Precisamos conversar sobre o AquaRio

Você mora no Rio de ainda não foi conhecer?  Você não mora no Rio e tem vontade de conhecer?  Você já conheceu?  Então precisamos conversar.

Numa cidade com elevado potencial turístico mas com uma população interna muquirana (o carioca, em geral, prefere pagar barato por uma porcaria do que caro por algo de qualidade), um empreendimento assim é um investimento de elevado risco.  Associe-se nessa equação certa dose de megalomania e ganância política do prefeito, com uma pitada do jeitinho brasileiro de inaugurar obras.  Pronto!  O resultado é o AquaRio: o maior aquário da América do Sul (como se isso fosse grande coisa).

O local da instalação é apropriado.  Com as tentativas de revitalização da Zona Portuária carioca, quanto mais instalações capazes de manter a presença do público no local, maiores serão as chances de sucesso que essa empreitada terá.  Começou com o Museu de Arte do Rio, continuou com a Queda da Perimetral, o Museu do Amanhã, depois o VLT e, agora, o AquaRio.  Há muito mais para acontecer ali (tirar barracões velhos de escolas de samba, inaugurar alguns prédios públicos como a Fábrica de Espetáculos do Teatro Municipal e um anexo remoto da Biblioteca Nacional), mas não dá para negar que o saldo, até o momento, é positivo.

E o AquaRio é a âncora provisória desse motor de redescoberta da região – a última atração do corredor cultural, a fronteira entre a zona transitável e a zona de total insegurança pública.  Da Praça Mauá até o AquaRio, pode-se passear sem risco; dali até a Rodoviária, melhor se apegar ao patuá; dali para dentro da cidade, em sentido oposto ao mar, talvez nem o pruá seja suficiente.  Deveria ter sido inaugurado para as Olimpíadas, como o Museu do Amanhã.  Não deu.  Ficou para o fim do ano.  Menos mal.

Empolgado com a novidade, contaminado pelas práticas vividas em zonas mais civilizadas do planeta, com duas crianças em casa ávidas por atividades de entretenimento e, diante da inépcia do Zoológico do Rio de Janeiro, resolvi me associar ao AquaRio.  Comprei um passaporte anual, que dá direito a visitas ilimitadas para toda a família, além de alguns outros benefícios, como entrar no AquaRio meia hora antes de ele abrir ao público, 10% de desconto na loja e R$5,00 de desconto no estacionamento.

Chegar no AquaRio é fácil.  O VLT tem estação homônima a poucos metros de distância.  Há várias linhas de ônibus passando por ali, mas não há pontos para embarque ou desembarque – portanto, esqueça essa opção.  De carro também dá para chegar: o prédio do AquaRio tem um estacionamento próprio, com acesso pela Via Binário do Porto, sentido Rodoviária, cerca de 300m após a emersão do Túnel Rio 450 Anos.  E é aí, no estacionamento, que começam os problemas do AquaRio: a operação do estacionamento – terceirizada – é caótica.

Para conseguir vaga, é preciso chegar cedo.  É um estacionamento limitado, não muito grande, e não há opções nas redondezas.  Por isso, ele custa caro (para os padrões cariocas), R$30,00 (R$25,00 para associados) para visitantes do AquaRio (é necessário mostrar o ingresso na hora de pagar o estacionamento para fazer jus a esse preço) pelo período de 4 horas (mais do que suficiente para uma visita ao AquaRio e um passeio a pé até a Praça Mauá, menos que o suficiente para conhecer toda a região e seus museus).  Mas acho esse preço vale a pena, dependendo da sua indisposição ou inviabilidade de pegar o VLT.

As dimensões do prédio e da sua estrutura metálica original fizeram com que o estacionamento fosse montado da seguinte maneira: a partir da entrada, uma via única vai até o fim do espaço fazendo o contorno à esquerda e se ligando a outra via paralela que conduz até a saída (um “U”, por assim dizer).  Entre essas vias e as paredes externas do prédio, uma vaga 90º; entre as duas vias, três vagas 90º – o que significa que, 1/5 dos veículos fica preso por outros dois, que precisam ser manobrados pelos funcionários do estacionamento, que estão longe de ter a perícia necessária para tanto – para dizer o mínimo.  Outra coisa: também por causa da estrutura metálica, as vagas são um tanto apertadas, de modo que você precisa contar com a sorte para ter ao seu lado alguém que goste tanto do seu carro quanto você, principalmente na hora de abrir as portas.  Recomendo que todos os passageiros desçam do veículo antes de estacionar.

