Monossílabo

O aprendizado vem da necessidade, real ou imposta.  O ser humano é movido pela lei do menor esforço (ou da maior eficiência, a perspectiva otimista da história).  Se não houver necessidade, não há esforço, não há aprendizado, não há crescimento.  Quando o bicho pega, porém, todo mundo se vira.

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Ontem a Fiona me inseriu no grupo de WhatsApp dos pais da turma do Fergus.  Ela vinha me poupando, mas ontem eu insisti.  Eu queria conhecer os outros pais, saber os nomes das outras crianças, saber o que se passava na turma.  E, já de cara, tinha uma mãe triste porque de que a filha ficava chorando todos os dias na entrada da escola ao se despedir dela.  Marquei a mensagem e respondi: “criança só aprende quando chora e a mãe não ouve“.

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Na língua do Fergus, as palavras só têm uma vogal ou, quando muito, uma sílaba.  “Mã” pode ser mãe ou irmã, mas a irmã geralmente é “Bu” ou “Mu”.  “Ba” é papai, “ô” é olho, “ê” é orelha, “peeeeen” (onomatopeia de uma campainha) é nariz, “ó” é Filó, “ei” é leite…  Enfim, pega a sílaba tônica da palavra, tira a consoante, e vamos que vamos.  Na dúvida, ele aponta, até ser entendido.  Se nada der certo, ele chora – até alguém ouvir, entender ou oferecer algo mais interessante do que o pedido inicial.  Quando consegue, ele confirma com um “é” – tão enfático que já virou meme na família.

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Mas o safado sabe falar.  Certa vez, há um mês mais ou menos, o Dindo disse que ele perguntou pela “Aiana” (a Mariana).  O Dindo, malandro, percebeu o ato falho e pediu para ele repetir.  Não há registros de que ele tenha pronunciado uma palavra com duas sílabas desde então.

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O mais difícil desse processo é conseguir ter a disciplina de se fazer de desentendido.  Primeiro porque é bem mais fácil e rápido entender o que ele fala (voltemos ao comodismo e à lei do menor esforço).  E, convenhamos, se eu entendo o que a Filomena quer sem pronunciar uma palavra sequer, entender o que o Fergus quer dizer, com gestos e monossílabos, é moleza.  Segundo porque a mais impaciente de todas é a tradutora dele: a Felícia.  Ele nem precisa falar, ela já diz o que ele quer – e, às vezes, ainda é capaz de perguntar ao final: “vocês não entenderam ainda?“.

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2 Comments

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  1. Ele fala “Di” também….

    Verdade.

  2. Assim tá muito fácil. Deixa esse garoto comigo que ele vai recitar Saramago rapidinho!

    Deixo sim. Pode ir lá pegar.

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