Primeiramente, o fim

Não era exatamente a primeira atividade do meu roteiro de viagem, mas foi a primeira que eu idealizei.  Depois de fechado o percurso, compradas as passagens e reservados os hotéis (falaremos sobre tudo isso em breve), eu tinha apenas uma coisa fixa na minha mente: eu vou percorrer o Caminho.

Nessa altura do campeonato, a série de vídeos sobre o Caminho de Santiago já estava próxima do fim e eu já tinha perfeita noção da dimensão do Caminho, do percurso e repercussões.  A viagem idealizada, percorrendo todo o Caminho de Santiago de Compostela de carro, não iria vingar.  A escolha por outra viagem já havia sido tomada, mas ainda restava um pequeno espaço para percorrê-lo.

Por isso, no dia seguinte da minha chegada à Europa, acordei às 6h (1h no meu fuso horário de origem), vesti um casaco de moletom, calcei o tênis e desci para a portaria do hotel.  Junto à porta, trancada, havia um simpático funcionário que me obrigou a cinco minutos de prosa em espanhol antes que eu pudesse dizer a ele o que eu efetivamente queria: um táxi.

Depois de pedido o táxi, seguiram-se quase outros dez minutos de uma prosa muito agradável até ele dizer que o táxi já deveria estar à minha espera na porta do hotel.  De fato, estava.  Despedi-me e segui da Praça o Obradoiro (a principal praça de Santiago, em frente à fachada oeste da Catedral) até o Monte do Gozo (o ponto de onde se avista, pela primeira vez, o fim do Caminho.  No caminho até lá, vi cerca de meia dúzia de peregrinas encerrando suas peregrinações – mais nenhuma viva alma.

Aqui cabe uma observação importante: Santiago de Compostela fica na mesma longitude de Portugal (ambos a oeste de Greenwich).  No entanto, desde 1940, a Espanha mantém, em todo o seu território, o fuso horário da Europa Central, e não o fuso horário de Greenwich, como seria o mais natural em virtude de sua posição geográfica. É uma espécie de horário de verão permanente. Com isso, não só o sol nasce tarde em toda a Espanha, como nasce especialmente mais tarde na Galícia do que no restante do território espanhol.  Especificamente neste dia, o sol só nasceu às 8h20 (em Barcelona, por exemplo, na extremidade oposta do país, o sol havia nascido às 7h38), o que significa que eu percorri todo o caminho durante a madrugada local, sem nenhuma perspectiva de claridade no céu.

Voltando ao assunto: talvez porque eu não tenha sabido dizer exatamente onde eu queria que o táxi me levasse, talvez porque eu não tenha identificado exatamente onde eu queria que o táxi me levasse, o motorista me deixou no Albergue Camping Monte do Gozo, na parte mais baixa da área.  Na verdade, eu queria ter ido até a Capela de São Marcos, no ponto mais alto da área (cerca de 1km dali).  Mas a escuridão é inimiga dos forasteiros e eu tive que subir a pé até lá.

Caminho de Santiago de Compostela
O meu Caminho começou nessa fonte

Ali eu visitei o Monumento do Peregrino, subindo o barranco ao lado da estrada à luz da lua porque o caminho de pedra estava em obras.  Aos pés do Monumento, vi toda sorte de itens deixados ali por peregrinos: desde pedras trazidas sabe-se lá de onde até itens religiosos, passando por peças de roupas, mochilas, fotos e várias outras coisas que eu não consegui identificar precisamente por causa da escuridão.

De volta à estrada, próximo a uma fonte de água, eu iniciei a minha peregrinação (veja na imagem do Google Maps abaixo a fonte de água no canto esquerdo, a Capela de São Marcos (branca) no centro e do Caminho a ser percorrido no canto direito).

O corpo já estava quente da subida até ali.  Por isso, alguns metros adiante, no ponto mais elevado daquele percurso, onde havia um descampado de ambos os lados da estrada, eu quase congelei com o vento frio que vinha do norte.  Acelerei o passo para sair daquela situação.  Com o início da descida, o vento cessou e a temperatura ficou aceitável, especialmente para a prática de exercícios físicos.

Uma descida solitária.  Um percurso quase melancólico.  Eu me sentia sozinho ali, naquele lugar totalmente deserto, no qual eu permanecia sozinho entre a Terra e a Lua.  Ali, ao menos, a Lua não iluminava sozinha o Caminho.  Postes de iluminação pública, bastante esparsos, a ajudavam.

Caminho de Santiago de Compostela
Eu, o Caminho e a escuridão

Em determinado ponto, a descida se acentuou tanto que eu tive dúvidas sobre estar no caminho certo.  Bateu uma insegurança.  Errar o Caminho seria quase fatal.  Seria muito difícil, senão impossível, sem o auxílio de instrumentos, naquela escuridão, sem uma pessoa sequer para dar informação, reencontrar o Caminho certo.  Desatei a procurar indicativos do Caminho: conchas-vieira, placas, setas amarelas, qualquer coisa que me indicasse que o meu instinto de seguir reto estava certo.

Duas esquinas e nenhuma indicação precisa.  Não havia outra alternativa que não continuar em frente, torcendo por uma placa.  E ela apareceu, finalmente, com um par de tênis deixado aos seus pés, possivelmente por algum peregrino.

