Lello & Irmão

Saindo do Miradouro da Vitória, eu subi a Rua de São Bento da Vitória por entre as elevadíssimas, e até certo ponto opressoras, fachadas do Mosteiro de São Bento da Vitória e da Antiga Casa de Detenção, até o amplo Campo dos Mártires da Pátria.  Atravessei a Rua de São Felipe de Nery e continuei reto pela Rua Dr. Ferreira da Silva, passando entre o prédio principal da Universidade do Porto e a Praça dos Clérigos, até chegar na mais famosa livraria do Porto – possivelmente, a mais famosa de Portugal: a Lello & Irmão.

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A minha história com a Lello (permito-me chamá-la assim na intimidade) começou muito antes de eu sequer saber que ela existia – muito antes também de ela se tornar mundialmente famosa.  Meu avô tinha um Dicionário da Lello do tempo do ronca.  Sei lá, aquilo devia ter mais de cinquenta anos quando eu lho fui apresentado.  E eu só vim a tomar conhecimento da sua existência – e da sua preciosidade – porque meus pais viajariam, pela primeira vez, dali a alguns dias, de férias para Portugal.  A encomenda do meu avô foi muito simples: um dicionário novo.

Capa do meu dicionário
Capa do meu dicionário

Não foi naquela viagem que meus pais conseguiram atender a encomenda.  Ainda não havia uma edição nova do tal dicionário desde o tempo em que aquele havia saído do prelo.  Só na viagem seguinte, alguns anos depois, é que acharam a nova versão, atualizada, revista e ampliada.  Um verdadeiro assombro!  Foi paixão à primeira vista.  Meus olhos devem ter brilhado tanto que meu avô, ao receber o dicionário novo, deu-me o velho.  Muito tempo depois, quando ele se foi, a única coisa que se ocupou de legar foi o dicionário – deu-mo, e eu o tenho até hoje, a despeito de edições mais recentemente publicadas.

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A Lello & Irmão sempre existiu.  Ao menos desde 1906 o prédio está lá, no mesmo lugar, com a mesma decoração.  A empresa existe há mais tempo, desde 1869, tendo adquirido o nome atual em 1894, quando José Pinto de Sousa Lello e seu irmão António Lello a compraram.  O mundo, porém, só a descobriu recentemente, na carreira do sucesso de Harry Potter.  Isso porque J.K. Rowling, a autora da saga, morou no Porto por alguns anos e utilizou a icônica escadaria da Lello, que habitualmente frequentava, para descrever a escadaria de Hogwarts.

Dali por diante, a vida na Lello jamais seria a mesma.  Tanto turistas quanto aficionados pela saga passaram a se dirigir ao Porto, mais especificamente à Lello, para conhecer a escadaria – e também o belíssimo prédio da livraria.  O negócio chegou a tal ponto que a Lello, desde o verão de 2015, cobra dois euros de cada visitante pela entrada – valor que pode ser abatido da compra de qualquer livro durante a visita.  Foi a forma encontrada para controlar o número de visitantes (máximo de 80 pessoas a cada quinze minutos, ao que parece) e viabilizar economicamente a manutenção do prédio histórico.

Como hoje é dia de vídeo, aí vai ele, mostrando o prédio.

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A compra do bilhete é feita em uma casinhola (talvez eu pudesse chamar aquilo de contêiner, talvez de quiosque) situada na calçada oposta à Lello, toda grafitada com motivos alusivos a Fernando Pessoa (também pode ser feita online).  Ali, uma belíssima moça me atendeu com um sorriso tão largo que eu, aproveitando a distância que a Fiona se encontrava, achei que se destinava somente a mim.

– Bom dia!
– Bom dia!

Como eu estava ali parado, sem falar nada, apenas devolvendo o sorriso à moça, com uma fila considerável atrás de mim, ela mesma tratou de dar andamento à conversa.  Afinal de contas, aquele sorriso não era somente para mim.

– Que desejas?

Eu não podia ser sincero naquele momento.  Contive-me e fui direto ao assunto, ainda um tanto atordoado.

– Eu quero um bilhete para duas pessoas.
– Você quer dizer dois bilhetes para uma pessoa, não é?
– Isso!  Você tem razão.  Desculpe.

Ela então deu outro largo sorriso, aquele sorriso da satisfação por ter pego alguém pelo pé ou por ter contado a melhor piada do salão, pegou os bilhetes na impressora e mos entregou.

– Próximo!

*****

A Lello é apertada.  Ou melhor, ela não é apertada, mas aquele mundo de gente faz com que ela fique apertada.  Eu, que não sou fã de Harry Potter, estava mais interessado em consumi-la como livraria do que como museu.  Queria ver os títulos disponíveis, passear pelo seu acervo, descobrir algo interessante para ler e comprar.  Mais especificamente, eu estava interessado em um livro específico, a autobiografia de Sir Alex Ferguson, antigo técnico do Manchester United, que não está disponível no Brasil em língua portuguesa.

Lello & Irmãos
Interior da Lello: apertado

Demorei uma eternidade esperando a minha vez de subir a tal escadaria.  Desceu gente para caramba e, mesmo assim, o andar superior continuava lotado.  Sem falar na falta de educação das pessoas: ao invés de tirar uma foto e ceder a passagem, nego quer tirar várias fotos, “deixa eu ver se ficou bom“, “tira outra“, “agora assim“, e por aí vai.  Cada um quer tirar uma foto única, perfeita.  E não dá para conseguir isso ali.  E aí eu estou lá esperando pacientemente no pé da escada aquela cabeçada tirar suas fotos e descer para eu, enfim, subir; e vem uma velha e sobe, empurrando todo mundo, porque não pode esperar também.  Difícil…  Há que se ter muita paciência.  Muita mesmo.

*****

Então lá estava eu, no andar superior, observando os títulos da sessão de História.  Quanta coisa legal!  Quantos livros diferentes daquela lenga-lenga de best-sellers que a gente tem aqui.  Quantos livros técnicos, profundos, sobre história de países e civilizações que não se revelam interessantes do lado de cá do Atlântico.  Não falo só da História de Portugal, mas de um monte de outras Histórias gerais ou de fatos específicos que simplesmente são ignorados nos prelos e pelas livrarias brasileiras.

Só que, no andar superior, o espaço é ainda mais restrito que no andar inferior.  E aí vem uma mulher, de feições caucasianas, pedir licença (em inglês), querendo que eu me afastasse de onde estava, para ele poder tirar uma foto limpa da escadaria.  Apenas olhei para ela, com cara de cachorro rosnando, e ignorei o pedido.  Ela caiu na asneira de insistir.  Fez o pedido errado para a pessoa errada no momento errado.  Eu respondi, também em inglês.

– Deixa eu ver se eu entendi: eu estou numa livraria vendo livros e você quer que eu pare de fazer o que eu estou fazendo para você tirar uma foto?

Ela nem respondeu.  Dava para ver na cara dela a vergonha que estava sentindo.  Eu emendei:

– Não.  Por favor, espere eu terminar.

Outra moça lá na escadaria, sem saber o que se passava, ficou impaciente.  Eu pude perceber olhando para ela com o rabo do olho.  Do meu lado, a fotógrafa frustrada oscilava entre justificar-se pela demora na fotografia e pedir-lhe desculpas e paciência.

Eu devo ter demorado ali uns cinco minutos ainda.  E ela esperou, sem dizer uma só palavra.  No fim, eu fiquei com a sensação de ter exagerado.  A Lello, definitivamente, não é mais uma livraria, é um museu.  Tanto que eu não encontrei o livro que procurava, mas comprei um prendedor de papel que tenho agora na minha mesa, para o qual olho todos os dias e lembro com carinho da Livraria Lello (ou seja, um souvenir).

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