O jantar perfeito

– Cara, você tem que ver um vídeo de uma parada que eu descobri lá no Porto que a gente tem que ir.

Fiona, a princípio, fez pouco caso das minhas palavras e da minha capacidade de descobrir coisas realmente interessantes para se fazer numa viagem.  Por sugestão dela – que ultimamente anda muito íntima da cozinha – eu havia dado início a buscas por restaurantes legais para conhecer na viagem. Mais que refeições, ela queria experiências gastronômicas. E eu estava convicto de que havia achado. Ela, por sua vez, estava convicta de que eu jamais acharia.

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Só muitas horas depois, após eu insistir, ela deu o braço a torcer. Viu o vídeo (aguarde até a próxima quinta-feira para ver). E cravou: “eu tenho que ir nesse lugar comer essa carne“.  Eu não tinha quase nada do roteiro pronto naquela altura do campeonato, mas uma coisa já era certa: nós jantaríamos no Vinum at Graham’s.  A reserva, eu a fiz com a maior antecedência que o site me permitia.  Depois, foi só esperar o tal dia chegar.

Vinum at Graham's
Vinum at Graham’s

Dali por diante, toda vez que a nossa viagem virava tema de conversa em família ou entre amigos, ela falava do tal lugar que ela queria ir e pedia para eu mostrar o vídeo.

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A esta altura eu ainda não sabia, mas depois descobri, que o Vinum era muito mais do que aquele belo pedaço de carne que o vídeo exibia. Ele era – desculpe, na verdade ele é – um somatório de fatores  favoráveis à exploração do que de melhor existe na cozinha portuguesa, desde os ingredientes até o vinho que acompanha cada refeição.

Iñaki Lz de Viñaspre, presidente da Sagardi
Iñaki Lz de Viñaspre, presidente da Sagardi

O próprio site do Vinum já dá uma ideia do que se trata: uma sociedade formada pela Sagardi, uma conceituada empresa no ramo gastronômico, comandada por Iñaki Lz de Viñaspre, um igualmente conceituado chef basco, e por uma família britânica muito conceituada no ramo enófilo (Symington) – estes, os donos da Graham’s há mais de cem anos.  O resultado, ao que parece, é uma culinária autêntica do norte de Portugal voltada para se harmonizar com os vinhos produzidos pela família Symington no Douro, sejam Douros DOC, sejam vinhos do Porto Graham’s.

Na prática, o resultado é um belíssimo e chiquérrimo restaurante situado num promontório com vista perfeita para o Douro e a Ponte Luís I, no qual o atendimento só é comparável à qualidade da comida.  Um ambiente perfeito, com comida excepcional e vinhos para acompanhar que dispensam comentários.  Experiência imperdível.

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A princípio, eu fiz pouco caso do caminho até o restaurante: pretendia ir a pé até lá, passeando.  Subestimei as ladeiras de Gaia.  Fiona, porém, bateu o pé.  Propus, então, que caminhássemos até o outro lado do Douro para ver as cidades e a Ponte Luís I iluminadas.  De lá pegaríamos um táxi para chegar ao restaurante.  Deu quase tudo certo.

Tirei fotos lindas das duas margens do Douro.  Foi um passeio realmente muito agradável.  Mas…  Sempre existe um “mas”, do contrário, não há história para contar.  A adversidade é o que torna tudo mais legal – ou não.

Vila Nova de Gaia
O Porto, visto de Vila Nova de Gaia durante o passeio

Mas eu comecei a perceber que não havia táxis do outro lado da margem.  Discretamente, eu procurava, esticava o olho, e não via nada além de lojas fechadas, bares vazios (era uma terça-feira, a vida noturna não estava em alta por ali) e carros particulares estacionados.  Comecei a suar frio; minhas mãos estavam geladas, não exatamente por causa da brisa que soprava.  Fiona iria me matar se tivesse que subir a ladeira a pé ou voltar até o Porto para pegar um táxi.

Minha aflição já estava à flor da pele.  Fiona notou e eu tive que comentar, temendo pelo pior.  Vimos um táxi passando na direção oposta.  Parecia estar conduzindo um passageiro, não deu para ver ao certo.  Como eu não consegui que ele me visse, foi melhor acreditar que ele realmente estava ocupado.  Quase chegando na estação do teleférico, próximo do início da ladeira, onde há um ponto de táxi (o início do percurso do mapa abaixo), ainda não havia certeza do sucesso do plano.  De repente, como que enviado pela Providência Divina, surge um táxi vindo na direção oposta que, numa manobra absolutamente ilegal, vira-se ao contrário e estaciona no ponto.  Ufa!  Por míseros 6€, fomos conduzido em uma Mercedes-Benz ladeira acima, por ruas estreitas onde sequer calçadas existem (andar a pé ali seria uma baita aventura, ainda mais à noite), em menos de cinco minutos, até o Vinum.  Eu me livrara da morte precoce por muito pouco.

