Sobre a Catedral de Santiago de Compostela – parte 2

Ainda sobre a missa, acredito que seja costume que padres peregrinos co-celebrem a missa com um padre local.  No caso da missa que eu assisti, havia um padre italiano e um padre eslovaco oficiando a missa juntamente com um padre espanhol.  Ouvir uma missa em espanhol é mole; em italiano não é tão fácil mas dá para o gasto…  Já em eslovaco…  Impossível.  Eslovaco é muito sinistro.

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Assistindo a missa, especialmente a homilia do padre espanhol, fiquei com a nítida sensação de que ele realizava sempre a mesma pregação.  Como a massa dos fiéis presentes é composta por peregrinos que assistem apenas uma missa após o término da peregrinação e depois viajam de volta às suas casas, ele pode repetir sempre a mesma coisa que ninguém vai ligar.  Faz um discursozinho padrão, rápido, alusivo à peregrinação, com elementos tocantes e vai ser feliz para sempre!

No caso, ele começou dizendo que a vida, assim como a peregrinação, era um caminho, que devia ser seguido por todos, e que esse caminho deveria ser orientado para o bem, que Deus acompanhava todos durante o caminho da vida, que Ele era a razão e a motivação para praticarmos o bem e chegarmos, enfim, junto dEle, etc.  Apenas uma menção foi feita, superficialmente, aos trechos das Sagradas Escrituras lidos durante a missa.

Mesmo assim, a homilia foi ótima, e todos ali se emocionaram.  Até eu, que estava pouco interessado nela – e mais interessado no botafumeiro.

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A fachada ocidental da Catedral estava quase toda envolta em andaimes para restauração.

Aqui vai uma explicação esclarecedora: todas as igrejas medievais, ou seja, a ampla maioria das igrejas europeias cuja visita vale a pena, está orientada para o oeste, no sentido do pôr do sol.  Isso tem  um sentido histórico (os primeiros cristãos rezavam apenas voltados para o leste, tanto que havia suspeitas de que eles adorassem o sol, prática que foi normatizada no século IV, com a determinação de que as absides das igrejas fossem construídas a leste, mas que carece de esclarecimentos razoáveis quanto à sua origem), um sentido espiritual (o povo orante se volta o raiar da aurora simbolizando a volta de seu Deus) e um sentido prático (a iluminação entrando pela porta da igreja, nas igrejas românicas, e nos vitrais e rosáceas, nas igrejas medievais, refletia nos livros a serem lidos durante o ofício, ao invés de ofuscarem os olhos do celebrante – é preciso lembrar que só em meados do século XX deixou de ser obrigatória a celebração da a missa ad orientem, ou seja, com o padre de costas para o povo).  Por isso tudo, ficam duas lições: a primeira é que sempre que você estiver perdido na Europa, oriente-se pelas grandes igrejas, quase sempre voltadas na mesma direção oeste; a segunda é que, mesmo que a igreja não esteja voltada para oeste, o termo “fachada ocidental” se aplica à fachada principal da igreja, assim como o termo “extremo oriental” se aplica à abside.

Uma exceção famosíssima (possivelmente a única) à regra da orientação oeste das fachadas principais, é justamente a Basílica de São Pedro, em Roma – a mãe de todas as igrejas – que se justifica por questões topográficas.

Voltando ao assunto, a fachada ocidental – que fica, de fato, voltada para oeste, encarando o pôr-do-sol todos os dias – estava quase toda envolta por andaimes para restauração.  Pela parte que estava descoberta da Torre das Carracas (a mais nova das duas torres da fachada, situada a norte, que recebe esse nome devido à matraca instalada na torre; a matraca é um instrumento “musical” utilizado em celebrações litúrgicas da Semana Santa como símbolo de dor pela morte de Jesus e para evitar o som dos sinos durante essa época de recolhimento), era possível ver que os trabalhos estavam avançados e que, dali por diante, a tendência era de que os andaimes fossem paulatinamente desmontados, conforme o avanço das obras.

Ainda assim, foi possível tirar belas fotos da fachada sob a luz amarelada do ocaso – hora melhor para fotos não há.  Se você vai a Santiago de Compostela, taí um belo motivo para pernoitar na cidade.

Catedral de Santiago de Compostela
A fachada em obras iluminada pelo pôr do sol

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A igreja abre às 7h (quase uma hora e meia antes do sol nascer, na data em que eu estive lá) e fecha às 20h30, após o encerramento da missa do peregrino.  Há ótimos motivos para se acordar bem cedo e visitar a igreja antes de ela ser tomada por hordas de turistas e peregrinos.

