Propostas para uma Copa do Mundo decente

Rio de Janeiro, 11 de janeiro de 2017.

Nefasto Infantino,

Foi com muita felicidade que eu recebi a notícia de que alguém sem passado desabonador iria chefiar a entidade máxima da concórdia entre as nações do planeta, em meio à turbulenta crise vivida pelo futebol pós-Copa 2016.  A queda de Blatter e a sua subida ao cargo máximo da FIFA pareciam que dariam ao futebol o ar que a maioria dos verdadeiros amantes do “beautiful game” esperavam: modernização de regras, priorização da disputa esportiva sobre a questão política, racionalização do calendário mundial e embelezamento do espetáculo.

Dito assim, parece até que seria fácil.  Realmente não seria.  A estrutura do futebol é arcaica e dominada pelo conservadorismo inglês.  Os britânicos ainda se acham donos do futebol simplesmente por tê-lo criado.  Mal sabem que esse filho já atingiu a maioridade, é dono do próprio nariz, não mora mais em casa e nem sequer vai visitar a mãe de vez em quando (foi uma vez só, em 1966, sob condições duvidosas).  Realmente não seria fácil.  Mas note quantas vezes eu utilizei, nessas poucas palavras, verbos conjugados no futuro do pretérito.

Isso é sinal de que, não apenas seria difícil, como você parece fazer questão de fazer tudo ao contrário!  Essa ideia maluca de rever jogada em vídeo trinta segundos depois do lance?  Ninguém testou a ideia numa pelada entre amigos para ver que ela não funcionaria na prática?  Ninguém perguntou ao estagiário, sentado naquela cadeirinha atrás da mesa de reunião, de cabeça baixa, tomando notas, se aquilo era viável?  Porque normalmente o estagiário – no caso, os árbitros da ativa – é quem tem o senso prático do uso da ferramenta; por melhor que seja a ideia e a intenção, ela pode simplesmente não ser aplicável na prática.  Foi o que aconteceu.

E essa agora de chamar geral para a festa?  Que parada louca!  Mais uma vez, uma ideia nobre, mas cheia de problemas práticos, que vão ser solucionados com… disputa de pênaltis ao final de jogos que terminem empatados?  Voltamos à péssima ideia da Copa União de 1988?

Infantino, Infantino…  Eu sei da ganância da FIFA, sei que esse inchaço vale milhões e milhões de moedas fortes globais…  Mas, por favor, lembre-se do futebol, aquele jogado dentro das quatro linhas.  Se tudo isso existe, é por causa do futebol, não dos milhões.  Como se diz aqui no Brasil, o cachorro é que deve abanar o rabo, não o rabo abanar o cachorro; o boi vem na frente do carro, não o carro na frente do boi.  É a ordem natural das coisas.  Subvertê-la nunca é uma decisão inteligente.

Mas, se a ideia é chamar geral para a festa, encher a piscina e colocar música alta para a mulherada dançar, não tem problema: faz uma festa para geral de tarde, com samba, Itaipava gelada e churrasco de alcatra.  Ao anoitecer, porém, a gente baixa o volume do som, coloca uma playlist de música acústica de excelente qualidade, deixa só os amigos mais chegados e as meninas mais bonitas (a Diretoria), e aí sim: serve a Heineken e a picanha, em fatias finas para o povo degustar melhor.  Fosse você carioca suburbano, não suíço, você entenderia perfeitamente do que estou falando.  Então, vou traduzir para o futebolês, para ver se você entende.

Faz as Eliminatórias e distribui 16 vagas de acesso direto à Copa do Mundo e 64 vagas de acesso a uma pré-Copa do Mundo, que vai começar um mês antes, na mesma sede do Mundial.  Os 64 que vão para a pré-Copa vão comer alcatra com Itaipava, se enfrentando em jogos de ida e volta até restarem 16 seleções (6 jogos, portanto).  Depois você faz uma Copa do Mundo normal com 32 seleções ou, o que eu acho melhor, coloca essas 32 seleções em um sistema de mata-mata com jogos de ida e volta (8 jogos para os finalistas, portanto), com os 16 do acesso direto enfrentando primeiramente os 16 da pré-Copa.  Afinal de contas, mata-mata é o que há.

Assim, as sedes não ficam inchadas, a rede hoteleira suporta todo mundo (e ainda fica feliz porque fica dois meses ocupada, não só um mês), e os melhores não sofrem muito desgaste físico.  O povo fica feliz, porque vê jogos que efetivamente valem alguma coisa (perdeu, tá fora) e o futebol é valorizado, em detrimento dessa hipócrita democracia que você diz defender.  Tudo bem que todo mundo participe da festa, mas cada um na medida da sua capacidade, respeitada a viabilidade futebolística (não econômica, porque essa é certa) do evento.

Fica a dica.

Leandro.

Anúncios

One Comment

Add yours →

  1. Sou a favor de transformar (na verdade, efetivar) as eliminatórias como primeira fase da Copa do Mundo, como uma grande fase de grupos regionalizada, e, depois, selecionar os 16 melhores para se enfrentarem em mata-mata, tipo uma mega-maxi-power Copa do Brasil.

    É mais ou menos a minha ideia. Não exatamente como ela, mas é mais interessante que a do Infantino.

Você quer comentar? Clique aqui!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: