O fantástico legado de Fernando e Isabel

Era uma vez…

Bem, a história do Hostal de los Reis Catolicos bem que podia começar assim, como nas histórias infantis e nos contos de fadas, porque é mesmo disso que se trata.

Os Reis Católicos da Espanha
Isabel de Castela e Fernando de Aragão

Fernando e Isabel, os Reis Católicos de Aragão e Castela, respectivamente, eram casados e juntos buscaram expandir as fronteiras dos territórios da Península Ibérica por eles controlados através da guerra aos mouros, que controlavam a porção sul desse território.  A Guerra de Reconquista não foi uma novidade criada por eles, tampouco viu neles o seu fim.  Mas eles deram boa contribuição para o seu avanço.

Uma das estratégias que seus ancestrais, eles e seus descendentes utilizaram para conseguir o sucesso na Reconquista foi o de estimular o povoamento dos territórios conquistados e a serem conquistados por populações católicas.  Foi assim que surgiu a peregrinação a Santiago de Compostela, que criou um afluxo de cristãos no sentido leste-oeste na Península Ibérica.  Para dar suporte aos peregrinos, estimulou-se que diversas ordens religiosas se estabelecessem ao longo do Caminho para dar suporte aos peregrinos (comida, pouso e outros cuidados).  Inúmeros monastérios e igrejas foram construídos nessa época, nessa região.

Santiago Matamoros
Santiago Matamoros

Em determinada etapa dessa Guerra de Reconquista, mais especificamente em 1492, Granada caiu definitivamente nas mãos de Isabel e Fernando (foi, aliás, essa conquista, que levou o Papa Alexandre VI a lhes conferir o apelido “Reis Católicos”, em 1493, por meio da Bula Inter caetera).  Então, Isabel e Fernando peregrinaram, eles próprios, a Santiago de Compostela para agradecer ao santo – invocado pelos soldados como protetor de suas missões, sob a personificação de Santiago Matamoros e, mais tarde, padroeiro da Espanha – o sucesso na Guerra.

Chegando a Santiago, viram o estado calamitoso em que muitos peregrinos chegavam à cidade: sujos, debilitados, doentes, fatigados…  E resolveram utilizar parte dos ganhos obtidos com a pilhagem de Granada para construir um Hospital para dar abrigo e cuidar dos peregrinos.  Outra parte dos recursos necessários para a construção do novo Hospital vieram da instituição de um Real Patronato e de indulgências oferecidas pela Santa Sé a quem participasse das obras.

Em cor o prédio original e, em preto e branco, o acréscimo do século XVIII
Em cor o prédio original e, em preto e branco, o acréscimo do século XVIII

As obras tiveram início em 1501 e concluídas em 1519, seguindo o projeto de Enrique Egas, que desenhou um edifício em forma de 8, com dois claustros, um de cada lado do 8, um destinado aos homens e outro às mulheres.  A zona traseira dispunha de uma horta, destinada ao cultivo de plantas medicinais, enquanto na interseção dos braço do 8 se encontrava a capela.  Essa concepção original foi modificada no século XVIII, com o acréscimo de outros dois claustros, transformando o 8 em uma cruz grega – forma atual da planta do Hospital.

Durante sua história, o prédio foi utilizado para abrigo de peregrinos, tratamento de peregrinos doentes, hospedaria geral e hospital militar (principalmente nas épocas de guerra interna da Península Ibérica).  Com a Desamortização, ocorrida no século XIX, que expulsou todas as ordens religiosas da Espanha e expropriou os bens da Igreja em favor do Estado, o Hospital perdeu suas rendas e caiu em declínio, até fechar definitivamente em 1953.  Pouco depois, atendendo a uma das medidas do governo espanhol de Franco de estimular o turismo na Espanha, foi transformado em Parador de Turismo – uma rede de hotéis de luxo espalhadas por todo o território espanhol – função que mantém até hoje.

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Precisamos também falar de bed bugs.

São tão pequenos que se tornam quase imperceptíveis a olho nu
São tão pequenos que se tornam quase imperceptíveis a olho nu

Eu não saberia nada sobre bed bugs não fosse uma pessoa que trabalhou com a Fiona e que já fez o Caminho de Santiago duas vezes tocar no assunto fortuitamente.  O alerta dessa pessoa era muito pertinente, tanto pelo seu ofício (médico) quanto pela gravidade do problema.

Pelo que entendi, bed bug é uma praga muito comum no Caminho de Santiago (e em outros locais de elevada rotatividade turística mundo afora).  É uma espécie de parasita que se alimenta do sangue humano, causando coceira, úlceras, perturbações psicológicas, além de serem vetores de transmissão de outras doenças.

