Sobre vinhos do porto

Todo mundo teve um professor doido na faculdade.  Eu tive vários.  Aliás, a minha faculdade foi…  Digamos que se eu soltasse um leitão na sala dos calouros e ele desse a sorte de fugir para a sala dos formandos, ele conseguiria um canudo igual ao que eu consegui ao final de cinco anos.

Um dos mais insanos professores que tive foi o Shazam.  Bem, Shazam não era o nome dele, é apenas um nome que eu inventei para omitir sua real identidade, mas entendedores entenderão e isso é o que basta para este momento.

Shazam manjava muito do riscado.  Era fera mesmo, mas isso o tornava um dos seres mais insuportáveis da face da terra – a arrogância é típica no meio acadêmico, mas igualmente letal.  Acabou gerando antipatia recíproca.  Exigia da turma muito mais do que ele havia oferecido sem combinação prévia.  A turma também esperava muito mais dele, e ele não estava afim de dar – ou, simplesmente, fazia questão de não dar para manter a fama de mau.

Além do riscado, ele também era metido a entender de coisas boas da vida.  Falava de lanchas, política e vinhos com igual facilidade.  Acho que mais para se gabar do que para qualquer outra finalidade.  Num desses papos, lembro disso até hoje, ele falou que havia comprado uma caixa de vinho do porto da safra de 1994, mencionando que ela fora espetacular.  E agora vivia sofrendo porque não podia bebê-la, só olhar para as garrafas, guardadas na horizontal – teria que esperar dez ou vinte anos para enfim abri-las.

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O tempo passou e eu também me meti a entender de vinhos.  Não sou um enochato (ao menos tento não ser), mas já superei aquela época da faculdade, quando eu acreditava que a única diferença entre os vinhos era entre o doce e o rascante.  O interesse pelo assunto surgiu no dia em que eu provei um vinho que meu tio servira num evento na casa dele: um vinho espanhol trazido por ele de Barcelona, onde ele morara por algum tempo enquanto fazia seu doutorado.  Aquilo, sim, era um vinho!  O que fazia dele tão bom?  Era a pergunta que eu queria responder.  Comecei a estudar por conta própria, ler livros, experimentar e não parei mais.  Não pratico tanto a arte porque vinho é um negócio caro, aqui no Brasil.  Ao menos os bons vinhos, como aquele, são.  Fora daqui é outra história.

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Nas minhas pesquisas para a viagem constavam as coisas boas da vida.  Dicas de restaurantes, vinhos, cervejas, doces…  Vinhos e doces em especial.  Afinal de contas, era uma viagem a Portugal, terra onde vinhos e doces existem aos borbotões, com qualidade incrível a preços bem mais interessantes que os praticados do lado de cá do Atlântico.

E, por óbvio, visita às Caves de Vinho do Porto, em Vila Nova de Gaia.  Quais?  Quantas?  Isso eu sinceramente deixei para decidir na hora.  Era a margem de aleatoriedade da viagem a que eu me permiti.  Li bastante sobre as visitas e cheguei à conclusão que todas elas eram muito semelhantes: seria enfadonho visitar muitas; seria perda de tempo tentar eleger uma “melhor”.

Mapa das Caves de Vinho do Porto em Vila Nova de Gaia
Mapa das Caves de Vinho do Porto em Vila Nova de Gaia

Atravessamos, então, a Ponte Luís I a pé e resolvemos entrar na Ramos Pinto.  Reservamos a visita guiada das 17h, em espanhol.  Eram pouco menos de 15h e eu sugeri visitar a longínqua Croft.  Bem, não é tão longínqua, mas o fato de não estar às margens do Douro a faz ser bem menos procurada que as que estão.  Imaginei que, mais longe, conseguiria algo mais interessante.

– Estamos lotados.  Só teremos uma visita às 16h, em francês.
– Je peux parler un peu de Français, madame. E  je comprends aussi.

Mas ela apresentou mais uma série de dificuldades; achei que não valia a pena insistir.  Meu horário era um pouco apertado e eu não tinha a menor pretensão de abraçar o mundo com as mãos.  Como prêmio de consolação, e com um ar de favor, ela me ofereceu uma sessão exclusiva de degustação, idêntica àquela feita aos que participam da visita guiada.  Eu tinha a perfeita sensação de que ela estava fazendo pouco caso de mim como cliente.

