Rio 2016 – Atletismo

Se você perguntar para dez pessoas qual é a primeira modalidade esportiva que vem à cabeça quando se fala em Olimpíadas, é quase certo que mais da metade pensará em atletismo.  Talvez seja porque as modalidades atléticas sejam as mais antigas e tradicionais, aquelas que forjaram o verdadeiro espírito esportivo ainda na Grécia Antiga (piscinas e ginásios são coisa muito moderna); talvez por causa da massificação da cultura olímpica ao redor do estádio olímpico, que normalmente comporta as cerimônias de abertura e encerramento dos jogos (o Maracanã foi a primeira e possivelmente será a última exceção).

Por isso eu quis assistir o Atletismo.  Sábado à noite,  no Engenhão.

Eu que conheço o Engenhão de outras eras, desde quando aquilo era ainda a sede das oficinas na Rede Ferroviária Federal e nem se sonhava fazer daquilo um estádio, vejo tudo com outros olhos.  E, para quem não tolera comentários ácidos, melhor nem continuar a ler.

Foi a primeira vez que eu ouvi apenas oito pessoas correrem após ouvir tiros na região.  E todos na mesma direção, o que também é raro.  Normalmente, quando pipocam tiros no Engenho de Dentro, é um salve-se-quem-puder que nem sempre termina bem.  Faz parte do ser Rio de Janeiro.  Ryan Lotche que o diga.

Num primeiro momento critiquei a decisão de não se construírem as arquibancadas definitivas nos setores superiores norte e sul do Engenhão.  A estrutura já estava pronta desde o Pan de 2007, faltando apenas as vigas e os assentos.  Ao invés disso, colocaram estruturas tubulares apoiadas sobre a base de concreto, para posterior desmontagem ao final do jogos.  O estádio ficou bonitão com o fechamento.  Mas, se é para o Botafogo usar, não fazia sentido gastar dinheiro construindo mais lugares…  Melhor mesmo a estrutura temporária.

Fiquei impressionado com a quantidade de britânicos presentes.  Estimo que 60% dos turistas que estavam ali eram britânicos, com suas bandeiras desfraldadas na arquibancada e com nome da cidade de onde vinham escrito no centro (algo bastante tradicional entre eles em eventos esportivos ao redor do planeta).  10% eram jamaicanos e outros 10% argentinos.

Por falar em argentinos…  Cheguei ao Engenhão antes dos portões abrirem e havia duas filas paralelas formadas, com cerca de cem pessoas cada.  Perguntei a um orientador e ele me informou que ambas tinham o mesmo objetivo e iam para o mesmo lugar, ficando ao meu critério escolher qualquer uma delas.  Escolhi uma.  Cinco minutos depois, o mesmo orientador passou na minha fila solicitando a todos que se juntassem à outra fila na posição em que nos encontrávamos.  Quando eu dei três passos para o lado e me juntei a um grupo de argentinos, eles chiaram: “não vai entrar aqui não, vai entrar lá atrás na fila“.  E não adiantou explicar.  As argentinas, principalmente, estavam irredutíveis.  Mandei-as tomar no #$ mentalmente e tentei ignorar os protestos – que não cessaram.  Então peguei o tal orientador pelo braço e avisei: “mermão, explicar essa cagada que você tá fazendo pra elas para não dar confusão“.  Ele explicou.  Elas não quiseram entender.  Então foi um sonoro e olímpico fº%@-$€ para elas, aqui é Brasil e eu não tô furando fila porra nenhuma.  Os jamaicanos, próximos a mim, ficaram impressionados.  Não deu cinco minutos daquilo tudo e os portões foram abertos.  Na entrada, quem não estava com bolsa, ia para uma fila (mais vazia) do que quem estava com bolsa para ser revistada.  Eu não estava com bolsa, elas estavam.  Dei um tchauzinho para elas e entrei na frente no Engenhão.  Algum tempo se passou e eu estava na lojinha comprando souvenires.  Entrei na fila para pagar e eis quem passa por baixo das fitas que organizavam a fila em zigue-zague e entra na minha frente?  Elas!  Acho que iam se fazer de desentendidas, mas quando me viram, ficaram constrangidas.  Com o sorriso mais largo e cínico que eu pude, fiz um longo gesto com as mãos, indicando que, apesar de terem furado a fila descaradamente (ninguém passa por baixo das fitas e acha que tá no lugar certo), elas podiam continuar na minha frente.  Foi a maneira mais legal que eu encontrei de retribuir a agressividade da fila lá de fora.

Atletismo é sinistro: muita coisa acontecendo ao mesmo tempo (quatro provas simultâneas), cada uma com seu nível de emoção.  As corridas chamam mais a atenção que as demais provas, mas nem sempre são tão legais.  O salto em distância, por exemplo, foi sensacional.

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One Comment

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  1. “Foi a primeira vez que eu ouvi apenas oito pessoas correrem após ouvir tiros na região. E todos na mesma direção, o que também é raro.” Mermão, essa frase é antológica! Épica! Merece entrar pros anais (no bom sentido) da carioquice!

    Obrigado.

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