O que um bed bug pode causar
O que um bed bug pode causar

O tal parasita, como o próprio nome sugere, se aloja em camas, colchões, toalhas, travesseiros e lençóis, esperando para fazer de vítima o próximo peregrino que os utilizar.  Por esse motivo, uma das grandes preocupações do peregrino deve ser a escolha de boas acomodações, capazes de garantir uma ótima higienização dos aposentos a cada uso.  Geralmente, isso não ocorre nos pousos gratuitos dos peregrinos, mas nas acomodações mais luxuosas e caras.

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Em suma, hospedar-se no Hostal dos Reis Catolicos de Santiago é a melhor chance de aliar a fantástica experiência de se hospedar em um prédio histórico (ele tem quase a idade do Brasil!) às melhores chances de não ser contaminado por bed bug, passando pela garantia de estar em um hotel de luxo de padrão internacional.

O hotel, em si, é uma atração turística, um verdadeiro museu.  Eu fiz questão de me perder em seus corredores cada vez que chegava ou saía, só para conhecer um pouco mais das instalações.  Certa vez me deparei com a Capela Real – convertida em sala de convenções e preparada para receber um congresso no dia seguinte: que coisa estupenda!  Passear pelos claustros, andar pelos corredores, ver a sala do trono (que estava entulhada de aparelhos audiovisuais, como se estivesse sendo preparada para uma reunião)…  Tudo nele é tão incrível quanto num palácio de verdade.

Hostal dos Reis Católicos
Claustro de São Marcos

O meu quarto não era lá tão amplo, mas era suficiente para duas pessoas.  Começava impressionando pela distância labiríntica a ser percorrida da recepção até ele; não fosse um conciérge me acompanhar na chegada, eu jamais acharia o quarto.  Ele ficava no terceiro andar da ala norte, exatamente no ponto onde o prédio original se encontra com o acréscimo do século XVIII.  No percurso, por corredores internos e outros voltados para os claustros, o tapete ajudava a amenizar o impacto dos pés na madeira de época do piso (dava até pena de pisar; se eu pudesse, iria levitando até o quarto) enquanto móveis antiquíssimos e inúmeras obras de arte, daquelas que só se vê em museus, ornavam as paredes (deviam ser réplicas, mesmo assim impressionavam).

Parador dos Reis Católicos
O meu quarto

A intimidação continuou quando eu vi a porta de entrada do quarto.  Madeira maciça de uns dez centímetros de espessura e uns duzentos anos de idade, pelo menos.  O restante dos móveis no interior do quarto não ficava muito atrás disso não.  Nada ali parecia ter menos de uma centena de anos.  A janela devia ter também a idade da porta de entrada – esta, porém, atenuada por uma outra janela, novíssima, de alumínio e vidro duplo (com função de isolamento térmico e acústico), na parte de dentro do espesso parapeito.

Hostal dos Reis Católicos
A chave do meu quarto

O banheiro parecia de cinema, ou de revista de decoração.  Lindo.  Ponto negativo apenas para o péssimo hábito europeu de usar banheiras ao invés de boxes.  O resultado disso era um elevadíssimo potencial de acidentes (escorregar ali seria tarefa fácil) e a água fugindo para se espalhar pelo chão do banheiro durante o banho.  No caso de uma pessoa idosa, o banho pode não ser uma tarefa lá tão fácil.

No dia seguinte, após a peregrinação, o café da manhã foi também excepcional.  Ele foi servido no Comedor de Peregrinos (que não é um bicho papão, ao contrário do que o nome possa sugerir), um imenso salão situado no segundo andar com vista para a Praça do Obradoiro (e, consequentemente, para a Catedral de Santiago de Compostela).  Tudo delicioso – com destaque, na minha opinião, para a fritada de ovos com espinafre e para um dos melões mais doces que eu já comi.

Hostal dos Reis Católicos
Vista do café da manhã

No fim, fiquei com a sensação de não ter visto todo o hotel.  Pelo que entendi, ele tem dois restaurantes (que eu não conheci): um dedicado aos peregrinos, que serve apenas o menu peregrino (uma entrada, um prato principal, uma sobremesa e uma bebida a preço único e acessível, tal como ocorre ao longo de todo o Caminho de Santiago), e outro mais luxuoso.  O estacionamento, pelo que fui informado na recepção, é pequeno e estava lotado.  Se você vai de carro, melhor nem contar com ele e parar o carro no Xoán XXIII.  É possível transitar com o carro até o hotel pela Rúa de San Francisco (para carregar, descarregar, embarcar ou desembarcar), mas você tem informar a placa do carro na recepção do hotel, para que eles informem à municipalidade ao fim do dia e, assim, evitar a multa pelo ingresso na Zona de Tráfego Limitado.

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