Garupa

A brincadeira mencionada no post anterior foi motivada pela conversa que eu e Felícia tivemos ontem na volta da escola para casa, onde o assunto das dificuldades da língua portuguesa voltou à cena.  E esse foi o motivo pelo qual eu resolvi escrever aquele post.  Esqueci, porém, de mencionar essa conversa.  Fica aqui o registro.

*****

Momento flashback

Entre a bronca e a conversa de ontem, eu também conversei com a professora dela, procurando orientações sobre como proceder em caso de receber dela perguntas difíceis de responder.  A professora me tranquilizou.  Orientou responder o certo, mas não valorizar muito a dúvida porque, no momento certo, ela iria aprender as dificuldades.  A curiosidade não deveria ser tolhida nem desestimulada.  As respostas deveriam ser certas, porém.

*****

Tudo começou quando eu a entreguei um mimo que o vovô havia enviado – um pacote de biscoitos caseiros recheados com goiabada.  Enquanto ela comia, uma das amigas da escola passou por nós na garupa da bicicleta do pai.

– Papai, olha lá!  É a Paula!

E acenou para a amiga um tchau efusivo.  A amiga não respondeu, embora fosse certo que ela vira o aceno.  Também era certo que a ausência de resposta se devia ao fato de ela estar agarrada na cintura do pai para não cair da bicicleta, não a uma antipatia pontual. Aí ela puxou a conversa.

– Ela não viu a gente, papai…
– Viu sim.  Só que ela não conseguiu dar tchau para você porque ela está segurando o pai dela para não cair da garupa da bicicleta.
– Papai… O que é garupa?
– Garupa, filha… É… Garupa é a carona da bicicleta.
– Como assim?
– Quem vai atrás na bicicleta, vai na garupa. Também tem garupa na moto, no cavalo… Por exemplo: seu irmão vai aqui atrás de você no carrinho, né? Então: ele vai na sua garupa.
– Ah, tá… E quem vai na frente, é o que?
– É… sei lá. Quem vai na frente é quem dirige. Atrás é garupa.
– Que palavra engraçada, garupa! Garupa, garupa, garupa!!! Papai! Garupa começa com que letra?
– Garupa começa com “g”.
– Não!!! É com “h”. Agarupa. Não é “g”.
– Não, filha, é com “g”.
– Igual Gustavo?
– Isso, igual Gustavo.
– Acho que não, papai. O que começa com “g” é “gente”!
– Isso, “gente” começa com “g”.
– “Janta”…
– Não, filha, “janta” começa com “j”.
– E janela?
– Janela é com “j”.
– Hum… Deixa eu ver… Gibão.
– O que?
– Gibão, papai, aquilo que o vaqueiro usa…
– Como é que é?
– Da música: “meia comprida/não quer mais sapato baixo/vestido bem cintado/não quer mais vestir gibão/ela só quer, só pensa em namorar/ela só quer, só pensa em namorar”.
– Ah… Gibão… Gibão eu não sei, acho que é com “g”, mas a gente tem que procurar no dicionário.

Depois dessa eu entrei na padaria, e tratei de mudar o assunto.  Cheguei em casa e fui correndo consultar o pai-dos-burros saber o que raios significa gibão e como se escreve.  Fiquei aliviado.  Era com “g” mesmo.

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2 Comments

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  1. Kkk! Muitas conversas ainda hão de vir. E como é gostoso!

    Explicar garupa e saber o que é gibão foi difícil.

  2. Sempre achei que a letra da música era “não quer mais vestir timão”.

    Eu também achava que era outra coisa, mas é “gibão” sim.

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