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O Vinum não fica onde o Google Street View diz que ele fica (o Google indica que o Vinum fica no local indicado como Rua de Rei Ramiro 366-466, no mapa abaixo).  No local indicado pelo Google Maps ha uma entrada da Adega Graham’s, mas ali não é a entrada do restaurante.  Na verdade, ele fica um pouco mais longe (no fim do percurso indicado no mapa abaixo).  Se eu não tivesse morrido no início da subida da ladeira, por falta do táxi, certamente eu teria sido trucidado quando descobrisse que o fim do caminho ainda não era, na verdade, o fim do caminho.  E o fim, na verdade, fica uns 500m depois.

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A minha mesa ficava num salão situado em uma varanda envidraçada com vista perpendicular para a Ponte Luís I.  O meu pedido de uma mesa junto à janela não foi atendido, mas eu pouco me importei com isso.  A beleza do restaurante, contudo, ficava no salão interno, com mesas belíssimas situadas em meio a barris de vinho do porto e outros objetos decorativos referentes àquela indústria, quase um museu.

Salão interno do Vinum
Salão interno do Vinum

– O que os senhores vão beber?
– Não sei, porque talvez uma garrafa de vinho seja muito para cada um, e eu quero comer peixe, ela quer comer carne…
– Qual carne?
– O costeletão de vaca velha de Trás-os-Montes.
– Nós não possuímos corte dessa carne fino o suficiente para uma pessoa. É uma carne com corte alto.
– Então está resolvido. Vamos dividir um costeletão.
– Muito bem. E para beber?
– Não sei… O que o senhor sugere?
– Posso realmente dar uma sugestão? Sirvam-se às taças. Eu vos guio e ofereço um vinho branco para acompanhar a entrada, um tinto para a refeição e um vinho do Porto para acompanhar a sobremesa, harmonizando com o que pedirem. Se não gostarem ofereço outro, sem compromisso. Que tal?
– Ótimo.

Nem preciso dizer que todas as sugestões foram tão honestas quanto excelentes.  Ele poderia ter me oferecido os vinhos mais caros, mas preferiu realmente os mais adequados, como um vinho do Porto ruby (o mais simples e barato do cardápio) para acompanhar a sobremesa.

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A parte externa da varanda sob o parreiral e, ao fundo, a parte fechada da varanda. Nós nos sentamos na primeira mesa à esquerda do salão coberto.
A parte externa da varanda sob o parreiral e, ao fundo, a parte fechada da varanda. Nós nos sentamos na primeira mesa à esquerda do salão coberto.

O casal sentado na mesa ao lado já estava terminando a refeição.  A sobremesa que pediram era linda e veio acompanhada com um garrafão de uns 5l ou 10l de Graham’s 20 anos.  No meio do salão, em uma mesa um pouco maior, brasileiros e portugueses conversavam em voz alta sobre assuntos chatos.  Parecia terem encerrado um longo expediente executivo e seguido para ali para descontrair a tensão do dia de negócios.  O cicerone português parecia nitidamente incomodado com o tom de voz alto dos brasileiros, respondendo em voz baixa todas as perguntas que lhes eram feitas em altos brados.  A mulher brasileira, em especial, com forte sotaque paulistano, era a que falava mais alto; o seu colega, com sotaque paulistano mais discreto, não falava tão alto, mas os assuntos eram disparados os mais chatos.  Nenhum dos dois falava sobre boas coisas da vida, causos do passado…  Só política e economia – falando sempre muito mal do governo, lógico.  Na parte externa da varanda, fora do alcance de qualquer olfato, um casal fumava seus cigarros, enquanto curtia a brisa do Douro e as luzes das margens, sob um pequeno parreiral.

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Uma imagem vale mais que mil palavras.  E eis que, no meio do jantar, a lua surge no horizonte para nos brindar.

Vila Nova de Gaia
A lua sobre o Douro

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Se o costeletão era a certeza do jantar, desde muitos meses antes da ida ao Vinum, a sobremesa era a incógnita.  Fiona escolheu um tarte de queijo com geleia de mirtilos para dividirmos.  Não havia necessidade de duas sobremesas após tão faustosa refeição.

Bem, arrisco dizer, sem medo de errar, que foi uma das sobremesas mais sublimes que eu já comi na vida.  Sabe o equilíbrio perfeito entre o doce e o salgado?  Ele estava presente ali.  Coisa de outro mundo.

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Vinum at Graham's
Costeletão de vaca velha de Trás-os-Montes

Fiona saiu de lá dizendo que foi a melhor carne que ela já comeu na vida.  Eu saí extremamente satisfeito.  A carne era realmente excepcional, de outro mundo.  Mas como se come batata na Europa?…  Não podiam, em um lugar tão espetacular, cuidar para servir um acompanhamento menos comum do que batatas aos murros?  De tudo, porém, uma única certeza: todas as vezes que eu for ao Porto, voltarei ao Vinum.

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