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As visitas são feitas sempre com hora marcada.  O visitante deve se dirigir a cada Cave e marcar a sua visita para aquele dia, pagando em avanço.  As visitas são sempre pagas, duram cerca de 1h e terminam sempre com degustação.  O preço varia, geralmente, de acordo com a qualidade da degustação.  E imagino que o conteúdo da visita varie muito pouco de uma para a outra, já que o método de produção do vinho do porto é padrão.

Imagino que o ideal seja fazer uma visita completa em uma cave e apenas degustar em mais duas ou três.  Esse ideal, portanto, é partir para Vila Nova de Gaia de manhã, fazer logo uma visita e depois apenas passear pelas outras caves degustando o que der na cabeça.  A cada viagem ao Porto, uma visita em uma cave diferente.  Habitantes locais que já fizeram inúmeras visitas a quase todas as caves recomendaram a visita à Sandeman – mais pela produção da visita do que pelo conteúdo em si.  No fim do papo, no entanto, senti que havia um pouco de paixão pela marca, tanto quanto razão na recomendação, de modo que não sei se posso endossá-la integralmente.

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Ruby, 10 anos e rosé, nesta ordem
Vinhos da sessão de degustação da Croft

Realizada a sessão de degustação (o rosé se revelou uma ideia muito ruim, unindo o que havia de pior no tinto e no branco), fui dar uma olhada na lojinha.  E eis que me deparei com uma incrível promoção: um vinho do porto, safra de 1994 – aquela tal safra a que o Shazam havia se referido, 19 anos antes – por míseros €2,50 euros a menos que o preço de face (sem dúvida, uma promoção imperdível!).  Peça única sobre a prateleira, acondicionado em uma caixa de madeira e acolchoada sobre palha.  Parecia um Menino Jesus no presépio.  À memória da lição do Shazam se uniram as lições que eu já havia aprendido sobre vinho do porto: a safra de 1994.

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A visita à Ramos Pinto, feita depois, foi muito interessante.  Uma moça, estudante de letras da Universidade do Porto, guiou-nos em um espanhol perfeitíssimo (ao menos, para mim) e explicou cada detalhe da história da Cave e da fabricação de vinhos do porto.  Tão didática e clara que eu não tenho como deixar de recomendar a visita – o oposto das aulas do Shazam, seja sobre vinhos, seja sobre o riscado.

Barris pequenos de vinho do porto na Ramos Pinto, envelhecendo futuros Tawnys
Barris pequenos de vinho do porto na Ramos Pinto, envelhecendo futuros Tawnys

Ali ela explicou que os vinhos Ruby são os mais simples, menos complexos, porque são envelhecidos em barris de carvalho muito grandes.  Têm pouco contato, portanto, com a superfície de madeira e, por isso, pouco apreendem de sua cor e de seu gosto.  Por isso, são muito vermelhos (daí o nome ruby) e acompanham bem sobremesas bastante doces (que acabam ofuscando o paladar do vinho).  Explicou também que os Tawnys são vinhos mais complexos, porque são envelhecidos em barris de carvalho de tamanho menor.  Por isso têm maior contato com a superfície do barril; por consequência, têm gosto mais apurado e cor mais clara.  Explicou ainda que existem os 10, 20, 30 e 40 anos, resultado de uma mistura de Tawnys de diversas idades que produzem um resultado menos aritmético e mais sensorial de um vinho envelhecido por 10, 20, 30 ou 40 anos.  Explicou, depois, que os Reserva (Ruby ou Tawny) são feitos a partir de uvas de elevada qualidade, envelhecidos por sete anos e posteriormente engarrafados.  Explicou que os LBV (do inglês, Late Bottled Vintage) são produzidos a partir de uma só colheita excepcionalmente boa – por isso levam no rótulo o ano de sua fabricação, sendo também envelhecidos em barris menores e posteriormente engarrafados – e que a qualidade da safra apta à produção de um LBV cabe a cada produtor.

E explicou, por fim, que os Vintage são os vinhos produzidos a partir de colheitas incrivelmente sensacionais, que contaram com condições favoráveis (geralmente climáticas) durante todo o processo de nascimento, crescimento e colheita das uvas – assim declaradas pelo Instituto do Vinho do Porto, não por cada produtor.  São, por assim dizer, o “ó do borogodó”.  Houve 37 safras declaradas “vintage” nos últimos 100 anos, sendo a última delas a de 2011 (que também produziu excepcionais DOC Douro – procure por eles, mas espere preços salgados).