Caminho de Santiago de Compostela
A primeira placa que eu encontrei no Caminho

Firme no propósito e seguro do Caminho – que, dali em diante, foi muito bem sinalizado até a chegada à Catedral de Santiago -, comecei a descer as escadas que me levariam a me unir à N-634 para cruzar o Ponte de San Lázaro, por cima da AP-9 (Autopista del Atlántico), por meio da qual eu chegara de carro à cidade no dia anterior, e da ferrovia.

A travessia da ponte foi um pouco tensa.  Menos pela altura da ponte em relação à Autopista, mais por causa da má condição do calçamento de ripas de madeira transversais ao caminho, que hora estavam quebradas, ora simplesmente faltavam(!).

Caminho de Santiago de Compostela

 

Passados os dois viadutos, porém, o Caminho é só tranquilidade.  Sinalização perfeita, tanto vertical (placas) quanto horizontal (conchas-vieira de bronze fincadas no chão) tornam o Caminho tão perfeito e iluminado quando uma pista de aeroporto à noite.

Caminho de Santiago de Compostela
É só seguir as Conchas

A concha-vieira é facilmente encontrada nas costas da Galícia e se tornou o símbolo do Caminho de Santiago e dos seus peregrinos.

Concha vieira
Concha vieira

Há duas versões lendárias sobre a origem da relação da concha com o Caminho: a primeira diz que depois da morte de Santiago, seus discípulos levaram o corpo de barco da Judeia até a península Ibérica, para ser sepultado. Ao largo da costa ibérica, uma violenta tempestade atingiu a embarcação e o corpo caiu ao mar tendo-se perdido. Contudo, depois de algum tempo, o corpo apareceu milagrosamente na costa sem estragos, coberto por conchas.  Outra versão diz que depois da morte de Santiago o seu corpo foi misteriosamente transportado por um navio sem tripulação para a península Ibérica. Quando o navio se aproximou de terra, realizava-se um casamento na costa. O jovem noivo estava montado num cavalo.  Ao ver o navio se aproximar, o cavalo adentrou o mar carregando o cavaleiro. Através de uma intervenção miraculosa, o cavaleiro e o seu cavalo emergiram da água vivos, cobertos de conchas.

Mas o que mais faz sentido nessa história é acreditar que se trata de uma bela metáfora da união das várias rotas usadas pelos peregrinos até o mesmo destino — o sepulcro de Santiago em Compostela.  Além de uma utilidade prática para os peregrinos, ajudando a beber água nas fontes e servindo como tigela de comida.

Novamente falando do Caminho, também após a Ponte de San Lázaro, se entra na cidade, a última do Caminho.  Nessa altura, a minha caminhada somava aproximadamente 1,5km.  Dali em diante, a caminhada é urbana, em calçadas, atravessando ruas em faixas de segurança, respeitando sinais de trânsito.  A partir dali, também, o peregrino convive com lojas, cafés, prédios, igrejas, praças, hotéis e outros elementos típicos de uma cidade.

Caminho de Santiago de Compostela
Boas vindas ao fim do Caminho

Todos fechados, à exceção de alguns cafés, que já alimentavam principalmente peregrinos.  Pouquíssimas pessoas na rua também, num clima típico de madrugada na cidade, apesar de o relógio estar marcando 7h da manhã – e nenhum sinal de sol no céu.

Durante todo esse percurso, não há aclives significativos.  Só descidas, o que, junto com a temperatura baixa, agradabilíssima, tornava o percurso incrivelmente prazeroso.  Caminhando assim, sem fazer força, tão perto do fim, eu não pude evitar a comparação daquela caminhada com a última volta de uma longa corrida de automóveis, com o Galvão Bueno gritando no meu ouvido “aí vem ele, na ponta dos dedos…”, seguido do Tema da Vitória.  Mesmo sem ter percorrido os mais de 800km do Caminho, era fácil sentir o alívio e a vitória do fim da peregrinação.

Caminho de Santiago de Compostela
Rúa de Entremuros

Entrando na Cidade Antiga de Santiago de Compostela, a paisagem muda completamente.  Ao invés de ruas largas e prédios bem construídos, agora só há ruas de pedestres ou com trânsito bastante restrito, casas baixas de pedra e, no meio deles, o vazio das ruas preenchido apenas por lixeiros fortemente empenhados em lavar a cidade (com água mesmo!) e a deixar em condições para mais um dia.

E assim se vai…  Até o fim, a Catedral de Santiago de Compostela, por onde se entra pela porta da face norte do transepto.  Uma visão emocionante – mesmo para mim, que não carregava mochila, que não estava há 30 ou 40 dias caminhando, que não estava exausto, com saudade de casa, cheio de calos, bolhas, assaduras e outras dores da peregrinação.

No fim, a caminhada teve aproximadamente 4,7km (veja o percurso aqui).  Foi muito leve, praticamente nem valeu como exercício físico (à exceção da subida do início, até o Monumento ao Peregrino).  Recomendadíssima, mas que deve ser ainda mais interessante se for feita ao amanhecer, e não durante a madrugada.

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