Paradoxo paralímpico 

Foi muito legal a cerimônia de abertura, com suas alusões à vida paralímpica e à superação de dificuldades que a vida apresenta.  Não houve quem não tenha ficado emocionado com aquelas performances teatrais.  Enquanto, porém, eu via aqueles seres (super)humanos desfilarem sua glória olímpica pelo chão do Maracanã, eu me perguntava: qual o sentido de separar os eventos, para além dos óbvios motivos esportivos?  Por que celebrar, num primeiro evento, mais chique, glamouroso, rico, badalado, a glória da perfeição humana e deixar, para um segundo momento, menos chique, glamouroso, rico e badalado, a celebração da…

Em ambas as cerimônias se falou muito de diversidade, superação de paradigmas, inclusão…  Por que não incluir, superar paradigmas e celebrar a diversidade realizando os eventos simultaneamente.  Por que não podemos, no mesmo dia, no mesmo evento, assistir uma prova de lançamento de dardo paralímpico e de salto em altura olímpico?  Por que não podemos ver, no mesmo dia, na mesma piscina (em provas diferentes, obviamente), Daniel Dias e Michael Phelps?  Por que não podemos, em uma mesma sessão, um jogo do Dream Team paralímpico e do Dream Team olímpico?  Por que não podemos torcer, de manhã, para Rafaela Silva e, de tarde, para Antônio Tenório?  Isso é inclusão?  Isso é uma superação de paradigma?  Isso é uma celebração da diversidade?

Eu via aqueles atletas com seus corpos “imperfeitos” desfilando pelo Maracanã muito mais felizes e realizados que os que eu vira algumas semanas antes.  Havia neles um sentido olímpico (no sentido da pureza esportiva, da superação de limites humanos e da celebração das dificuldades da vida) muito superior àquele que eu vira semanas antes.  Por mais difícil que tenha sido a vida de Simone Biles, por mais incrível que tenham sidos as carreiras de Michael Phelps e Usain Bolt, nada se comparava àqueles anônimos que ali estavam.

Aquela celebração paralímpica, em oposição à celebração olímpica, me pareceu certa por dar ao movimento paralímpico uma atenção que ele não tem.  Tive a impressão também, de ver ali a celebração da perfeição humana, mesmo quando, por mazelas da vida, o corpo humano não é tão perfeito assim – a perfeição humana existente também (e talvez até em maior grau) na imperfeição humana – em oposição à celebração da perfeição humana olímpica.  Mas acho que esse conceito de separação dos eventos poderia ser revisto, dando-se real valor à diversidade, à inclusão e à superação de paradigmas.

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One Comment

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  1. Muito pertinente sua observação. Pensei muito nisso quando vi o campeão dos 1.500 metros da classe T13 (baixa visão) completar a prova com tempo quase dois segundos MENOR que a do campeão olímpico. Seria não só o ouro olímpico, mas também o recorde mundial. Acho que está na hora de uma quebra de paradigma.

    Recorde mundial? Eu acho que não. O recorde mundial é 3:26 e uns quebrados. O cara fez 3:48. A medalha de ouro das Olimpíadas foi 3:50.

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