O primeiro deles é não ter que lidar com os truculentos e grosseiros seguranças – acho que fruto da impaciência típica do povo espanhol.  Sou obrigado a concordar que o trabalho deles é necessário, porque em um lugar onde há gente de todas as culturas e origens, ávido por cumprir metas e prazos (refiro-me aqui, especificamente, às excursões), a educação nem sempre impera (por mais nobres e virtuosas que sejam tais culturas e origens).

O segundo deles, por óbvio, é evitar concorrer com todo esse povo de diferentes culturas e origens ávido por cumprir metas e prazos.  Isso significa não enfrentar filas, não se acotovelar com estranhos, conseguir ter tempo e espaço tirar fotos e para ver detalhes que na correria de uma visita concorrida não se vê.

Cripta e Túmulo de Santiago Apóstolo
Uma foto como essa do Camarín só é possível quando se visita a igreja muito cedo

O terceiro é o silêncio, quebrado apenas pelo barulho eventual de passos ou da voz do padre de uma celebração que esteja eventualmente ocorrendo em uma das capelas da igreja – o que, para todos os efeitos, dentro de uma igreja, faz parte do silêncio.

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Também por causa dessas obras de restauração da fachada ocidental, a antiga fachada ocidental estava indisponível para os visitantes.

Vale, aqui, nova pausa para explicações.

Houve três igrejas na história da Catedral de Santiago de Compostela.  Uma primitiva, localizada sob a atual, que pode ser visitada juntamente com o museu (haverá um post específico para tratar desse assunto).  Uma intermediária e a atual, que ampliou a intermediária.  Parte dessas obras de ampliação incluiu a construção de uma nova fachada, à frente da fachada anterior.  Não entendeu?  Explico: imagine construir um muro à frente de outro muro.  Você terá dois muros, certo?  O de dentro já não tem mais tanta importância, mas foi preservado por questões artísticas e históricas; o de fora é o que se vê da exterior.  É assim com a Catedral de Santiago de Compostela.  Da fachada oeste intermediária – ainda facilmente identificável atrás do nártex – restou o Pórtico da Glória que, pelo que eu li, é a mais incrível e valiosa obra de arte da igreja.

Pois bem: também ele – que compunha a antiga fachada ocidental da Catedral – estava em obras de restauração.  Essas, ao menos, era possível acompanhar visualmente, por entre os painéis que obstruíam o trânsito de visitantes naquela região da igreja.

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A Catedral é bastante grande: tem 100m de comprimento e os braços do transepto medem 70m de porta a porta; a nave central tem 22m de altura.  Há muito o que ver ali, especialmente nas capelas da girola (aquele passeio semicircular que existe na abside, atrás do altar principal), magníficas.  Há o órgão – que, na verdade, são dois, um de cada lado da nave, interligados eletronicamente desde 1978.  Há o Camarín, onde estão os túmulos de Santiago Apóstolo e de seus discípulos Atanásio e Teodoro.  Há as doze cruzes de consagração, dispostas simetricamente ao longo da nave, e que foram utilizadas na sagração da Catedral em 1211.  Há o próprio Botafumeiro, já mencionado no post anterior.

Catedral de Santiago de Compostela
Vista da Nave da Catedral, repleta de visitantes, com os órgãos de tubos em primeiro plano e o altar-mor ao fundo

Além de tudo isso, há três coisas que um peregrino faz na Catedral – ações que eu carinhosa e jocosamente apelidei de “triatlo”.  Duas dessas ações – talvez seja mais adequado chamar de superstições – estão relacionadas ao Pórtico da Glória.

A primeira tem a ver com uma figura existente na base frontal do mainel do Pórtico.  O mainel é aquela coluna central de grandes pórticos que serve como batente para portas de duas folhas.  Na sua base, há uma figura barbuda recostada (talvez uma imagem de Noé) e dois leões; durante séculos foi costume que os peregrinos que chegassem a Santiago tocassem o pé esquerdo do santo, simbolizando assim o fim do seu caminho.

A segunda diz respeito a uma imagem existente na parte de trás do mainel do Pórtico da Glória: ali há uma figura ajoelhada que se diz ser a imagem do Mestre Mateus (arquiteto que conduziu boa parte das obras de construção da igreja), portando uma cartela na qual estava escrito Architectus.

