Porto e Gaia, Gaia e Porto

Goiabada e queijo, pastel e caldo de cana, arroz e feijão…  Assim são Gaia e Porto.  Muito mais unidas que Rio de Janeiro e Niterói, muito menos separáveis que gêmeos siameses.  Gaia e Porto parecem se complementar.  Não fosse o Douro a separá-las, é provável que um turista jamais soubesse onde uma termina e a outra começa.

Gaia, que na verdade não é só Gaia, é Vila Nova de Gaia, é quatro vezes maior, em extensão territorial, do que o próprio Porto.  O Porto, que é só Porto mesmo, é quase cinco vezes mais populosa do que Gaia.  Hoje o Porto é a segunda cidade mais importante do país, Gaia tem um papel mais modesto.  No entanto, nem sempre foi assim.  Há registros de que, durante a ocupação romana, apenas a margem sul do Douro (ou seja, Gaia) era habitada.  O próprio nome “Gaia” deriva, ao que consta, do latim “Gale” ou “Cale” que, por sua vez, teria origem no termo celta “Gall” – assim como a Galícia, região da Espanha que fica justamente ao norte de Portugal.  Aliás, Gaia nem sempre foi Vila Nova de Gaia.  Vila Nova de Gaia é o resultado da união de Vila Nova com Gaia, no século XIX.

O bacana dessa união é saber que “Portugal” vem da união de “Porto” com aquele nome latino “Gale” ou “Cale”.  O que inicialmente começou como “Villa de Portucale”, evoluiu para o Condado Portucalense e depois se transformou, simplesmente, no Reino de Portugal.

Hoje Gaia e Porto estão separadas.  Nem sempre foi assim.  Tal qual um namoro de novela, essa história é cheia de idas e vindas.  Durante boa parte da época da dominação moura da Península Ibérica, o Douro foi a fronteira entre o sul islâmico e o norte cristão.  Estiveram, portanto, separadas.  Com a Reconquista cristã, uniram-se novamente.  Em 1834, separam-se.  Cada uma passou a ser independente.

Nessa altura, já existia uma ligação a pé enxuto entre as duas margens opostas do Douro: uma ponte rudimentar, sobre barcas alinhadas e amarradas lado a lado, que foi montada pela primeira vez para atender uma necessidade militar (era necessário transportar um exército rapidamente para o norte para acudir a cidade de Guimarães, que estava cercada pelo exército de Castela).  É provável que essa primeira ponte tenha sido desmontada logo após a passagem do exército e que a população tenha adquirido o know-how da sua montagem, remontando-a posteriormente em outras ocasiões e desmontando-a em períodos de cheias ou para atender a necessidade de passagem de grandes embarcações.

Famosa tela da Tragédia da Ponte
Famosa tela da Tragédia da Ponte

A mais célebre dessas pontes foi construída em 1806, usando 20 barcas, interligadas por estrados que permitiam a passagem de uma margem à outra.  Ela operou, com períodos de desmontagem e remontagem, até 29 de março de 1809, dia do Desastre da Ponte das Barcas.

Nesse dia, durante a segunda Invasão Francesa, o marechal francês Soult entrou de forma inesperada na cidade do Porto.  A população assustada tentou cruzar o rio para a outra margem com o objetivo de criar alguma distância em relação aos invasores.  A Ponte cedeu causando cerca de quatro mil vítimas fatais.

A Ponte foi reconstruída, destruída novamente, reconstruída mais uma vez, mas já começava a se revelar insuficiente para atender às necessidades da população das duas cidades.  Por isso, nove anos após a última separação de Gaia e Porto, elas voltaram a ser unidas por uma ponte definitiva, a Ponte Pênsil.  Essa ponte não mais existe, mas seus pilares de sustentação, do lado do Porto, ainda podem ser vistos, assim como os portais que se prestavam a controlar o acesso e cobrar pedágio.

Pilares de sustentação da Ponte Pênsil, ao lado da Ponte Luís I
Pilares de sustentação da Ponte Pênsil, ao lado da Ponte Luís I

Pouco mais de vinte anos depois, a cidade lançou concurso para a construção de uma ponte ferroviária.  Venceu o concurso o projeto de um desconhecido engenheiro francês, chamado Gustave Eiffel – seu projetos mais famosos, como o Viaduc de Garabit, a Estátua da Liberdade e a Torre Eiffel só seriam construídos na década seguinte.  Seria a Ponte Maria Pia, que ficou em operação até 1991, quando a Ponte São João entrou em operação.

Por causa da desconfiança geral quanto à resistência da Ponte Pênsil, a cidade do Porto resolveu construir outra ponte.  Para tanto, realizou novo concurso para o qual acudiram 10 empresas, oferecendo 12 projetos.  Acabou vencendo um dos dois projetos apresentados pela empresa belga Société de Willebroeck, assinado por Teófilo Seyrig, um ex-sócio de Eiffel que também trabalhara na construção da Ponte Maria Pia.  Os registros apontam que a escolha foi puramente técnica, uma vez que se tratava de um dos projetos mais caros apresentados.  Sua construção foi concluída em 1886 – e nada podia ser mais adequado para novamente unir as duas cidades.  Levou o nome do rei Dom Luís I, marido da Rainha Maria Pia, formando par com ela por toda a eternidade.  Hoje é o principal cartão postal da cidade.

Vista noturna da Ponte Luís I
Vista noturna da Ponte Luís I

Outras pontes foram construídas depois, num total de seis existentes até hoje – e alguns projetos de novas pontes.  É possível ver todas elas em um passeio de barco pelo Douro que dura aproximadamente 50 minutos e é fácil de embarcar, ou em um belíssimo passeio a pé por qualquer das margens (a margem do Porto, mais plana e melhor urbanizada, parece ser mais adequada para o passeio que a margem de Gaia, mais acidentada), num percurso de pouco mais de 5km.

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One Comment

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  1. deixo este registo. pode ser que goste.
    Rui Veloso canta “Porto Sentido”. https://www.youtube.com/watch?v=cJNhFsz9aGQ
    bom fim de semana, Leandro.

    Belíssimo registro!
    Muito obrigado.

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