O problema do estacionamento continua com o acesso para pedestres – ele não existe!  Pedestres entram e saem espremendo-se entre a parede e a cancela dos carros (crianças conseguem passar por baixo das cancelas tranquilamente, não se preocupem), na mesma via que motoristas impacientes transitam com seus possantes SUV’s, achando que são tratores, tanques de guerra ou monster trucks.  O problema continua com os ditos manobristas: sua pouca educação e baixo senso de responsabilidade estimulam que você chegue cedo para não correr o risco de deixar a chave de seu carro em suas mãos.  E não termina aí.  Como se não bastassem as condições limitadas do espaço destinado ao estacionamento, a administradora e seus empregados toleram que um número de carros superior à capacidade de vagas do estacionamento entre no recinto.  Assim, carros estacionam ao longo das vias de trânsito, impedindo ou dificultando muito a manobra de outros carros.  Na minha última visita, por causa desses fatores, eu demorei mais de quinze minutos para sair do estacionamento (tempo contado entre ligar o carro, já com todos dentro dele, até passar na cancela).

Saindo do estacionamento – pela via dos carro, como já dito – é preciso contornar o prédio por fora, no imenso passeio público que se tornou a antiga Avenida Rodrigues Alves, até chegar na entrada.  Aí não há problemas – exceto pelo fato de que há uma passagem, interditada, que permitiria acesso direto do estacionamento ao saguão do AquaRio.

Os ingressos são vendidos online ou na bilheteria local, para slots de horário de meia hora.  Isso significa que, a cada meia hora, apenas um determinado número de visitantes entra no AquaRio.  Se você chegar antes do seu horário, vai ter que ficar do lado de fora do prédio esperando.  No calor escaldante do verão do Rio de Janeiro (não há sombras no local) ou num dia chuvoso, isso pode ser um tanto incômodo.  Quem é associado, como eu, entra a qualquer horário, sem necessidade de entrar na fila.

Ali, no saguão, está exposto o esqueleto de jubarte que havia no Museu Nacional.  Lindão, mas com muitos sinais toscos de reparos.  Ali também há uma lojinha acanhada e boas opções de alimentação (inclusive uma vegana, bem de acordo com a moda alimentar carioca).  O local, no entanto, tem um aspecto um tanto bagunçado e escuro que não estimula perder tempo tomando um café.  Não sei explicar, mas o desejo de sair dali rapidamente é maior do que o prazer de um descanso.

A visita começa após o visitante pegar um dos elevadores e subir até o terceiro andar.  No terceiro andar é que são conferidos os bilhetes – para isso, nova fila.  Ali também há uma cafeteria, menos vegana que a do saguão de entrada. Comprar alguma coisa ali é furada, porque não é permitido acesso com alimentos.  Depois da roleta, você pode tirar uma foto, sem compromisso, em fundo verde, para levar de recordação ao final da visita ou começar, enfim, a ver os peixes.

Bem, ver os peixes não é um eufemismo – é uma afirmação literal porque, além de vidros, pedras, areia e água, só há peixes mesmo no AquaRio.  Não há corais, não há outras formas de vida subaquática (aliás, há corais de concreto pintados toscamente), exceto por um único tanque que, na minha segunda visita, estava em manutenção.  A diferença de beleza dele, com toda aquela vida, para os demais é tão gritante que faltam palavras para explicar.  Uma funcionária, com uma foto 10x15cm do tal tanque nas mãos, praticamente chorava ao pedir desculpas pela indisponibilidade, afirmando ser ele o tanque mais bonito do AquaRio.  É mesmo.  Eu diria mais: é ele que vale a visita, não o tanque central.

AquaRio
Fergus curte o único tanque com corais do AquaRio

E também não há uma disposição temática, como “aqui, neste tanque, espécies do Mediterrâneo” ou “aqui, espécies caribenhas“.  Nada disso: tá tudo meio misturado.  No tanque que pretendia exibir espécies da Amazônia Azul, há espécies apresentadas como habitantes exclusivas do Caribe.  Até eu, que não entendo muito de biologia, percebi que não era algo lá muito organizado.

AquaRio
Em outros tanques, os peixes são bonitos mas os corais são de alvenaria pintada toscamente

As explicações  – super tecnológicas! – para o conteúdo de cada tanque também deixam a desejar.  Televisões situadas no alto (local ergonomicamente incômodo) mostram, um de cada vez, foto, nome, habitat natural e outras informações superficiais (superficiais talvez seja um eufemismo, tão pobres elas são) sobre o peixe do taque abaixo dela.  Dependendo da quantidade de espécies no tanque, talvez o habitante do tanque que despertou sua atenção não esteja no rol de exibição da tal tela, talvez a informação dele demore muito a aparecer; e, quando aparecer, vai passar tão rápido que você não vai conseguir ler tudo.  Seria melhor (e mais barato) um display fixo, à moda antiga.

Um ponto positivo, que vale a pena ser ressaltado, é que a ampla maioria dos tanques fica a pouquíssima altura do chão, de modo que crianças não precisam ser levantadas no colo pelos pais para curtirem as atrações do AquaRio.

AquaRio
Fergus curte mais um tanque em pé. Ele não pediu colo em nenhum momento.