Reza a lenda que o arcebispo de Santiago de Compostela foi visitar as obras quando estavam próximas de terminar. Quando o Mestre Mateus lhe estava explicando o significado das diferentes figuras do Pórtico da Glória, o arcebispo perguntou-lhe por uma que não fora citada e que se destacava no tímpano central (o lugar mais nobre de um portal).  Mateus reconheceu que essa figura era ele mesmo, porque considerava merecedor de tal glória após a conclusão de uma obra de arte de tamanho sucesso.  O clérigo, porém, recriminou duramente sua falta de humildade. Passado algum tempo, Mestre Mateus convidou o arcebispo para que visse o Pórtico já terminado.  Ao chegar, o arcebispo notou que a figura desaparecera do tímpano e fora substituída por outra, situada na parte traseira, num local escuro, ajoelhada. Assim se queria representar o Mestre Mateus, humilde e arrependido por pretender retratar-se junto a Deus.

O costume relacionado a essa imagem é o de o visitante bater a própria cabeça contra a cabeça da imagem do Mestre Mateus três vezes com o intento de, assim, adquirir parte da sua sabedoria.  O costume hoje se estende também, pelo que li, aos estudantes da Universidade de Compostela.

Por causa das obras de restauração, não pude cumprir nenhum desses dois costumes.

A terceira ação, certamente a mais famosa e disputada, é o “abraço ao santo”.  Isso mesmo: propõe-se que todo visitante da Catedral suba as escadas existentes por trás do altar-mor para dar um abraço na imagem do santo por trás delaFiona deu o abraço, eu tirei foto dela.  Ela dirá que foi apenas um tapa nas costas do santo.  Eu digo que foi um pouco mais que um mero tapa nas costas.

Quando eu estive na igreja de manhã bem cedo, o acesso estava liberado, sem fitas nem seguranças a dizer o que eu tinha que fazer, por onde devia entrar, onde devia sair, etc.  Mais tarde, com a Fiona, tivemos que encarar uma fila que começava do lado de fora da igreja para entrar pela Porta Santa (situada no “extremo oriental” da Catedral) e prosseguir na fila pela girola até a escada que dava acesso à imagem.

A Porta Santa, localizada na Plaza Quintana, voltada para leste, até onde eu sabia, e como ocorre em todas as igrejas onde há uma Porta Santa, era uma passagem reservada a ocasiões especialíssimas, aberta apenas em anos jubilares e outras ocasiões únicas, devido à sua natureza santa.  No caso específico da Catedral de Santiago de Compostela, a Porta Santa era uma das primitivas sete portas menores e foi dedicada a São Paio.  Na verdade, a Porta Santa não é a que se vê do lado de fora, na Plaza Quintana (esta chamada de Porta da Quintana), mas a de dentro, que guarnece a parede românica do deambulatório e que dá efetivo acesso ao interior da Catedral.  A Porta Santa atual data de 2004 e apresenta imagens de Jesus, Santiago e peregrinos na face externa e seis cenas da vida do apóstolo na face interna: como pescador no lago Tiberíades, escoltando Jesus, evangelizando na Galícia, a decapitação, a trasladação do seu corpo e a descoberta do sepulcro.

Demoramos uns quinze minutos na fila, até o abraço do santo.  Depois do abraço, o visitante deve continuar o percurso cercado e passar pelo Camarín, cripta onde se pode ver a urna onde estão depositados os restos mortais do santo.  Só depois disso é possível seguir livremente pelo interior da igreja.

Isso significa que tivemos que sair da igreja para retornar ao seu interior pela Porta Quintana/Porta Santa.  E assim devem proceder todos os visitantes que queiram dar o abraço no santo e visitar o Camarín.  Ou melhor, assim devem proceder todos os visitantes que não visitam a igreja de manhã bem cedo; na minha visita madrugadora, eu fiz tudo isso sem ter que sair da igreja.

Quando terminamos o percurso desse último/único ato do triatlo e saímos da igreja pela lojinha (que também dá para a Plaza Quintana, próximo à Porta Quintana/Porta Santa, a fila estava descomunalmente gigante.  Fiquei com a impressão de que ela pioraria conforme o dia avançasse ou, ao menos, que ela variaria imprevisível e aleatoriamente ao sabor das excursões que ali chegassem.  Mais um bom motivo para visitar a igreja bem cedo.

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Por fim, o fim: a lojinha.  Que lojinha adorável!  Produtos muito variados, preços honestos (embora sensivelmente mais caros que os mesmos produtos oferecidos em outras lojas dos arredores, como as da Rúa de San Francisco ou da Rúa do Franco).

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