Sublime perfeição

Empolgado com o sucesso da seleção do Vinum, segui a minha saga na busca por experiências gastronômicas na cidade do Porto. Na pesquisa, constatei que o restaurante melhor avaliado pelos sites dedicados a turismo na Ribeira se chamava Adega São Nicolau (o nome se deve à travessa homônima, na qual ele se situa, que, por sua vez, deve o nome à igreja situada no alto da referida travessa). Desde então, ele passou a figurar no meu roteiro. Não como algo imutável, mas como uma alternativa óbvia caso tudo desse errado.

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A Ribeira do Porto é a zona mais baixa da cidade do Porto, situada entre a Ponte Luís I e o bairro de Miragaia. É uma pequena faixa de terra, imprensada entre a escarpa que sobe para a parte alta da cidade, onde se concentra o turismo óbvio da cidade. Uma espécie de Copacabana, em escala reduzidíssima. Ali, empilhados sobre as ainda existentes bases das antigas muralhas da cidade, prédios coloridos se acotovelam caoticamente, exibindo roupas penduradas nas varandas e gradis belíssimos. Aos seus pés, todo tipo de bares e restaurantes, prometendo oferecer, principalmente aos turistas, as mais variadas autênticas experiências gastronômicas portuguesas.

Porto
Caótico casario da Ribeira do Porto

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Há quinze anos, foi ali na Ribeira, mais especificamente na Rua da Fonte Taurina – uma das mais repletas de restaurantes que parecem valer a pena a visita –, que eu vi uma das coisas mais incríveis que Portugal pode mostrar a um turista lusófono: uma briga.

Porto
Rua da Fonte Taurina de manhã cedo

Enquanto aqui no Brasil nós desaprendemos as noções de respeito, em detrimento do uso de armas de fogo, os Portugueses parecem se manter fieis às convicções acerca do valor da vida humana. Talvez por serem tão apaixonados e darem tão valor à língua que falam. Eles amam discutir (mais para o bem que para o mal). Por isso, as brigas por lá são grandes discussões. Raramente descambam para as vias de fato. Tiros? Impensável. O desafio verbal de felinas ofensas é o que os seduz, e é o que eles efetivamente praticam.

Por isso, se estiver em Portugal, não fuja quando perceber um tumulto. Ao contrário, vá assistir. Forme a rodinha. Tente entender cada palavra, da pronúncia à maldade que ela contém. Será uma formidável aula do mais belo português felino.

No dia dessa briga, eu estava comendo um belo bife com batatas fritas enquanto a minha irmã, sofrendo há mais de dez dias com um piriri histórico, copia sopa. Coitada! Do lado de fora, começou uma confusão, entre uma senhora de lá os seus sessenta anos e um brutamontes com pelo menos o dobro do tamanho dela (em altura e largura). Teve dedo na cara, grito, olho no olho, mas ninguém encostou em ninguém (nem os brigões, nem a turma do deixa disso). O bafafá durou uns dez minutos, deu tempo até de pegar a câmera (VHS) e gravar um trecho.

O restaurante continua lá. Os brigões, não sei.

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Várias outras coisas acabaram me interessando na Ribeira, como alguns Wine Bars (não todos, a maioria tem aquela aparência típica de pega-turista) e um ou outro restaurante. No geral, porém, pareceu-me que os restaurantes ali são mais aparência do que essência. Isso não significa que você não vai fazer uma boa refeição em qualquer um deles, muito pelo contrário: comer bem em Portugal é a regra; a questão é quanto se paga por isso.

Nesse sentido, a Adega São Nicolau realmente se destaca. Primeiro, pela localização: ela está no fim do furdunço, quase na porta dos fundos da Ribeira (a porta da frente seria o Rio Douro). Segundo pela falta de ostentação típica de alguns restaurantes da área. O objetivo ali não é ser chique nem fino, é ser autenticamente português: confusão, simpatia, bom humor, sinceridade e boa comida.

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Tão bom que a Adega passou de apenas uma opção caso tudo desse errado para uma certeza: comemos lá duas vezes. Em ambas, sentamos em mesas do lado de fora, na calçada, que me pareceu o lugar mais legal, por permitir ver o movimento, apesar de um tanto confuso e apertado. A vista para o Douro estava incluída no pacote, e eu não quis dispensá-la.  A propósito, fica a dica, é um restaurante pequeno, com poucas mesas disponíveis.  Chegue fora dos horários de pico ou vá com paciência para esperar por uma mesa sentado na escada ao lado.  E não espere exclusividade na mesa nem espaço: dois casais dividirão uma mesa para quatro pessoas, se isso for necessário.

Adega São Nicolau
Mesa na calçada, vista para o Douro

Na primeira, um almoço: bolinhos de bacalhau (lá eles chamam de Pastéis de Bacalhau, não vá cometer a gafe de chama-los pelo nome brasileiro) de entrada, cortesia da casa. Sorri e agradeci o simpaticíssimo garçom. Peguei um deles e pus na boca e… Eu jamais havia comido, e acho que jamais vou comer, um bolinho de bacalhau tão perfeito. Equilibrado, sem carregar no gosto do bacalhau nem na batata, sem espinhas, desmanchava na boca como algodão doce (não há hipérbole nem eufemismo nesta afirmação). Um negócio de outro mundo.

Adega São Nicolau
Desmanchavam na boca feito algodão doce

O prato principal não foi tão sensacional assim: bacalhau à lagareiro para a Fiona, vitela para mim. Porções generosas, maiores que a fome de uma pessoa mas menores que a fome de duas. Tudo servido em louças belíssimas, da Real Companhia Velha (a mais antiga Cave de Vinho do Porto). A vitela era mais saborosa que aquela do “A Curtidoria”, sem ser espetacular. O bacalhau também era muito bom, mas também não digno de nota.

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Na segunda vez, um jantar.

Adega São Nicolau
Mesa ao ar livre, vista para o Douro

– O que são campas?
– São camarões pequenos.

Fiona pediu as campas. Camarões tão pequenos quanto os nossos VG. Fiquei imaginando que, se aqueles eram os pequenos, os grandes não deveriam ser do tamanho de lagostas. E olha que eram muitos (uma tigela de respeito). Achei que ela não conseguiria comer tudo, mas ela foi valente e liquidou-os todos. Eu fiquei só no bolinho de bacabalhau. Aquilo era tão gostos, mas tão gostoso, que eu não queria saber de outra coisa. O garçom me zoou.  Aliás, ele já havia me zoado antes porque eu estava dando atenção ao telefone, e não à minha companhia. Nesta, eu lhe dei ouvidos, naquela, ignorei.  Voltaria lá só para comer aqueles bolinhos tantas vezes tivesse a oportunidade. E acho que jamais voltarei a comer outros, porque não chegarão aos pés da memória daqueles. Sublime perfeição.

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