Em tom de brincadeira, cochichei no ouvido da Fiona:

– LBV é quando uma única cave está precisando de dinheiro: ela declara que o vinho do ano tal feito na Quinta tal é LBV e cobra mais caro por ele do que pelos demais.  Vintage é quando geral tá na pior e combina de colocar um preço mais alto no vinho para encher os cofres.

Parece-me, no entanto, que a brincadeira pode ter um fundo de verdade.  Curiosamente, sempre ao fim de um período de perrengue, houve uma declaração de “vintage”.  Foi assim ao fim da Primeira e da Segunda Guerra Mundiais (safras de 1917 e 1945) e ao fim da Revolução dos Cravos (safra de 1975).

Há, porém, “ós do borogodós” e “ós do borogodós”.  Há aqueles que são simplesmente “vintage” e há os que são fodasticamente (perdão pelo termo, mas há coisas que só um palavrão é capaz de definir) “vintage”.  A tal safra de 1994, por exemplo, não era uma vintage qualquer: ela havia sido a segunda melhor do século XX, atrás apenas da safra de 1947, segundo especialistas.

O próprio Instituto do Vinho do Porto, em sua descrição das safras declaradas “vintage”, não poupa elogios a ela:

Um Vintage “monumental”, ainda mais intenso que o de 1992, com concentração de taninos e fruto.  Segundo escreveu James Suckling, na revista americana Wine Spectator que, em 1997, atribuiu a classificação máxima (100 pontos) aos Vintage da Taylor e da Fonseca, e o primeiro lugar entre os cem melhores vinhos do ano, “Grandes Vintage Ports como os deste ano acontecem poucas vezes numa vida inteira”.  Declaração geral.  Tempo excelente, vindimas em condições ideais, com uvas perfeitas.

*****

Procurei pela moça.  Ela não estava no salão.  Resolvi esperar.  Como ela não aparecesse e o horário avançasse em direção às 17h, horário do início da minha visita na Ramos Pinto, dirigi-me à outra funcionária que estava ao alcance do olhar.  Loira, simpática, bem mais agradável que a primeira.  Fui direto ao assunto:

– Eu quero comprar aquela garrafa.

Ela tentou, mas não conseguiu disfarçar o calor que sentiu por dentro.  Elogiou efusivamente a escolha e pediu que eu confirmasse o desejo.  Contei a ela a história do Shazam, mas percebi que a tal garrafa não era de um Croft.  Perguntei a ela se havia um Croft 1994 para venda.  Ela lamentou.  Insisti.  Ela, então disse que veria o estoque.  Papo de vendedor.  Olhou o computador sem permitir que eu visse a tela.  Não deve ter visto nada.

– O senhor está com sorte hoje!

Disse apenas isso e se retirou.  Percorreu todo o salão até o fundo, entrou por uma porta.  Deve ter demorado pouco mais de cinco minutos para retornar, com uma caixa de madeira na mão.  Dentro dela, sob a tampa de acrílico, uma garrafa de Croft 1994.  O preço? O mesmo da outra garrafa, mas sem aquele sensacional desconto.  No free shopping do aeroporto lisboeta ela custava quase 400% mais caro.

– Não restam muitas.  Está se tornando artigo de colecionador.

Fuçou um pouco mais o computador, virou o monitor na minha direção.  Era o site da Wine Searcher ou da Wine Spectator, não lembro ao certo, no qual havia loas semelhantes aos do Instituto do Vinho do Porto (que transcrevi acima) à safra de 1994.  Dedicando-me toda a atenção do mundo, e ignorando que havia já algumas pessoas na fila para serem atendidas atrás de mim, deu orientações sobre guarda e consumo.  As orientações de guarda, desde então, vem sendo seguidas à risca.  O consumo…  Bem, há que se esperar uma ocasião à altura.  Algo como o nascimento de um neto ou a sorte de um polpudo prêmio de loteria.

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One Comment

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  1. Fodástico, o post! Muito bom mesmo! Ótima história e forma perfeita. Curti pra caramba.

    Obrigado.

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