A visita é feita em sentido único: entra-se por um lugar e percorre-se o corredores, cercado de tanques por todos os lados, até a saída.  Os corredores são muito escuros.  Meu avô, que era acometido por claustrofobia, jamais meteria os pés ali.  Não é permitido consumir comidas ou bebidas dentro do AquaRio, mas há uma máquina de Coca-Cola no meio do percurso.  Vai entender…

Também não é permitido fotografias com flash.  Mas o tanto de gente que não respeita essa regra só guarda relação de proporcionalidade com a falta de tato e de delicadeza (sim, outro eufemismo) dos funcionários do AquaRio em chamar-lhes a atenção.  Aliás, a falta de educação é recíproca: visitantes também dão mostras, aos borbotões, da sua falta de educação.  Cotoveladas, pisões no pé, empurrões, colocar crianças sobre o degrau feito para separar as pessoas do vidro, vale tudo para conseguir a melhor visão dos tanques – que se dane o resto!  Ser gentil, ceder a vez, pedir licença, agradecer, sorrir, não bater no vidro, respeitar o próximo e, principalmente, seguir em frente na visita, nem pensar!  Tais demonstrações serão raras ao longo da sua visita.  Ao menos foram ao longo das minhas duas visitas.

O tanque central não é tão grande – pelo menos não achei, eu que já conheço o de Lisboa (em breve escreverei sobre ele), o de Barcelona, Baltimore e Berlim (tudo bem que o Aquarium de Berlim é acanhado, mas ele é um anexo do Zoo, não uma atração independente).  Na minha segunda visita, deu para notar que já havia mais espécies do que na primeira, sinal de que as coisas estão melhorando.  A passagem por baixo dele, porém, é um inferno.  As pessoas param ali e não saem nunca.  E não há ventilação!  Fica um calor saariano, com gente parada, fazendo grupos para selfies, situação que piora consideravelmente quando a Margarida (o solitário tubarão e principal atração do tanque) resolve desfilar ao lado do vidro.  Ali deveria haver uma esteira rolante, bem devagar, mas constantemente empurrando as pessoas para fora do recinto; e um ventilador também, para renovar o ar.

No fim da visita, uma excepcional loja de artigos relacionados ao AquaRio brinda os visitantes ávidos por uma lembrança.  Há artigos para todos os gostos e bolsos.  Depois disso, há ainda um espaço para exposições temporárias que, agora, está abrigando o Museu do Surf – uma exposição de pranchas e fotografias do Rico de Souza, na qual, na minha humilde opinião, o principal objeto de exposição (ao alcance do toque) é uma das pranchas utilizadas por Gabriel Medina no WCT de 2014, em que ele se sagrou Campeão Mundial.

Depois disso, já no segundo andar do prédio, uma rampa interna  ou os mesmos elevadores que conduziram o visitante do saguão até o terceiro andar conduzem novamente ao saguão e, dali, à saída.

Minha visão é de que o AquaRio foi inaugurado precocemente.  Há tanques ainda vazios e a vida marinha ainda precisa se desenvolver no local.  Não há recintos de água doce – acho que valeria a pena ter um tanque de água doce amazônica, por exemplo, mas talvez isso não seja viável biológica ou operacionalmente.  O tempo permitirá que os tanques vazios sejam preenchidos, a vida marinha frutifique nos tanques e os torne mais bonitos, se tudo for bem cuidado e não faltarem investimentos.  Alguns ajustes operacionais precisam ser feitos logo, para não afugentar o público, como no estacionamento, na circulação de pessoas e nas explicações ao público do conteúdo dos tanques.  Colocar alguma espécie de iluminação mínima no percurso da visitação, no teto ou no piso, também pode ajudar, assim como melhor treinamento do pessoal para lidar com o público.  A parte dos peixes, eles estão fazendo – e muito bem por sinal.  O problema, como sempre, está nos humanos, tanto os que trabalham ali quanto nos que visitam o AquaRio.

A visita vale a pena, mesmo assim.  Chegando bem cedo (antes das 10h), comprando bilhete para o primeiro horário e com dose extra de paciência, há condições para você sair de lá satisfeito.  Não é um passeio barato (uma família vai gastar R$250,00, entre ingressos, um lanche parcimonioso e o estacionamento), mas quem disse que manter vida marinha é barato?  Atrações e qualidade têm que ter preços compatíveis.  O AquaRio se propõe a isso.  Muito melhor que o Aquário de São Paulo ele já é.  Acho que está no caminho certo, embora ainda longe do objetivo.

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One Comment

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  1. Disse tudo!
    Vi em vários pontos da visita uma placa com proibição de comer ou beber ao longo da visita.
    Fiquei sem entender ao ver, em cada andar, uma máquina de refrigerantes.
    Será que as pessoas são tão “educadas” para comprar e segurar a latinha até o término de sua visita?

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