitamente compreensível.  Um encanto que a gente perdeu com o tempo, com a internet, com o e-mail, com o celular.

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3 Comments

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  1. Eu lembro da última carta pessoal que eu escrevi a mão (houve outras depois, mas eram de trabalho e digitadas), foi em maio de 1994, para uma menina por quem eu tinha uma paixonite. Apesar de não haver internet eu poderia ter telefonado, mas quis dar um toque romântico ao negócio. O melhor foi que ela respondeu uma semana depois, marcamos de sair e foi bem divertido. Embora não tenha durado muito mais, ficou na memória.

    Essa carta, que menciono no post, deve ter sido a última que escrevi a mão.

  2. E quando é pra ela?

    Quando a carta foi para ela, eu filmei e te mandei.
    Aliás, se alguém quiser fazer o mesmo, eu filmo e mando.

  3. Recebi um postal de um amigo faz uns meses. Mas também como forma de excêntrica lembrança do passado. Things change.

    Postal… Nem lembro o último que mandei. Mas é uma boa ideia.

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