O estímulo certo

Felícia começou a falar muito cedo.  Com pouco mais de um ano de idade já tinha um vocabulário extenso e, aos dois, já formava frases inteirasFergus não.  Sempre foi mais econômico.  Durante muito tempo se limitou apenas em concordar com as propostas que lhe eram feitas pelas pessoas ao redor – a Felícia, na maioria das vezes, traduzindo em palavras o que ele pensava mas não queria dizer: “É!“, dizia ele.  Depois veio o “não” e, no último mês, deslanchou a falar.  Não é o esporte preferido dele, mas ele está falastrão.  Muitas palavras, pouquíssimos verbos, ele consegue se comunicar mas sem muita desenvoltura.  Muitas vezes eu tenho muita dificuldade de entender o que ele quer dizer.

Sábado, por exemplo, eu estava voltando com ele da casa da minha mãe e, no meio do caminho, ele começou a falar: “Papai, Inhêô“.  Uma particularidade: quando ele fala alguma coisa e não é atendido (seja porque foi ignorado seja porque ninguém entendeu), ele fica repetindo indefinidamente até conseguir o que quer.  No caso em questão, eu nada podia fazer porque estava dirigindo e ele estava amarrado na cadeirinha.  Aliás, para que ele queria dinheiro?  Não adiantava conversar, ele só repetia: “Papai, Inhêô“!  Estacionei o carro, ao chegar em casa, e fui tirá-lo da cadeirinha.  Aí ele apontou para o pé, descalço.  Era do chinelo que ele estava falando.  O chinelo havia caído de um dos pés e ele não conseguia pegar.  Se ele tivesse falado o verbo, é provável que eu tivesse entendido antes.

Hoje de manhã foi dia de voltar às aulas.  Na verdade, as aulas já haviam recomeçado na última quarta-feira, mas a Fiona resolveu dar uma colher de chá para a criançada, daquelas que no meu tempo não havia.  Para eles, hoje foi o primeiro dia de aula.  E vocês tinham que ter visto a revolta deles – do Fergus, principalmente – quando viram o uniforme separado sobre a cama…  Ele ficou uma arara quando eu lhe vesti a blusa, tão revoltado que soltou logo duas frases completas em menos de cinco minutos:

– Não quéo eta busa! e Não quéo i scóa!

Nada como um bom estímulo para evoluir.

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2 Comments

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  1. Eu achei que “Inhêô” significasse “banheiro” e que ele estivesse apertado.

    Ele ainda não desfraldou.

  2. Não quis voltar pra casa da vovó?

    Nem tocou no assunto.

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