A bola pune – episódio 7

O episódio de hoje da série “A bola pune” é reprise neste blog.  O texto original está aqui.  É o jogo entre Uruguai x Gana, pelas quartas-de-final da Copa do Mundo de 2010, na África do Sul – mais especificamente, no Soccer City, em Johanesburgo, o maior estádio construído para aquela Copa do Mundo.  Palco melhor não haveria de existir.

Se o mundo já para para assistir uma Copa do Mundo, imagine um jogo eliminatório de quartas-de-final?  Gana, em solo africano, querendo ser a primeira seleção africana a avançar além dessa etapa.  Uruguai querendo voltar às velhas glórias.  Só por isso já seria um embate memorável.  Foi muito mais que isso.

Porque aos 47′ 1T Muntari acertou um chute improvável no canto do goleiro Muslera (que ajudou um pouco ao dar um passo a mais para a direita depois do chute).  Porque aos 10′ 2T Forlán (eleito o melhor jogador daquela Copa do Mundo) foi preciso numa cobrança de falta e empatou o jogo.  Porque o jogo foi para a prorrogação.  Porque, na prorrogação, os times continuaram atacando, em busca da vitória, ao invés de se acomodar numa disputa de pênaltis que os isentaria de culpa por qualquer resultado obtido.  Porque aos 16′ do segundo tempo da prorrogação, Paintsil cobrou a falta para a área e deu início ao lance épico daquele jogo, daquela Copa, daquele esporte chamado futebol.

A bola viajou até ser tocada de cabeça, para trás, por Kevin-Prince Boateng.  O primeiro arremate foi feito por Mensah.  A bola, porém, dividida com Muslera, pererecou uma vez dentro da pequena área.  Antes que pererecasse novamente, foi encontrada pelo pé esquerdo de Appiah, repleto de ansiedade, carente de frieza.  O chute encontrou o pé esquerdo de Suárez (atacante uruguaio que se posicionara em cima da linha do gol, atrás do goleiro Muslera) e subiu, até ser interceptada novamente pela cabeça de Dominic Adiyiah.  Suárez, que assumira o papel de bastião da nação oriental, não teve dúvidas.  Por ele nada passaria, estava convicto.  Defendeu a bola com as mãos e submeteu-se ao rigor da regra.  Fosse uma partida de xadrez, seria uma clássica jogada de sacrifício da dama em nome da única possibilidade restante de um xeque-mate.  Pênalti assinalado, expulsão.  Último lance da partida.

Bola na cal.  De um lado Muslera, do outro, Asamoah Gyan.  Entre eles, a história.  A história de Gana e do futebol africano nos pés de Gyan.  A história uruguaia de bom futebol, luta e conquistas nas mãos de Muslera.  A história do futebol e das Copas do Mundo nas mãos de Suárez.

Mas a bola pune.  Ainda bem que a bola pune.

Asamoah Gyan acertou o travessão, a bola subiu e saiu.  Suárez, no corredor de saída do estádio, assistiu o lance pelo telão e comemorou.  Valera a pena o sacrifício.  O Uruguai venceria o jogo nos pênaltis, seria terceiro colocado e eleito o time sensação daquele torneio.  Até hoje um time africano não conseguiu passar das quartas-de-final de uma Copa do Mundo.  O jogo seria eleito “The Most Memorable Match of 2010” pela Fifa.  Acho que não só de 2010.

Os melhores momentos do jogo estão aqui.  Uma entrevista com Suárez sobre o lance está aqui.

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One Comment

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  1. Esse é um daqueles jogos que justificam uma Copa do Mundo. Ainda teve a cobrança de pênalti do Loco Abreu, a da classificação, com cavadinha. Sensacional.

    Realmente antológico.

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