Cheirinho…

Uma das coisas mais admiráveis do estudo do comportamento humano é o comportamento de grupo.  Como seres distintos (tão distintos que sequer se misturam) se comportam da mesma forma quando estão em grupo?  Podem ser de diferentes origens, estratos sociais, ideologias políticas, sexo, cor, etc., etc., etc…  Podem não ter absolutamente nada em comum. Podem até mesmo serem inimigos, movidos pelo ódio irracional.  Uma vez em grupo, porém, eles adotam os mesmos comportamentos; uma vez unidos por qualquer elo que os mova na mesma direção, eles farão as mesmas coisas.  E qualquer um que atente contra essa ordem, será imediatamente afastado do grupo.

Essa é uma síntese muito rala do que eu penso sobre teoria de grupos.

Dos grupos que eu mais admiro e gosto de observar (parte pelas particularidades dos movimentos, parte pelo prazer de me realizar em sendo parte dele) está a torcida do Flamengo.  Na Geral ou no Camarote, no estádio ou fora dele, seja rico ou seja pobre, alto ou baixo, homem ou mulher, olímpico ou paralímpico, o flamenguista é um ser de características muito bem individualizadas.

Todo flamenguista é tão pessimista quanto autoconfiante.  Na frente dos antis, ele é autoconfiante a ponto de irritar, amedrontar, horrorizar, fazer tremer o adversário.  Ao invocar suas principais armas de combate (a camisa, o passado, o Maracanã, a torcida, os ídolos), não há como um adversário se manter firme, sem dúvidas da capacidade flamenga de coroar o impossível.  Entre si, o flamenguista tem lá as suas dúvidas, seus traumas.  Já passou por maus bocados, derrotas tão vergonhosas quanto improváveis; gato escaldado, que morre de medo de água fria.

E boa parte da autoconfiança flamenga é manifestada através de galhofas, brincadeiras, vantagens contadas aos borbotões.  A maior delas é a do “deixou chegar…”.  Só porque em algumas oportunidades o Flamengo venceu campeonatos com times claramente inferiores aos seus adversários, especialmente em jogos decisivos, a Magnética se apoderou dessa capacidade para tocar o terror nos adversários.  Esquece-se dos outros tantos campeonatos que perdeu com times superiores ou inferiores aos seus adversários.  E parte do sucesso improvável que o Flamengo tem contra adversários superiores vem do terror psicológico dessa galhofa.

Outra piada sensacional foi “Obina vai voltar“.  A patética profecia.  E não é que funcionava?

Agora é o “cheirinho de hepta” – a versão em pontos corridos do “deixou chegar”.  Nada pode aterrorizar mais os “antis” do que a confiança travestida nesse bordão.  Nada intimida mais um adversário do Flamengo do que a autoconfiança de sua torcida.  Porque se tem algo que o flamenguista sabe fazer e faz bem é vencer; e se tem outra coisa que ele também sabe fazer e faz bem é gozar. Não há nada mais chato do que um flamenguista gozador, principalmente após uma vitória do Flamengo.

O hepta pode não vir.  É difícil que venha.  Os adversários são fortes, ainda falta muito para o fim do campeonato, muita coisa pode acontecer.  Aliás, as melhores chances do Flamengo estão na galhofa de sua torcida.  Qualquer resultado que venha, porém, será irrelevante, perto da notoriedade da piada.  O campeonato já valeu pela graça feita.  O cheirinho do Hepta está no ar.  Os antis que se doam.

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