Meninos…

Fergus é um menino de hábitos muito regulares, como todos os meninos.  Muito do que eu sou – e do que a grande maioria dos homens que eu conheço são – eu vejo nele.  Ele é prático, objetivo, sem frescuras e simples.  A vida com previsibilidade é a sua maior alegria.

Quando ele acorda, de madrugada, ele só quer uma mamadeira de leite e a sua cama de volta.  Nada mais.  Não experimente colocá-lo na cama dos pais, não experimente dar suco, não experimente tentar niná-lo.  Nada disso funcionará.  Se ele chama “papai”, ele quer o “papai”; se chama “mamãe”, ele quer a “mamãe”; mas se ele chama “mamãe” e chega o “papai”, também não tem muito problema não.

Quando ele acorda, ele não faz um escarcéu para escolher o uniforme da escola; não há dias ruins e dias bons – todos são iguais.  Ele sempre acorda com o mesmo humor e espera de todos o mesmo comportamento: uma mamadeira de leite, qualquer uniforme (pouco importa se é calça comprida ou short, blusa com ou sem mangas, casaco ou não).  Quando muito, ele escolhe o tênis – e, sinceramente, ele só tem três pares de tênis porque é a mãe que compra; quando ele se presta a fazer uma escolha é sempre pelo mesmo par.  Ele sempre faz cocô em casa antes de sair para a escola.  E, se estamos atrasados e ele não tem tempo para brincar nem para assistir televisão antes de sair, tudo bem.  Ele sai na boa.  Sempre carregando um brinquedo em cada mão para se divertir no caminho até a escola.

Sexta-feira é dia de novidade: ele pode levar um brinquedo para a escola.  Ele nem se preocupa em escolher.  Qualquer um, para ele, está bom.  E, se esquecer, está bom também!  Os amigos levam e ele se diverte do mesmo jeito.

É impossível eu tomar meu café da manhã – um sanduíche com suco de laranjas espremidas na hora – sem ele.  Quando ele percebe, seja porque me viu pegar o espremedor, seja porque ouviu o espremedor ser ligado, que eu vou tomar café da manhã, ele sai correndo de onde estiver, pega o pufe na sala e vai empurrando até a cozinha; sobe e me ajuda a espremer as laranjas, comer o sanduíche e beber o suco.  Se eu ainda tomar um café ou comer uma fruta o um iogurte, ele acompanha.  Não arreda pé dali enquanto não acaba tudo.

Comida também é tranquilo.  Ele come qualquer coisa que colocar no prato; sozinho.  Rejeita ajuda.  Não importa se é muito ou pouco, quente ou frio: ele come.  Pouco importa o prato, o talher, a mesa.  E, se alguém finge que vai comer a comida dele (numa tentativa vã de estimulá-lo a comer), ele ignora solenemente: oferece a comida à pessoa e dá, já que ela está querendo.  Só comigo que ele faz uma brincadeira, finge que vai dar e come.  Se puder comer com a televisão ligada, então, aí que é dá para esquecer dele até o prato ficar completamente vazio.

Música, ele só gosta de uma.  Na televisão, ele só quer ver o clipe dessa música, mas não qualquer um: sempre o mesmo.  O clipe do “Seu Lobato” da Turma do Seu Lobato.  A coisa mais comum que você vai ouvi-lo falar é “Ia-ia-ô”.  Mais até do que “papai” e “mamãe”.  Aliás, talvez seja a única coisa que ele fale com perfeição além de “papai” e “mamãe”.  Ele larga qualquer coisa para assistir, repetidas vezes, sempre a mesma coisa.  Ele gosta daquilo, para que inventar algo diferente?  Não faz nenhum sentido ver outra coisa que não seja aquilo, já que ele gosta daquilo.

*****

O aniversário dele de dois anos passou – o tema, lógico, foi a fazenda do “Ia-ia-ô” – e não demos nada de presente.  Fiona já estava quase tendo um troço, sentindo-se a mãe mais desnaturada do universo.  Ele, prático e tranquilo, não estava nem aí para isso.

Mas o que dar para uma criança com hábitos tão regulares?  O presente podia ser espetacular, mas não colaria se ele simplesmente não gostasse dele.

Não foi exatamente essa fazenda que ele ganhou, mas era bem parecida
Não foi exatamente essa fazenda que ele ganhou, mas era bem parecida

Ontem, no mercado, vimos uma fazendinha de brinquedo.  Um celeiro vermelho com telhado branco, um trator azul, um fazendeiro, uma vaquinha, um porquinho, um pato e um cavalo, duas braçadas de feno e mais algumas coisas típicas de uma fazenda norte-americana estereotipada – tal qual em todos os estímulos visuais que ele vinha tendo com os clipes de suas músicas favoritas.

Poucas vezes, na minha vida, eu vi uma criança tão feliz e realizada simplesmente ao ver um brinquedo.

Ele passou o domingo inteirinho brincando com aquilo.  Não quis saber de outra coisa.  Brincava e cantava.  Levou o brinquedo para o banho, para o carro, dormiu com ele.  Certeza que nem para o Natal acharei algo tão sensacional.  Vai levar um bom tempo até passar a onda do “Ia-ia-ô”.

Meninos…

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One Comment

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  1. Faço votos que ele continue assim quando crescer, porque o cenário com o menino de cá é totalmente diferente…

    Tá temperamental? Ih…

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