Um giro pelo centro histórico de Braga

Alguns países do mundo se resumem a uma cidade.  Não me refiro àqueles óbvios, como o Vaticano ou outros microestados.  Falo de países cujos interiores são tão pobres que pouco há o que se descobrir de interessante ali.  Conhecendo a capital ou a maior cidade do país, a ampla maioria dos turistas já se dará por satisfeita, nesses lugares.  O Brasil é assim: o Rio de Janeiro basta.  O Brasil é o Rio; o resto é interior.  Você pode até se interessar por rodar cada canto do país depois disso, mas só pela teimosia de tentar (e não conseguir) descobrir um lugar mais bonito que o Rio de Janeiro.

Outros países do mundo se caracterizam por uma mistura de capital e interior.  Há coisas belas para se ver na capital, mas o verdadeiro ego do país se situa no seu interior.  A Argentina é assim.  Portugal também.  Lisboa é muito legal, tem muito a oferecer em termos de turismo, mas o interior de Portugal é muito melhor.  Mesmo naqueles rincões improváveis, ali repousam as mais gratas surpresas.

E tudo isso está ao fácil alcance de qualquer turista: Portugal pode ser coberto de carro facilmente em poucas horas, seja por suas pequenas dimensões, seja porque as estradas – construídas na época em que Portugal recebia polpudos investimentos do Fundo de Redução das Desigualdades da União Europeia – são simplesmente espetaculares.  Aliás, talvez o adjetivo “espetacular” ainda não seja suficiente para defini-las.  Dá gosto pagar os pedágios.

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O centro de Braga fica a quase 60km da Ribeira do Porto.  As estradas portuguesas são tão incríveis que, sem violar limites de velocidade, é possível cobrir essa distância em menos de quarenta minutos.  Há linhas de ônibus ligando as duas cidades, e trens também.  Mesmo os trens, em seus serviços mais rápidos, não cobrem a distância entre as duas estações centrais em menos de 54 minutos.  São alternativas válidas, porém, para quem não tem tanta pressa.

Para “atacar” Braga de carro, recomendo o estacionamento subterrâneo situado na Praça Conde de Agrolongo.  Diferentemente das duas grandes cidades portuguesas (Lisboa e Porto), esses estacionamentos subterrâneos próximos aos centros históricos das cidades do interior – Braga inclusive – são ridiculamente baratos e, às vezes, dotados de alguma infraestrutura mínima, como banheiros limpos e máquinas vendedoras de bebidas e snacks.

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A Praça Conde de Agrolongo não é lá um primor de beleza, tampouco pode ser considerado um ponto turístico da cidade.  No entanto, o Convento e a Igreja do Pópulo, situados em uma de suas extremidades, têm lá o seu encanto.  Se nada de interessante estiver acontecendo na praça, melhor não perder muito tempo ali não.  Dê a volta no quarteirão, pelo lado que lhe convier, até a Rua Eça de Queirós, onde você já verá o Jardim de Santa Bárbara.

Jardim de Santa Bárbara
Jardim de Santa Bárbara

O Jardim, especialmente nas épocas do ano favoráveis à floração (primavera e verão), é a coisa mais bonita que você vai ver em Braga.  Bonita e singela.  É um jardim público municipal, situado junto à ala medieval do Paço Episcopal, no coração do centro histórico da cidade.  Não há circulação de carros nas ruas ao redor, o que aumenta a sensação de tranquilidade do local.  É quase um claustro monástico ao ar livre (na verdade, ele era o claustro do antigo Convento dos Remédios), colorido pelos canteiros de flores extremamente bem cuidados e marcado por uma fonte no seu centro.  Não é à toa que suas fotos são, em geral, mais representativas nos cartões postais da cidade do que a própria Sé.

Jardim de Santa Bárbara
Jardim de Santa Bárbara

Não há nada além dos canteiros geométricos e das flores coloridas para ver ali – como se precisasse…  Talvez tomar um café em uma pastelaria vizinha valha a pena, a depender de cada visitante.  O Jardim é um lugar para se estar, tirar fotos, sentir e seguir em frente.  Com um pouco mais de calma e um pouco menos de sol, eu aproveitaria para ler um livro ali.

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O quarteirão onde está situado o Jardim de Santa Bárbara tem algumas lojinhas, mas eu arriscaria dizer que 90% da sua área é dedicada ao Paço Episcopal (e ao Jardim, que é, tecnicamente, parte do Paço) – o Palácio dos Arcebispos de Braga.  O prédio não está aberto à visitação, mas sua beleza faz valer a pena um giro pelo quarteirão para observar suas diversas fachadas – ou melhor, seus diversos prédios.  Sim, porque o Paço foi construído paulatinamente, ao longo de muitos anos, sendo que cada bispo construía uma nova ala (ou melhor, um novo prédio), imprimindo-lhe seus gostos pessoais e tendências arquitetônico-decorativas da sua época.  É, por assim dizer, um conjunto multiarquitetônico.

Primeiro a fachada voltada para a Praça Municipal, onde também está situada, do lado oposto, a Câmara Municipal.  É a mais recente.  Depois, as três fachadas voltadas para o Largo do Paço, na Rua do Souto, em cujo centro há uma fonte.  Fechando os olhos às pessoas ao redor, ali você se sentirá transportado à Idade Média.

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Todo o caminho desde o Arco da Porta Nova até a Praça da República é repleto de lojas e restaurantes.  Foi muito legal zanzar por ali sem compromisso, olhando vitrines e desejando algumas coisas.  Chamou a minha atenção – anotei na lista de coisas para fazer quando voltar – foi uma lanchonete/cafeteria situada na esquina do Largo do Paço com a Rua de Nossa Senhora do Leite.

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Por falar na Rua de Nossa Senhora do Leite, ela liga essa via principal da cidade até o Rossio da Sé (grande praça, ao lado da Sé de Braga, na qual estão desenhados os brasões de todas as cidades que compõem o Concelho de Braga), passando por trás da Sé.  Na altura da parte externa da abside da Sé de Braga, acima de uma porta notoriamente fechada com pedras, é possível ver, entre o brasão português e o brasão da cidade, uma imagem em pedra de Nossa Senhora do Leite – uma das raríssimas imagens existentes em que Nossa Senhora é representada com seios desnudos, no ato de amamentar o Menino Jesus.

Sé de Braga
Imagem de Nossa Senhora do Leite

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Voltando ao giro pela cidade, falta falar da Praça da República e da Avenida da Liberdade.  São passeios públicos belíssimos, com paisagismo bem trabalhando e canteiros floridos, ao longo dos quais se pode encontrar o principal comércio da cidade.  Para quem gosta de praticar o esporte “comprar”, é uma excelente pedida.

Avenida da Liberdade
Avenida da Liberdade

Outro cartão postal da cidade é a fachada da Igreja da Lapa, na Praça da República, com o Café Viana de um lado e o Café Astória do outro – ambos centenários.  Escolhi o Astória para entrar e tomar um café.  Atendimento péssimo, café horroroso.  Jamais voltaria ali.  O ambiente é falsamente moderno, exageradamente branco, parecendo igreja restaurada após incêndio.  O Café Viana, pelo que vi de fora, parecia autenticamente mais decadente.  Experiência para se tentar em uma próxima viagem… ou não.

O mais interessante do local é observar a quantidade de pessoas de idade que ficam ali apenas convivendo, jogando conversa fora, sem nenhum compromisso que não viver aquele rame-rame.  Devem conversar sobre vizinhos, sobre política, sobre futebol.  Falam todos como se estivessem repletos de razão, grandes conhecedores e qualquer causa que parecem ser.

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