Sobre a Catedral de Santiago de Compostela – parte 1

Cheguei a Santiago de Compostela esbaforido. Não exatamente esbaforido porque eu não estava correndo, no sentido literal da palavra. A viagem de carro desde o aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, havia durado pouco mais de 2h30 (velocímetro sempre no máximo da velocidade permitida). Por causa dos atrasos na restituição de bagagens (1h10!) e na liberação do carro pela Europcar (0h50!), eu havia passado de uma certa folga a um certo aperto. Além disso, só ao pousar no Porto eu me toquei, eu perderia uma hora do dia por causa da diferença de fuso horário entre Portugal e Espanha. Somando tudo, eram três horas do meu cronograma perdidas…

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– A missa do peregrino começa às 19h30, não?, eu perguntei à gentil recepcionista que nos atendeu na chegada ao Hostal dos Reis Católicos.

– Sim… Só após responder ela olhou o relógio pendurado na parede e se tocou da importância da velocidade de seus atos para o sucesso da minha viagem. Serei rápida, emendou. Eram 19h25. E ela realmente foi muito rápida.

Consegui largar as malas no quarto, ir rapidamente ao banheiro (a necessidade de um bom banho teria que ser atendida mais tarde) e chegar à Catedral antes da leitura do evangelho da missa, um fato notável, principalmente se levado em conta que a entrada da igreja não se faz pela sua fachada principal, na Praça do Obradoiro assim como o Hostal, por causa das obras de restauração da fachada, mas pelo braço sul do transepto.

*****

Minha visita à Catedral foi feita em três etapas. A missa foi a primeira. Só a missa, mais nada. A premência de um banho (já fazia mais de 24h que eu não tomava banho, ou seja, desde a saída de casa para o aeroporto) era mais forte do que a minha curiosidade. Além disso, o roteiro previa um belo jantar naquele dia (não havia espaço para delongas na Catedral), e a Catedral fecharia logo após o encerramento da missa.

A segunda etapa foi no dia seguinte, na chegada da peregrinação simbólica que fiz. A terceira, com a Fiona, ocorreu após o café da manhã, conforme programado no roteiro (depois de outro banho).

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A Catedral não é lá tão suntuosa como eu esperava. Tem lá suas riquezas, alguma ourivesaria, talhas incríveis, um inestimável valor histórico, mas já vi igrejas mais suntuosas que aquela por esse mundo afora. Ainda assim, algumas coisas me impressionaram bastante.

Não sou daqueles beatos que entra em uma igreja e fica rezando, curtindo o sentimento religioso do templo. Muito pelo contrário. Fazendo turismo, encaro uma igreja como um museu de arte, uma narrativa de um tempo que já passou, um testemunho em concreto de um estilo arquitetônico, de uma civilização, de uma época histórica. Entro e saio de uma igreja limitando-me a fazer uma genuflexão e um sinal da cruz, quando muito. Raríssimas vezes me rendo a um momento religioso, introspectivo, nessas oportunidades. Portanto, esse negócio de sentir aura especial, capturar energias, etc e tal, não é comigo. Não me perguntem sobre isso, não saberei responder. E, mesmo que soubesse, de nada adiantaria dizer, porque isso é tão individual que a minha opinião seria absolutamente inútil para qualquer outro viajante.

Isso tudo não quer dizer, no entanto, que a visita à Catedral de Santiago de Compostela seja dispensável. É justamente o contrário, por ser o que é, o principal monumento da cidade, praticamente a sua própria identidade. Aliás, não só da cidade como da Espanha, tanto que as moedas de 1, 2 e 5 cêntimos de euro cunhadas em território espanhol levam a imagem da Catedral em seus versos.

*****

Cheguei na missa um pouco atrasado, como eu já havia falado. E o meu grande interesse em assistir a missa não era ver os peregrinos mortos, famintos, mal tratados, barbudos, desgastados, sujos, aliviados, contentes e realizados. Também não era o senso religioso que me movia. Tampouco queria ouvir a pregação do padre. Eu queria mesmo era assistir o belíssimo espetáculo – quase circense – do botafumeiro. Arrisco dizer, com certa margem de certeza, que o botafumeiro está para a Catedral de Santiago de Compostela assim como a Monalisa está para o Louvre ou a Estátua da Liberdade está para Nova Iorque.

Há quem, ao ler este texto, não saiba. Por esse motivo, a explicação é indispensável: o botafumeiro é o turíbulo da Catedral de Santiago de Compostela. Um turíbulo é uma urna vazada, geralmente feita ou revestida de metal nobre (ouro ou prata), na qual se insere brasa e incenso para uso como defumador e perfumador em atos religiosos. O objetivo simbólico de tal ato, durante uma missa católica, é adorar, honrar e elevar as preces a Deus. Reza a lenda que, na Catedral de Santiago, sua função principal era (em tempos remotíssimos) de, com seu perfume, combater a fedentina dos peregrinos que a ela chegavam após dias e mais dias de caminhada sem banho.

Durante a missa católica, o incenso é utilizado na entrada do celebrante, antes da leitura do Evangelho e durante a preparação das ofertas. A primeira cena eu já havia perdido, por causa do meu atraso. As outras duas ocorreram sem o uso do botafumeiro.

Eu havia lido no site da Catedral que o uso do botafumeiro durante as missas dos peregrinos (realizadas todos os dias às 12h30 e às 19h30) ocorria mediante a solicitação de algum grupo que chegasse à Catedral após peregrinar. Eu imaginava que teria que contar com a sorte para vê-lo em ação. Estava, portanto, decepcionado naquela altura do campeonato. Pensei até em abandonar a missa antes do seu final, rendendo-me ao cansaço da viagem. Mas Fiona preferiu ficar até o final – justo ela que não curte visitar igrejas. Dei uma volta ali pelo transepto, tentando ver se havia algum tiraboleiro (nome dado aos homens que acionam o botafumeiro) presente. Não vi nenhum.

Ao final da missa, antes da bênção final, o Padre anunciou que, em homenagem aos peregrinos que haviam vindo de tão longe, o principal símbolo da Catedral seria acionado: o botafumeiro. Todos com seus celulares e câmeras nas mãos, tiraboleiros aparecidos não sei de onde, começaram a puxar a imensa corda e impor movimento pendular ao botafumeiro.

Botafumeiro
Botafumeiro

Enquanto aquela enorme peça de 1,6m de altura e 62kg descrevia o imenso arco de cerca de 65m de diâmetro no ar, alternando entre os braços norte e sul do transepto, alcançando quase 70km/h no auge do movimento e parando cerca de 21m acima da minha cabeça, eu imaginava o estrago que aquilo não faria se algo desse errado. Alguém morreria, muito provavelmente. Deu tudo certo, porém. Aliás, como sempre deu.

A missa terminou. O restante da visita ficaria para o dia seguinte, com calma e com o corpo e a mente descansados.

Botafumeiro
Vídeo feito pela Fiona
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One Comment

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  1. Obrigado pela explicação sobre o botafumeiro. Foi muito interessante e esclarecedora.

    Achei necessária. Muita gente vai lá só para ver um pêndulo.

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